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Sem dharma não há Yoga

Sem dharma não há Yoga

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Sem o dharma não há Yoga. O dharma é fazer o que nos cabe, nossa parte em

cada situação que se apresenta, e, ao fazer essas e também as ações impulsionadas pelo desejo, fazer respeitando os valores universais que sabemos bem quais são, pois esperamos e exigimos dos outros!

Aqui e ali, uma palavra, uma ação ou um pensamento agressivo, raivoso, pode

acontecer, mas logo percebemos e nos sentimos desconfortáveis, culpados, nos

surpreendemos. São reações naturais dentro de determinadas circunstâncias, porém nos dá desconforto. Quando não há desconforto, temos um sério problema – a não percepção crítica de nós mesmos.

 A reflexão sobre nós mesmos – nossos pensamentos, palavras e ações – demonstra uma maturidade emocional, necessária para a vida de Yoga. Os valores universais e o valor que eles possuem são explicados pelos mestres da tradição védica. Analisar e mostrar o valor de um valor é muito diferente de tentar convencer o outro a agir de determinada maneira.

 Mas qual o valor que deve pontuar nossa vida? Poderíamos dizer que todos. Todos aqueles descritos por Sri Patanjali na lista de yamas e niyamas; todos descritos por Sri Krshna no capítulo 13 da Bhagavadgita; todos mencionados por Sri Sankara no Tattvabodha; ou em diferentes Upanishads. Mas a verdade é que “todos” é uma palavra vaga, indefinida. Na Taittiriya Upanishad, vemos a discussão sobre qual o principal dharma, o valor maior. Um mestre, denominado Satyavaca, diz que o mais importante na vida é a verdade, satyam. Outro mestre, Taponitya, não concorda e diz que tapas, a ascese, é a maior disciplina na vida. Outro mestre, Naka, diz que o mais importante é svadhyaya-pravacana, estudar, cantar os Vedas e ensinar.

 Nesta mesma Upanishad, o mestre faz um discurso para seus alunos que terminaram o estudo dos Vedas e diz que a vida deve ser vivida com trabalho, família, casamento, filhos e depois netos. Mas, a todo o momento, a vida de Yoga não deve ser esquecida, apesar das diversões e confortos. Isso porque a vida em sociedade transforma-se em vida de Yoga não por o que é feito, mas pela atitude com que é feito. E os mestres sabendo que é muito difícil o aluno lembrar-se de todos os valores mencionados e ensinados, sabem também que um valor puxa o outro e, assim, querem que um valor seja o foco diário. Um valor que, sendo considerado, chamará os outros. Esse será mahavratam, o compromisso maior. E qual deverá ser esse valor maior? Pela discussão entre os mestres, vemos que qualquer que seja o valor, não é aquele valor específico que fará a vida de Yoga, mas é o compromisso firme com um valor que fará a diferença.

 Vejamos, se a pessoa tem compromisso com a verdade, ela estará atenta a seus pensamentos, às palavras ditas e ações feitas. Terá a atenção para que esses sejam verdadeiros; para que a palavra expresse o pensamento em sua mente, e a ação seja coerente com o pensar e o dizer. Esse compromisso ocupa a vida da pessoa em suas várias áreas e fases.

A verdade torna-se uma amiga, uma referência, uma protetora. Ao valorizar a verdade, tentamos não agredir o outro dizendo coisas que não são verdadeiras. E mesmo quando um desejo aparece exigindo uma mentira, a pessoa não se permite mentir, e isso será tapas, uma ascese.

 Quando o compromisso é ahimsa, não violência, a pessoa terá a atenção ao que faz e diz para que não fira o outro, e a mentira é uma agressão, um desrespeito ao outro. A não violência leva à verdade.

O estudo e o canto védico tornam a mente mais atenta e sensível, e levará a pessoa a defender a verdade e ser disciplinado.

 Yoga é uma vida de dharma, de valores, de disciplina e estudos porque o que faz o alicerce do Yoga é a sinceridade e o compromisso para com o dharma. Somente asana, pranayama, dharana, dhyana e samadhi (a prática das posturas, dos exercícios respiratórios, da concentração, da meditação e da absorção) não fazem Yoga! É o compromisso com o dharma, a constância do compromisso e o vínculo com a tradição de estudo e os mestres e também o próprio estudo que fazem com que a vida comum seja uma vida de Yoga.

 O estudante identifica-se com a tradição, vincula-se a ela, sente-se fazendo parte de uma família – a família de dharma, de Yoga, é sua família. O estudante não está mais sozinho, faz parte da família do autoconhecimento e a expressão deste pertencer, dessa valorização, é a vida de Yoga. Onde quer que vá, a identificação com outras pessoas será pelos valores, pois dividem os mesmos valores. Os amigos e a família do yogi, ou da yogini, são aqueles que também respeitam o dharma. O que pode caracterizar a vida de Yoga é a reflexão sobre si mesmo e sua conduta a cada dia – o compromisso com os valores universais.

