Arquivo da categoria: YOGA SUTRAS DE PATANJALI

Yoga: estudo da consciência

Yoga: estudo da consciência

Artigo de Alan Goode[1][2]

Tradução: Marcia Neves Pinto

Considere por um momento a questão do exercício. O que é exercício e porque o Hatha Yoga não é classificado como exercício? E por que os professores de yoga parecem ofendidos com a mera associação?

O exercício está descrito no dicionário como o uso e o esforço dos músculos e articulações para alcançar a saúde. No Hatha Yoga, entretanto, os exercícios com o corpo geralmente são vistos como um subproduto e não como um fim em si mesmo — quase uma distração para a tarefa.

O período do yoga clássico (período de Patañjali) considera a ênfase nas posturas corporais como um precursor insignificante para o trabalho sério, sendo a definição: “Yoga é a cessação das flutuações da consciência.” (Yoga Sutras I.2). O yoga é visto como o estudo do funcionamento da mente. A maneira como a mente interage com os sentidos e a respiração e estabelece as impressões emocionais. É o estudo da consciência. O modo como somos e como a nossa mente funciona — na verdade, a maneira como interagimos conosco mesmos e com os outros.

Como é possível dizer que o uso do corpo nos asanas contém as sementes para tal estudo?

Um espectador vê na prática dos asanas um gracioso conjunto de movimentos que contém coordenação, equilíbrio, flexibilidade e resistência. Mas o mesmo pode ser dito da dança. E quanto ao praticante — que é o yogi envolvido nela. Cada asana é uma tentativa de colocar o corpo em uma atitude física, mental e espiritual.

Como BKS Iyengar diz: Asana significa postura, que é a arte de posicionar o corpo com uma atitude física, mental e espiritual. A postura tem dois aspectos. A saber: posar e reposicionar. Posar significa agir. Posar é assumir uma posição fixa dos membros e do corpo, conforme representado pelo asana específico que está sendo executado. Reposicionar significa refletir sobre a pose. A postura é repensada e reajustada para que os vários membros e partes do corpo estejam posicionados em seus lugares em uma ordem apropriada, sentindo-se descansados e tranquilos; e a mente experimente a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras e das células.

Refletindo sobre qual parte do corpo está trabalhando, qual parte da mente está trabalhando e qual parte do corpo não foi penetrada pela mente, trazemos a mente para a mesma extensão do corpo. Do mesmo modo que o corpo é contraído e estendido, a inteligência é contraída ou estendida para alcançar cada parte do corpo. A isto é o que se conhece como reposicionamento; isto é sensibilidade. Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, estamos em estado de contemplação ou meditação, o que é conhecido como asana. As dualidades entre o corpo e a mente, a mente e a alma, são vencidas ou destruídas.”[3]

Cada vez que nos estendemos (ou agimos) há uma reação. A respiração se tensiona ou a atenção oscila ou a mente reage: yogis têm notado isso e reagem — não tentando parar essa interação, mas — observando-a para estudar a consciência, em vez de simplesmente controlá-la. Quanto mais concentrado e presente se está, menos presente está a reação excessiva. Os atos realizados conscientemente são mais puros, ou mais limpos, se você prefere, porque estão menos obscurecidos ou confusos. Como resultado, eles deixam menos impressões (samskaras) na mente. É igual em todas as atividades na vida. Quanto mais internamente ocupados tornamo-nos, mais perdemos a visão de nós mesmos, atraídos por nossos sentidos em direção à confusão e à perda de centro.

A prática diária opera em dois níveis — ter uma prática diária é ter um lugar reservado no dia para estar em silêncio interiorizado, uma pausa para respirar em um mundo de aparente loucura. Isso por si só não deve ser subestimado. Através dos sentidos tornamo-nos excessivamente estimulados, tensos e impulsionados. Como Patañjali afirma, “a causa da dor é a associação do observador com aquilo que é visto e a solução reside em dissociá-los.” (Yoga Sutras II.17). A prática é a arte de quebrar os hábitos criados em uma vida agitada — um momento para ouvir em um dia de ação.

Em segundo lugar, e mais importante para o estudante sério, a prática é uma tentativa de observar as próprias reações ao estímulo. Através da prática regular a forma exterior se torna familiar (isto não é nada fácil, porque a forma exterior em si mesma é complexa e exigente) e então yogi adentra no laboratório do complexo corpo/mente, onde as ferramentas se tornam a repetição, a paciência e a observação. O ato de retornar diariamente para a postura do cachorro, por exemplo, prova conclusivamente a natureza mutável da nossa experiência — o modo como a sensação pode mudar e ser influenciada pelo cansaço, interesse, humor, pensamento e respiração. A investigação séria e a longo prazo conduz o yogi ao inextricável fato da influência dos sentidos e do pensamento sobre nossa percepção do mundo.

A repetição destas três ferramentas é básica para o ato de aprender — a aprendizagem aprimora e refina os sentidos pelo ato de repetir vezes sem conta. A repetição neutraliza o pensamento confirmando-o por meio de uma sensação. Isto desafia a tendência da mente, que quer especular em vez de experimentar. A prática diária de Sarvangasana é bastante diferente das suas ideias sobre ela.

A paciência é uma ferramenta diferente. Isso implica em esperar, mas um termo melhor seria escutar. É a arte de esperar com os sentidos abertos para descobrir ou revelar o significado oculto ou que não é aparente para o observador ocasional. O significado oculto é um princípio implícito em yoga, o pensamento segundo o qual muito do que o yoga tem para ensinar não está aparente para a análise intelectual e está contido nos exemplos que são revelados pela prática. Somente esperando e ouvindo somos capazes de esvaziar-nos suficientemente para aprender. A paciência também contém em si as sementes do zelo ardente (desejo de saber ou tapas). Aqueles apressados dificilmente comprometem-se à perquirição, na medida em que nunca irão desenvolver totalmente o desejo de entender.

Todas as práticas de yoga contêm a premissa básica da observação ou da observação desapaixonada. Esta é a arte de observar ou de testemunhar. Observamos as nossas ações e monitoramos quaisquer reações internas, para vê-las, segundo o entendimento de que limpar as lentes através das quais recebemos o mundo (os sentidos) nos ajudará a ver a natureza de nossos pensamentos em oposição aos próprios pensamentos e às complicações do mundo. Estar presente como um observador do ato, em vez de sendo partícipe ou alguém interessado nele. Isso nem sempre implica em que controlamos nossas reações. Podemos suprimi-la. É o ato de vê-las, em vez de manipulá-las, que é importante. Quantas vezes você esteve calmo por dentro, mas agitado por fora, por exemplo?

Mas não vejamos apenas a influência dos sentidos, a maneira como eles nublam nossa percepção e nos tornam incapazes de ver claramente. Como veremos mais do que o fato de sermos vulneráveis aos sentidos e à mente? O próprio Iyengar esteve intimamente envolvido nesta perquirição — a prática deve tornar-se uma busca para encontrar as raízes dessa influência. Ele é muitas vezes visto levando um asana ao extremo — “um yogi físico” — interessado em alargar seus limites e demonstrar suas proezas; mas este não é o caso e é, de fato, uma grave distorção de seu método. Assim como alguns sentam-se observando a respiração, mantendo a atenção sem oscilar, seu método requer que a mente se mantenha concentrada e observando as invasões das sensações — meditação em ação. Veja Salamba Sirsasana, por exemplo. Um minuto ou dois é um esforço; cinco minutos ou mais, um ato de resistência; mas qualquer coisa acima de dez minutos se torna um ato de atenção. Iyengar não estabeleceu chegar, mas observar. Seu método leva o aluno desde o ato de executar até o ato de ser.

O método Iyengar é um teste destes princípios no rigor do asana. Não é um enfoque sobre o corpo ou um aperfeiçoamento de alinhamento, mas uma inquirição em curso sobre a natureza da existência, a arte da manutenção de equanimidade e o esvaziamento da mente de ideias, muitas vezes descrito como as oscilações do pensamento. O que começa como um ato de disciplina e atenção deve tornar-se um estudo da consciência; a observação de quem somos nós e do modo como as oscilações do pensamento nos prendem. Para iniciar esta etapa o professor deve ficar para trás, porquanto nenhuma força externa pode interagir nesse nível. BKS Iyengar diz “enquanto executa a postura, você deve se tornar total e completamente absorvido, com devoção, dedicação e atenção. Deve haver honestidade na abordagem e honestidade na apresentação. Ao realizar uma postura, você tem que descobrir se seu corpo aceitou o desafio da mente, ou se a mente aceitou o desafio do corpo. Você está trabalhando a partir do corpo para obter uma sensação concreta da postura ou fazendo a postura porque você leu nos livros que vai obter tal e qual efeito? Você está pego pela rede do que leu, buscando pela experiência posta no papel por outra pessoa, ou está trabalhando com a mente fresca para saber que tipo de nova luz é lançada por sua própria experiência sobre a postura enquanto a realiza?

Além dessa total honestidade, você precisa ter uma tremenda fé, coragem, determinação, consciência e absorção. Com essas qualidades em sua mente, em seu corpo e em seu coração, você fará bem a pose. O asana deve consagrar com esplendor e beleza todo o ser daquele que o executa. Esta é uma prática espiritual em forma física.”[4]

O asana conduz o sadhaka para a límpida luz da própria imperfeição — sua humanidade, se preferir. No que se refere a tentar o asana, invariavelmente revela o caráter do praticante e as suas próprias falhas.

Mathew Fox comenta que qualquer prática baseada em perfeição é inerentemente imperfeita e está fadada a falhar, pois é muito rígida.[5] O yoga é tudo, menos baseado na perfeição, estando intimamente envolvido com a imperfeição do indivíduo. Quando pratico, observo minhas falhas, fraquezas, hábitos e traços de caráter. Praticar é viver de muitas maneiras no pleno conhecimento de quem realmente somos, em vez de quem gostaríamos de ser. Nós nos estudamos. Nós estudamos nossa consciência.

Novamente diz Iyengar: “Estude cada aspecto de um asana. Pode ser triangular, redondo, em forma de arco-íris ou oval, em linha reta ou diagonal. Observe todos estes pontos, estude e haja dentro desse campo, de modo que o corpo possa representar o asana em sua pura glória. Como o diamante bem lapidado, a joia do corpo com suas articulações, ossos e assim por diante, deve ser lapidada para caber na fina moldura do asana. O corpo inteiro está envolvido neste processo com os sentidos, a mente, a inteligência, a consciência e o si-mesmo. Não se deve ajustar o asana para se encaixar na estrutura do corpo, mas moldar o corpo do modo requerido pelo o asana. Então o asana terá relevância física, fisiológica, psicológica, intelectual e espiritual.

Patañjali diz que quando um asana é executado corretamente, as dualidades entre o corpo e a mente, a mente e a alma, desaparecem. Isso é conhecido como reposicionamento, reflexão na ação. Quando os asanas são realizados desta forma, as células do corpo, que têm suas próprias memórias e inteligência, se mantém saudáveis. Quando a saúde das células é mantida através da prática precisa dos asanas, o corpo fisiológico se torna saudável e a mente é trazida para perto da alma. Este é o efeito dos asanas. Eles devem ser executados de forma a conduzir a mente da sua fixação no corpo em direção à luz da alma, assim o praticante pode residir na morada da alma.”[6]

 

Artigo publicado em Iyengar Yoga Resources, October 2001/Versão online: www.iyengar-yoga.com

 

[1] Gostaríamos de agradecer a Alan Goode por enviar seu artigo para a Iyengar Yoga Resources. Alan é um professor de Iyengar Yoga,  vive e ensina em Blue Mountain, Austrália. Ele pode ser contatado pelo email: goode@pnc.com.au. Copyright © 2001 Alan Goode. Nenhuma parte desta publicação pode ser de qualquer forma reproduzida sem o consentimento prévio e expresso dos editores.

[2] Foto do arquivo de Roadtobliss.

[3] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, pág. 55.

[4] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, p. 55.

[5] Matthew Fox, Original Blessings

[6] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, p. 55.

A INVOCAÇÃO A PATAÑJALI

Geeta Iyengar
Tradução de Marcia Neves Pinto
Agora vou falar-lhes sobre a invocação a Patañjali, seu significado e simbolismo. A invocação começa com aum. Aum é o primeiro som primordial, um adi nada, um som melodioso, sonoro sublime. As três sílabas A, U, M representam toda a gama de sons e de criação. Eles
representam sonhar acordado e os estados de consciência do sono. O crescente simboliza estado transcendental. Aum é pranava, que significa o exaltado, insuperável louvor ao princípio Supremo, à divindade. De acordo com Patañjali, ele simboliza Ísvara, a divindade tasya vacakah pranavah.
Sendo a fonte de todas as energias, aum é proferido como um começo auspicioso. Nenhuma atividade sagrada será completa, profunda e perfeita sem que se efetive a graça Suprema e aum é a principal invocação para buscar essa graça.
Como a música é uma das melhores mídias para expressar entimentos, amor e devoção, mídia se inicia com aum. A invocação que primeiro cantamos é:
Yogenacittasyapadena vacam
Malam sarirasyacavaidyakena
Yopakarottamprvarammuninam
Patanjalimpranjaliranato’smi
Significado: saúdo ao mais nobre dos sábios, Patañjali, que nos deu o yoga para a serenidade da mente, a gramática para a pureza do discurso e a medicina para a perfeição do corpo.
A segunda parte descreve a estátua de Patañjali:
Abahupurusakaram
Sankhacakrasidharinam
Sahasrasirasamsvetam
PranamamiPatanjalim
Significado: saúdo a Patañjali, cuja parte superior do corpo tem forma humana, cujos braços seguram uma concha, um disco e uma espada, e que é coroado por uma cobra de mil cabeças.
Oh!,encarnação de Adisesa, minhas humildes saudações a ti.
Os autores desta invocação são desconhecidos. Não era costume naquele tempo mencionar nome de alguém como autor ou escritor. No entanto, alguns livros tradicionais mencionam que abahu purusakaram foi escrito pelo rei Bhojadeva em 1.100 D.C., autor de Rajamartanda Vrttium comentário sobre os Yoga Sutras.
Cada aspecto da estátua de Patañjali carrega um significado, como os sutras são intrincadamente redigidos. Quando se contempla a estátua do sábio Patañjali, vê-se três e meia espirais abaixo do umbigo. As três espirais indicam o pranava aum, um símbolo místico que transmite o conceito de Deus como criador, organizador e destruidor. Ele o represeta como onipresente, onipotente onisciente. Aum é composto de três sílabas, A, U e M com um crescente e um ponto na parte
superior.
As três espirais completas simbolizam as sílabas e a meia espiral, o crescente. Elas também representam os três gunas de prakrti, denominados sattva, rajas e tamas, e a aspiração por alcançar o estado de trigunatita, que é um estado transcendente. O sábio Patañjali convida nossa atenção para os três tipos de aflições, denominadas adhyatmika, adhibhautika adhidaivika, que devem ser conquistadaspor meio do caminho do yoga. As três espirais indicam que ele é um mestre do yoga, gramática e ayurveda. A meia espiral indica o atingimento do estado de kaivalya.
A concha na mão esquerda significa o estado de alerta, atenção e prontidão para encarar os obstáculos que são inevitáveis na prática do yoga. Antigamente, a concha explodiu como um aviso para a prepararação para enfrentar catástrofes ou calamidades, como é feito hoje em dia com as sirenes. É também um símbolo de jñana.
O disco na mão direita significa o esforço supremo para a destruição da ignorância e é um símbolo de proteção. A espada, escondida na cintura, indica a eliminação do ego, do orgulho ou do sentimento do “Eu”, que é o principal obstáculo que cobreo ser puro. É uma espada de jñana para derrotar ajñana. Estas três armas também indicam a contenção das flutuações mentais, remoção de obstáculos e a erradicação de aflições através da prática de yoga.
O capuz acima da cabeça é uma garantia da proteção de Adisesa, rei das serpentes. Esta proteção permanece para o praticante sempre, desde que ele se renda ao Senhor, que é representado pelo atmanjali mudra, as mãos postas em namaskara. O Bhagavatam narra a história do nascimento do senhor Krsna. Uma vez que Vasudeva foi alertada pelos Deuses celestes que seu oitavo filho, Krsna, será morto por Kamsa, ele o conduz de Mathura a Gokul para protegê-lo do demônio Kamsa. O rio Yamuna se inunda porque chovia cântaros. Nesse momento oportuno, Adisesa protegeu Vasudeva e o infante Krsna segurando o capuz acima deles como um guarda-chuva e
fez surgir um caminho, bem no meio do rio, para que Vasudeva pudesse cruzá-lo facilmente.
O senhor Patañjali indica com seu capuz que é nosso protetor, desde que destruamos com a espada do yoga os malefícios ocultos dentro de nós, purificando-nos por meio do sadhana do yoga.
A cobra de mil cabeças, sahasra sirasam svetam, indica que Patañjali nos guia de mil maneiras, mostrando-nos vários métodos de prática e a abordagem para encontrar a Alma dentro de nós mesmos.
A imagem de Patañjali mostra-o como metade homem e metade-serpente. A forma humana indica a individualidade do homem, uma vez que ele é dotado de inteligência para usar seus próprios esforços para atingir a meta. A forma da serpente sugere o movimento e a continuidade de sadhana, que não pode terminar até que o objetivo seja alcançado.
Patañjali nos indica mover-nos como uma serpente, intensa, silenciosa e rapidamente no caminho do yoga e ser um tivrasamvegin, o tipo final de aluno.
Se você tiver entendido o significado, ofereça suas preces com mente suplicante, de modo que você saiba o que o sábio Patañjali quer dizer com tajjapah tadarthabhavanam, que significa recitar as orações, consciente, devotada e repetidamente.
Falemos agora de algumas das qualidades de Patañjali, de acordo com suas obras. Patañjali é uma personalidade imortal, versátil, um mestre de conhecimentos diversos com qualidades divinas. Ele é um dharmin, virtuoso e piedoso em suas ações, um tapasvin, bhaktin, sannyasin e
devoto praticante. É um artista, hábil dançarino, cientista, matemático, astrônomo, erudito, físico,
psicólogo, biólogo, neurologista, cirurgião, médico qualificado e um educador por excelência. É uma encarnação das gloriosas qualidades desraddha, virya e vairagya. É um especialista no tempo cronológico e psicológico, bem como na ciência da gravidade. Ele transcende
purusarthas, ou seja, dharma, artha, kama e moksa, bem como prakriti. Tem memória insuperável e é bem versado na natureza e suas funções. E ainda assim, permanece um ser puro, um perfeito siddhan, uma Alma realizada. Todas essas qualidades impregnam a vida de Patañjali.
Isto não é um exagero. Os siddhis mencionados no Vibhuti Pada dizem respeito a vários aspectos da existência, do cosmos, do corpo, da mente e carregam a marca de sua autêntica e profunda experiência. Deixe-me concluir esta viagem imortal, queridos sadhakas, com um anjali, uma oferta sublime. A em nós mesmos deveria crescer com a compreensão. Quando o ego começa a dissolver-se, os olhos começam a ver a grandeza dos ensinamentos inspirados por um dos
pensadores mais originais que existiu. Nós somos mortais e Patañjali é imortal.
Assim como um rio não retém sua individualidadequando se une com o mar, que por meio de nossas práticas nos unamos ao rio de luz do yoga, que nos foi transmitido por Sri Patañjali.
Hari om tatsat
*Agradecimento especial ao BKS Iyengar Yoga Institute Amsterdam. Artigo re-postado em 4/2/2018 em https://plus.google.com/+bksiyengaryogashala/posts/ZYYQNc9fdkf

A INVOCAÇÃO A PATAÑJALI

A invocação começa com aum. Aum é o primeiro som primordial, um adi nada, um som melodioso, sonoro e sublime. As três sílabas – A, U, M – representam toda a gama de sons e de criação. Eles representam sonhar acordado e os estados de consciência do sono. O crescente simboliza o estado transcendental. Aum é pranava, que significa o exaltado, insuperável louvor ao princípio Supremo, à divindade. De acordo com Patañjali, ele simboliza Ísvara, a divindade tasya vacakah pranavah.

Sendo a fonte de todas as energias,aum é proferido como um começo auspicioso. Nenhuma atividade sagrada será completa, profunda e perfeita sem que se efetive a graça Suprema e aum é a principal invocação para buscar essa graça.

Como a música é uma das melhores mídias para expressar sentimentos, amor e devoção, a mídiase inicia com aum. A invocação que primeiro cantamos é:

Yogenacittasyapadena vacam

Malam sarirasyacavaidyakena

Yopakarottamprvarammuninam

Patanjalimpranjaliranato’smi

Significado: saúdo ao mais nobre dos sábios, Patañjali, que nos deu o yoga para a serenidade da mente, a gramática para a pureza do discurso e a medicina para a perfeição do corpo.

A segunda parte descreve a estátua de Patañjali:

Abahupurusakaram

Sankhacakrasidharinam

Sahasrasirasamsvetam

PranamamiPatanjalim

Significado: saúdo a Patañjali, cuja parte superior do corpo tem forma humana, cujos braços seguram uma concha, um disco e uma espada, e que é coroado por uma cobra de mil cabeças. Oh!,encarnação de Adisesa, minhas humildes saudações a ti.

Os autores desta invocação são desconhecidos. Não era costume naquele tempo mencionar o nome de alguém como autor ou escritor. No entanto, alguns livros tradicionais mencionam que abahu purusakaramfoi escrito pelo rei Bhojadeva em 1.100 D.C., autor de Rajamartanda Vrtti, um comentário sobre os Yoga Sutras.

Cada aspecto da estátua de Patañjali carrega um significado, como os sutrassão intrincadamente redigidos.Quando se contempla a estátua do sábio Patañjali, vê-se três e meia espiraisabaixo do umbigo. As três espirais indicam o pranava aum, um símbolo místico que transmite o conceito de Deus como criador, organizador e destruidor. Ele o represeta como onipresente, onipotente e onisciente. Aum é composto de três sílabas, A, U e M com um crescente e um ponto na parte superior.

As três espirais completas simbolizam as sílabas e a meia espiral, o crescente. Elas também representam os trêsgunas de prakrti, denominados sattva, rajasetamas, e a aspiração por alcançar o estado de trigunatita, que é um estado transcendente. O sábio Patañjali convida a nossa atenção para os três tipos de aflições, denominadasadhyatmika, adhibhautika e adhidaivika, que devem ser conquistadaspor meio do caminho do yoga. As três espirais indicam que ele é um mestre doyoga, gramática e ayurveda. Ameia espiral indica o atingimento do estado de kaivalya.

A concha na mão esquerda significa o estado de alerta, atenção e prontidão para encararos obstáculos que são inevitáveis na prática do yoga. Antigamente, a concha explodiu como um aviso para a prepararação para enfrentar catástrofes ou calamidades, como é feito hoje em dia com as sirenes. É também um símbolo de jnana.

O disco na mão direita significa o esforço supremo para a destruição da ignorância e é um símbolo de proteção. A espada, escondida na cintura, indica a eliminação do ego, do orgulho ou do sentimento do “Eu”, que é o principal obstáculo que cobreo ser puro. É uma espada de jnana para derrotar ajnana. Estas três armas também indicam a contenção das flutuações mentais, a remoção de obstáculos e a erradicação de aflições através da prática de yoga.

O capuz acima da cabeça é uma garantia da proteção de Adisesa, rei das serpentes. Esta proteção permanece para o praticante sempre, desde que ele se renda ao Senhor, que é representado pelo atmanjali mudra, as mãos postas em namaskara. O Bhagavatam narra a história do nascimento do senhor Krsna. Uma vez que Vasudeva foi alertada pelos Deuses celestes que seu oitavo filho, Krsna, será morto por Kamsa, ele o conduz de Mathura a Gokul para protegê-lo do demônio Kamsa. O rio Yamuna se inunda porque chovia cântaros. Nesse momento oportuno, Adisesa protegeu Vasudeva e o infante Krsna segurando o capuz acima deles como um guarda-chuva e fez surgir um caminho, bem no meio do rio, para que Vasudeva pudesse cruzá-lo facilmente.

O senhor Patañjali indica com seu capuz que é nosso protetor, desde que destruamoscom aespada do yogaos malefíciosocultos dentro de nós, purificando-nos por meio do sadhana do yoga.

A cobra de mil cabeças, sahasra sirasam svetam, indica que Patañjali nos guia de mil maneiras, mostrando-nos vários métodos de prática e a abordagem para encontrar a Alma dentro de nós mesmos.

A imagem de Patañjali mostra-o como metade homem e metade-serpente. A forma humana indica a individualidade do homem, uma vez que ele é dotado de inteligência para usar seus próprios esforços para atingir a meta. A forma da serpente sugere o movimento e a continuidade de sadhana, que não pode terminar até que o objetivo seja alcançado.

Patañjali nos indica mover-nos como uma serpente, intensa, silenciosa e rapidamente no caminho doyoga e ser um tivrasamvegin, o tipo finalde aluno.

Se você tiver entendido o significado, ofereça suas preces com mente suplicante, de modo que você saiba o que o sábio Patañjali quer dizer comtajjapah tadarthabhavanam, que significa recitar as orações, consciente, devotada e repetidamente.

Falemos agora de algumas das qualidades de Patañjali, de acordo com suas obras. Patañjali é uma personalidade imortal, versátil, um mestre de conhecimentos diversos com qualidades divinas. Ele é um dharmin, virtuoso e piedoso em suas ações, um tapasvin, bhaktin, sannyasin e devoto praticante. É um artista, hábil dançarino, cientista, matemático, astrônomo, erudito, físico, psicólogo, biólogo, neurologista, cirurgião, médico qualificado e um educador por excelência. É uma encarnação das gloriosas qualidades desraddha, virya e vairagya. É um especialista no tempo cronológico e psicológico, bem como na ciência da gravidade. Ele transcende purusarthas, ou seja, dharma, artha, kama e moksa, bem como prkriti. Tem memória insuperável e é bem versado na natureza e suas funções. E ainda assim, permanece um ser puro, um perfeito siddhan, uma Alma realizada. Todas essas qualidades impregnam a vida de Patañjali.

Isto não é um exagero. Os siddhis mencionados no Vibhuti Pada dizem respeito a vários aspectos da existência, do cosmos, do corpo, da mente e carregam a marca de sua autêntica e profunda experiência. Deixe-me concluir esta viagem imortal, queridos sadhakas, com um anjali, uma oferta sublime. A fé em nós mesmos deveria crescer com a compreensão. Quando o ego começa a dissolver-se, os olhos começam a ver a grandeza dos ensinamentos inspirados por um dos pensadores mais originais que já existiu. Nós somos mortais e Patañjali é imortal.

Assim como um rio não retém sua individualidadequando se une com o mar, que por meio de nossas práticas nos unamos ao rio de luz do yoga, que nos foi transmitido por Sri Patañjali.

Hari om tatsat

*Agradecimento especial ao BKS Iyengar Yoga Institute Amsterdam. Artigo re-postado em 4/2/2018 em https://plus.google.com/+bksiyengaryogashala/posts/ZYYQNc9fdkf

 

Imagem

yogāṅgānuṣthānāt aśuddhikṣaye jñanadīptiḥ āvivekakhyāteḥ

योगाङ्गाऽनुष्ठानादशुद्धिक्षये ज्ञानदीप्तिराविवेकख्यातेः I
yogāṅgānuṣthānāt aśuddhikṣaye jñanadīptiḥ āvivekakhyāteḥ

Na abertura das comemorações do centenário de nascimento de Guruji, Abhijata centrou-se no sūtra II.28 dos Yogas Sūtras de Patañjali:

योगाङ्गाऽनुष्ठानादशुद्धिक्षये ज्ञानदीप्तिराविवेकख्यातेः I

yogāṅgānuṣthānāt aśuddhikṣaye jñanadīptiḥ āvivekakhyāteḥ

Este sūtra ensina que por meio da prática dedicada (ānuṣthānāt) dos vários aspectos do yoga (yogāṅga) são destruídas (kṣaye) as impurezas (aśuddhi) e a coroa da sabedoria irradia (jñanadīptiḥ) em sua glória (āviveka-khyāteḥ).

Guruji, em seu comentário a este sutra, diz que a prática dedicada e devotada dos oito aspectos do yoga não somente diminuem, mas destroem as impurezas do corpo, do discurso e da mente (trikaraṇa śuddhi) e fazem irradiar a glória resplandecente da sabedoria (Patañajala Yoga Sūtras Paricaya), assim sintetizando os efeitos da prática do yoga. Patañjali aqui afirma que o praticante inocente e livre de orgulho por meio desta prática tem removidas as causas de aflição. Neste sutra, em vez da palavra abhyāsa empregada no sūtra I.12 (prática repetida), é usada a palavra ānuṣthānāt, implicando que a prática não é somente repetida, mas é também dedicada, impregnada de importância espiritual.

Guruji (Light on the Yoga Sūtras of Patañjali) esclarece a diferença, lecionando que a primeira (abhyāsa) traz estabilidade, mas a segunda (ānuṣthānāt) desenvolve inteligência madura. E conclue: “Yoga pode curar ou minorar nossos sofrimentos físicos, mentais, morais e espirituais. Mas a perfeição e o sucesso são certos somente se a prática dedicada é feita com amor e com todo o coração.”

Jay, Guruji!

Texto: Marcia Neves Pinto

REFLEXÕES DO RETIRO COM EYAL SHIFRONI (PARTE 1)

REFLEXÕES DO RETIRO COM EYAL SHIFRONI (PARTE 1)

Marcia Neves Pinto

Pela primeira vez no Brasil, Eyal Shifroni, um professor sênior de Iyengar Yoga doce, simples, acessível, divertido, inquisitivo e cativante, com 35 anos de estrada e quatro livros publicados sobre a prática de Iyengar Yoga com acessórios onde busca compartilhar os insights que teve durante sua prática do modo mais leal possível aos ensinamentos que recebeu da sua fonte de conhecimento, Guruji, começa nosso retiro dizendo que, se a ideia é de praticarmos yoga para diminuir os sofrimentos e  se ao praticarmos nos sentimos sofredores, miseráveis, a prática não tem sentido.

Ele diz que. usualmente, a prática de yoga é iniciada por questões físicas, mas que, em algum ponto, a prática se torna mais importante nas nossas vidas e a integramos ao nosso dia a dia, culminando por levá-la para fora da salinha de prática. E afirma: é importante nos perguntarmos por que praticamos, quais nossos objetivos e, afinal, se estamos nos dirigindo para a meta do yoga. Mas qual é a meta do yoga?

Patañjali diz nos Yoga Sutras I.2 que yoga citta vrtti nirodah. Na leitura de Satchidananda, este sutra ensina que o aquietamento das ondas mentais é o objetivo do yoga porque, de regra, a mente é que nos controla, equivalendo ao servo controlando o mestre. Portanto, por meio da prática de yoga, estou me direcionando à aquietação dos meus pensamentos? Estou indo na direção de deixar as coisas mais focadas, mais lentas, estou me tornando mais paciente comigo mesmo, com os outros? Se por meio da prática não estamos nos tornando seres humanos melhores, há algo errado na nossa prática.

Yogananda ensina que chitta é um termo abrangente para designar o ato de pensar, que inclui as forças vitais prânicas, manas (mente ou consciência dos sentidos), ahamkara (princípio do ego) e buddhi (inteligência intuitiva). Satchidananda leciona que chittam é a soma total da mente, sendo a mente básica ahamkara, ou ego, o sentimento do Eu. O intelecto ou faculdade de discernimento é buddhi. A mente que deseja, que sente atração pelas coisas exteriores através dos sentidos é manas.

Se temos controle das alterações da mente, temos controle de tudo, porque as coisas externas não nos aprisionam, nem nos libertam, somente nossas atitudes perante elas fazem isso.

Na obra Light on the Yoga Sutras of Patañjali, B. K. S. Iyengar afirma que yoga é a neutralização das ondas que se alternam na consciência; é a cessação de todas as modificações da substância mental. Yoga é a arte de estudar o comportamento da consciência, que possui três funções: cognição, volição e ação. O yoga mostra formas de conduzir alguém ao estado imperturbável do silêncio que conduz ao assento da consciência. Yoga, então, é a arte e a ciência da disciplina mental através da qual a mente se torna refinada e madura. Se ahamkara (ego) é considerando uma ponta da linha, então antaratma (Eu Universal) é a outra ponta. Antahkarana (consciência) é o que unifica as duas pontas.

A prática do yoga integra uma pessoa através da jornada da inteligência e consciência desde o exterior até o interior, unifica a partir da inteligência da pele até a inteligência do eu, de modo que seu eu se funda com o Eu cósmico. Yoga, a contenção da flutuação do pensamento, conduz à quietude, que é a concentração (dharana), que leva ao silêncio, que é meditação (dhyana), que por sua vez conduz ao estado sáttvico (sabedoria). A concentração necessita de um foco, que é o eu individual. Quando a concentração flui para a meditação, este eu individual perde sua identidade e se torna um com o grande Eu.

O praticante de yoga é influenciado pelo seu eu de um lado e pelos objetos da percepção do outro. Quando ele se deixa absorver pelos objetos, sua mente flutua. Isto é vritti. Seu objetivo é distinguir o eu dos objetos, de modo que ele não se deixe envolver por estes. Através do yoga ele deveria tentar libertar sua consciência das tentações destes objetos e trazê-la para mais perto de si. Conter as flutuações da mente é o processo que leva ao objetivo final: samadhi.

Inicialmente, o yoga atua como o meio de contenção. Quando o praticante alcança o total estado de contenção, a disciplina do yoga foi cumprida e o final atingido: a consciência permanece pura. Deste modo, yoga é tanto o meio como o fim.

E por que é importante chegar à aquietação da mente? Porque nos traz mais consciência acerca das coisas, dos outros e de nós mesmos, assim acarretando maior clareza e mais sabedoria. Quando nos aquietamos podemos refletir e perceber quem realmente somos.

No volume 8 da Astadala Yogamala podemos ler na Introductory Message (págs. 17 a 25) Guruji dizer que no momento em que pratica, se torna muito inquisitivo, embora se mantenha inocente e que essas características permitem que ele desfrute as coisas que vêm à tona durante a prática. Enquanto ele pratica, sua mente permanece atenta e completamente quieta, mas seu corpo age dinamicamente com atenção. Ele diz que todos já devem ter visto seu caráter com a qualidade do elemento fogo quando ele ensina, mas não enquanto ele pratica e que pode ser surpreendente como ele permanece suave enquanto pratica. Acrescenta que, se ele fosse duro em seu corpo e mente, provavelmente a elegância e beleza de seus asanas jamais teriam vindo à superfície.

Se trabalharmos com uma mente de pesquisadores, então ele tem certeza de que poderemos conectar a tecnologia moderna à sabedoria antiga e, com essa combinação, seria possível entender as variações de inteligência (atenção inteligente e conhecimento) e como elas trabalham. Guruji finaliza sua manifestação recomendando que pratiquemos com uma mente inocente e não desatenta, ou com baixa sagacidade ou preguiçosa. Há uma diferença entre inocência e ignorância. E esta é a razão pela qual devemos converter a indiferença em diferença, para a harmonia se estabelecer em nós.

Eyal acrescenta que se praticarmos todos os dias sem cairmos em uma prática mecânica, vamos receber algo novo todos os dias.

Namaskar e boas práticas!

Sem dharma não há Yoga

Sem dharma não há Yoga

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Sem o dharma não há Yoga. O dharma é fazer o que nos cabe, nossa parte em

cada situação que se apresenta, e, ao fazer essas e também as ações impulsionadas pelo desejo, fazer respeitando os valores universais que sabemos bem quais são, pois esperamos e exigimos dos outros!

Aqui e ali, uma palavra, uma ação ou um pensamento agressivo, raivoso, pode

acontecer, mas logo percebemos e nos sentimos desconfortáveis, culpados, nos

surpreendemos. São reações naturais dentro de determinadas circunstâncias, porém nos dá desconforto. Quando não há desconforto, temos um sério problema – a não percepção crítica de nós mesmos.

 A reflexão sobre nós mesmos – nossos pensamentos, palavras e ações – demonstra uma maturidade emocional, necessária para a vida de Yoga. Os valores universais e o valor que eles possuem são explicados pelos mestres da tradição védica. Analisar e mostrar o valor de um valor é muito diferente de tentar convencer o outro a agir de determinada maneira.

 Mas qual o valor que deve pontuar nossa vida? Poderíamos dizer que todos. Todos aqueles descritos por Sri Patanjali na lista de yamas e niyamas; todos descritos por Sri Krshna no capítulo 13 da Bhagavadgita; todos mencionados por Sri Sankara no Tattvabodha; ou em diferentes Upanishads. Mas a verdade é que “todos” é uma palavra vaga, indefinida. Na Taittiriya Upanishad, vemos a discussão sobre qual o principal dharma, o valor maior. Um mestre, denominado Satyavaca, diz que o mais importante na vida é a verdade, satyam. Outro mestre, Taponitya, não concorda e diz que tapas, a ascese, é a maior disciplina na vida. Outro mestre, Naka, diz que o mais importante é svadhyaya-pravacana, estudar, cantar os Vedas e ensinar.

 Nesta mesma Upanishad, o mestre faz um discurso para seus alunos que terminaram o estudo dos Vedas e diz que a vida deve ser vivida com trabalho, família, casamento, filhos e depois netos. Mas, a todo o momento, a vida de Yoga não deve ser esquecida, apesar das diversões e confortos. Isso porque a vida em sociedade transforma-se em vida de Yoga não por o que é feito, mas pela atitude com que é feito. E os mestres sabendo que é muito difícil o aluno lembrar-se de todos os valores mencionados e ensinados, sabem também que um valor puxa o outro e, assim, querem que um valor seja o foco diário. Um valor que, sendo considerado, chamará os outros. Esse será mahavratam, o compromisso maior. E qual deverá ser esse valor maior? Pela discussão entre os mestres, vemos que qualquer que seja o valor, não é aquele valor específico que fará a vida de Yoga, mas é o compromisso firme com um valor que fará a diferença.

 Vejamos, se a pessoa tem compromisso com a verdade, ela estará atenta a seus pensamentos, às palavras ditas e ações feitas. Terá a atenção para que esses sejam verdadeiros; para que a palavra expresse o pensamento em sua mente, e a ação seja coerente com o pensar e o dizer. Esse compromisso ocupa a vida da pessoa em suas várias áreas e fases.

A verdade torna-se uma amiga, uma referência, uma protetora. Ao valorizar a verdade, tentamos não agredir o outro dizendo coisas que não são verdadeiras. E mesmo quando um desejo aparece exigindo uma mentira, a pessoa não se permite mentir, e isso será tapas, uma ascese.

 Quando o compromisso é ahimsa, não violência, a pessoa terá a atenção ao que faz e diz para que não fira o outro, e a mentira é uma agressão, um desrespeito ao outro. A não violência leva à verdade.

O estudo e o canto védico tornam a mente mais atenta e sensível, e levará a pessoa a defender a verdade e ser disciplinado.

 Yoga é uma vida de dharma, de valores, de disciplina e estudos porque o que faz o alicerce do Yoga é a sinceridade e o compromisso para com o dharma. Somente asana, pranayama, dharana, dhyana e samadhi (a prática das posturas, dos exercícios respiratórios, da concentração, da meditação e da absorção) não fazem Yoga! É o compromisso com o dharma, a constância do compromisso e o vínculo com a tradição de estudo e os mestres e também o próprio estudo que fazem com que a vida comum seja uma vida de Yoga.

 O estudante identifica-se com a tradição, vincula-se a ela, sente-se fazendo parte de uma família – a família de dharma, de Yoga, é sua família. O estudante não está mais sozinho, faz parte da família do autoconhecimento e a expressão deste pertencer, dessa valorização, é a vida de Yoga. Onde quer que vá, a identificação com outras pessoas será pelos valores, pois dividem os mesmos valores. Os amigos e a família do yogi, ou da yogini, são aqueles que também respeitam o dharma. O que pode caracterizar a vida de Yoga é a reflexão sobre si mesmo e sua conduta a cada dia – o compromisso com os valores universais.

Texto para o Yoga Journal em Novembro de 2014

APROFUNDANDO A PRÁTICA DO YOGA

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(por Marcia Neves Pinto)

A reflexão do primeiro dia do intensivo para professores de Eyal Schifroni foi uma continuação da proposta da indagação diária de nossas motivações para a prática de yoga. O Prof. Eyal comenta que as técnicas de yoga são muito importantes, especialmente no método proposto por B. K. S. Iyengar, mas que temos que contextuá-las em todo esse arcabouço que forma a ciência, a arte e a filosofia do yoga.

Quando iniciamos a prática de yoga, é só mais uma forma de exercício, uma ginástica – exótica, mas é… Mas na medida em que progredimos, yoga vai se revelando muito mais do que práticas de posturas e respiração, vai se tornando uma forma de pensar, de agir, de viver. A maioria de nós começa estudando o corpo mas, em algum momento, passa a estudar a mente. Yoga, na verdade, é o estudo da mente, suas capacidades e limitações. O texto que lhe dá embasamento – os Yoga Sutras de Patañjali – é conhecido como um verdadeiro tratado de psicologia.

Há muita profundidade na prática dos yamas, niyamas, asanas e pranayama, se fazemos dela um laboratório de pesquisas de nós mesmos. A permanência nos asanas nos permite observar o corpo, a respiração, a mente e a relação entre eles.

Em Árvore da Vida, Guruji diz: “O corpo não pode ser separado da mente, nem a mente pode ser separada da alma.” E prossegue: “Se você, como principiante, observar o esforço envolvido na realização da postura e continuar observando-o à medida que progride, verá que esse esforço diminui a cada dia, embora o nível de realização do asana esteja melhorando. (…). Conforme vai trabalhando, você pode sentir desconforto por causa da imprecisão de sua postura. Para que isso não ocorra, você precisa aprendê-la e assimilá-la. Tem de fazer um esforço de entendimento e de observação. (…). O ioga requer análise durante a ação.”

“A mente age como uma ponte entre o movimento muscular e a ação dos órgãos de percepção, introduzindo o intelecto e ligando-o a todas as partes do corpo – fibras, tecidos e células (…), surgindo uma nova percepção. Observamos com atenção e lembramos a sensação da ação. Discriminamos com a mente. A mente discriminativa observa e analisa a sensação das diversas partes do corpo. “Finalmente, quando existe uma sensação total da ação sem quaisquer flutuações do alongamento, então a ação cognitiva, a ação mental e a ação reflexiva se reúnem todas para compor a conscientização plena (…). Essa é a prática espiritual do ioga.”

Quando a postura se torna contemplativa, atingimos o estado mais elevado de contemplação no asana, o que envolve a integração do corpo, da respiração, dos sentidos, da mente, da inteligência (ou do conhecimento) e do Eu com a totalidade da existência. Patañjali diz que, quando um asana é realizado corretamente, as dualidades entre corpo e mente, mente e alma, desaparecem. Isso é conhecido como repouso na permanência, reflexão durante a ação.

Diz Guruji: “Há dois tipos de prática de ioga. Quando você está totalmente envolvido, sem o reflexo de impressões passadas, ajustando-se e agindo passo a passo rumo à perfeição e à precisão, ele se torna espiritual. Se você estiver oscilando, se sua mente estiver divagando ou existir uma diferença entre você, seu corpo, sua mente e seus pensamentos, então esse ioga é sensual, embora o esteja praticando sob a designação de espiritual.

Voltamos, então, à segunda proposta de indagação pessoal diária, que se traduz na análise do modo como estabelecemos nossa prática de yoga, cabendo examinar o seguinte tripé para poder responder a esta questão: (1) intenção, (2) atitude e (3) aplicação. A intenção tem a ver com as razões pelas quais praticamos, com o que queremos obter por meio da prática, aferindo se estas intenções guardam sintonia com a meta do yoga, yoga citta vrtti nirodhah (I.2). Isto é, nossa prática está na direção da estabilização da nossa mente, na pacificação da torrente incessante de pensamentos que nos assomam? Ou nossa prática tem outros motivos ocultos, tais como poder, beleza, fonte de sustento, flexibilidade? É importante manter uma intenção correta e pura no caminho do yoga.

A atitude guarda relação com a forma como nos aproximamos da prática. É preciso notar que há uma diferença entre praticarmos em um grupo e praticarmos sozinhos: em grupo, além da interação com outros, abre-se espaço para a comparação, competição, vaidade, orgulho, e podemos observar nossa tendência à necessidade de aprovação, de impressionar os outros e até mesmo de nos sentirmos inferiorizados em relação aos outros (ou o contrário…). Por outro lado, quando praticamos sós, nossas tendências emocionais vêm à tona: indisciplina, impaciência, agressividade, preguiça, acomodação. É um outro terreno de observação: como nossa mente opera quando ninguém está olhando. E em yoga temos que aprender a nos desidentificarmos com a mente para observar a mente como objeto.

“Asana quer dizer postura, que é a arte de posicionar o corpo todo com uma certa atitude física, mental e espiritual. As posturas têm dois aspectos: a permanência e o repouso. A permanência implica ação (…). Repousar significa refletir sobre a postura. A postura é repensada e reajustada, para que os vários membros e segmentos corporais sejam posicionados em seus devidos lugares na ordem certa, e a sensação seja de descanso e apaziguamento, enquanto a mente experimenta a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras, das células. (…)

Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, entramos em estado de contemplação ou meditação, conhecido como asana. As dualidades entre corpo e mente, mente e alma, são vencidas ou destruídas.”

Mas a atitude tem ainda relação com outras indagações:

  • Praticamos por praticar ou para aprender? Prashant Iyengar costuma dizer que não saímos da prática do fazer, quando deveríamos adotar a cultura de praticar para aprender.
  • Praticamos com a mente aberta ou dogmaticamente? Geeta Iyengar diz que a maturidade em yoga é saber que também há outros sistemas, valorá-los, assim como à sabedoria existente neles.” Há muitas maneiras corretas (evidente que há também as incorretas). O estudo é, justamente, a exploração, a investigação, o uso da sensibilidade, contraposto à possibilidade da prática mecânica, automática.

Por fim, a aplicação se refere a como aplicamos o conhecimento obtido com a prática de yoga por meio da técnica, do exame da intenção e da atitude. Significa dizer, aferir de conseguimos tornar esse conhecimento em habilidade de praticar de maneira correta. Se sabemos como praticar quando temos uma lesão, como deveria ser a prática pela manhã e pela noite, ou se estamos cansados, deprimidos ou agitados. Enfim, se nosso conhecimento nos permite estabelecer uma prática correta diária contínua, não importa sob que circunstância nos encontremos em nossas vidas naquele dado momento.

Explica Guruji em Árvore no Ioga: “Se meu cérebro está cansado, faço halasana e recupero minha energia; se é meu corpo que está cansado, faço meio halasana e revigoro as células. Talvez vocês, mesmo cansados, façam posturas em pé. Já estão cansados e ainda se excedem no alongamento das posturas; naturalmente, ficarão ainda mais cansados. Vocês devem usar o bom senso: o que fazer, quanto fazer, quando fazer.”

A prática pessoal é muito importante porque é o momento em que nos encontramos conosco mesmos. A prática deve culminar, segundo Patañjali, no vislumbre da alma. Ao atingir esse estado, você desenvolve uma consciência madura conhecida como inteligência experiente ou madura, que não se abala, e você se torna um só com a essência do seu ser.

Diz Guruji, no mesmo livro: “Quando o corpo, a mente e os sentidos são limpos por tapas (zelo e autodisciplina baseados no desejo ardente), e quando o entendimento do eu foi atingido por meio de svadhyaya (autoexame), só então é que o indivíduo está apto para Isvara-pranidhana (entregar-se a Deus). Ele já anulou seu orgulho e desenvolveu humildade, e somente essa alma humilde é condizente com bhakti-marga, o caminho da devoção. Dessa maneira, percebemos que Patanjali não se esqueceu nem de karma-marga, o caminho da ação, nem de jñana-marga, o caminho do conhecimento, nem de bhakti-marga, o caminho da devoção.”