Texto para o Yoga Journal em Novembro de 2014

APROFUNDANDO A PRÁTICA DO YOGA

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(por Marcia Neves Pinto)

A reflexão do primeiro dia do intensivo para professores de Eyal Schifroni foi uma continuação da proposta da indagação diária de nossas motivações para a prática de yoga. O Prof. Eyal comenta que as técnicas de yoga são muito importantes, especialmente no método proposto por B. K. S. Iyengar, mas que temos que contextuá-las em todo esse arcabouço que forma a ciência, a arte e a filosofia do yoga.

Quando iniciamos a prática de yoga, é só mais uma forma de exercício, uma ginástica – exótica, mas é… Mas na medida em que progredimos, yoga vai se revelando muito mais do que práticas de posturas e respiração, vai se tornando uma forma de pensar, de agir, de viver. A maioria de nós começa estudando o corpo mas, em algum momento, passa a estudar a mente. Yoga, na verdade, é o estudo da mente, suas capacidades e limitações. O texto que lhe dá embasamento – os Yoga Sutras de Patañjali – é conhecido como um verdadeiro tratado de psicologia.

Há muita profundidade na prática dos yamas, niyamas, asanas e pranayama, se fazemos dela um laboratório de pesquisas de nós mesmos. A permanência nos asanas nos permite observar o corpo, a respiração, a mente e a relação entre eles.

Em Árvore da Vida, Guruji diz: “O corpo não pode ser separado da mente, nem a mente pode ser separada da alma.” E prossegue: “Se você, como principiante, observar o esforço envolvido na realização da postura e continuar observando-o à medida que progride, verá que esse esforço diminui a cada dia, embora o nível de realização do asana esteja melhorando. (…). Conforme vai trabalhando, você pode sentir desconforto por causa da imprecisão de sua postura. Para que isso não ocorra, você precisa aprendê-la e assimilá-la. Tem de fazer um esforço de entendimento e de observação. (…). O ioga requer análise durante a ação.”

“A mente age como uma ponte entre o movimento muscular e a ação dos órgãos de percepção, introduzindo o intelecto e ligando-o a todas as partes do corpo – fibras, tecidos e células (…), surgindo uma nova percepção. Observamos com atenção e lembramos a sensação da ação. Discriminamos com a mente. A mente discriminativa observa e analisa a sensação das diversas partes do corpo. “Finalmente, quando existe uma sensação total da ação sem quaisquer flutuações do alongamento, então a ação cognitiva, a ação mental e a ação reflexiva se reúnem todas para compor a conscientização plena (…). Essa é a prática espiritual do ioga.”

Quando a postura se torna contemplativa, atingimos o estado mais elevado de contemplação no asana, o que envolve a integração do corpo, da respiração, dos sentidos, da mente, da inteligência (ou do conhecimento) e do Eu com a totalidade da existência. Patañjali diz que, quando um asana é realizado corretamente, as dualidades entre corpo e mente, mente e alma, desaparecem. Isso é conhecido como repouso na permanência, reflexão durante a ação.

Diz Guruji: “Há dois tipos de prática de ioga. Quando você está totalmente envolvido, sem o reflexo de impressões passadas, ajustando-se e agindo passo a passo rumo à perfeição e à precisão, ele se torna espiritual. Se você estiver oscilando, se sua mente estiver divagando ou existir uma diferença entre você, seu corpo, sua mente e seus pensamentos, então esse ioga é sensual, embora o esteja praticando sob a designação de espiritual.

Voltamos, então, à segunda proposta de indagação pessoal diária, que se traduz na análise do modo como estabelecemos nossa prática de yoga, cabendo examinar o seguinte tripé para poder responder a esta questão: (1) intenção, (2) atitude e (3) aplicação. A intenção tem a ver com as razões pelas quais praticamos, com o que queremos obter por meio da prática, aferindo se estas intenções guardam sintonia com a meta do yoga, yoga citta vrtti nirodhah (I.2). Isto é, nossa prática está na direção da estabilização da nossa mente, na pacificação da torrente incessante de pensamentos que nos assomam? Ou nossa prática tem outros motivos ocultos, tais como poder, beleza, fonte de sustento, flexibilidade? É importante manter uma intenção correta e pura no caminho do yoga.

A atitude guarda relação com a forma como nos aproximamos da prática. É preciso notar que há uma diferença entre praticarmos em um grupo e praticarmos sozinhos: em grupo, além da interação com outros, abre-se espaço para a comparação, competição, vaidade, orgulho, e podemos observar nossa tendência à necessidade de aprovação, de impressionar os outros e até mesmo de nos sentirmos inferiorizados em relação aos outros (ou o contrário…). Por outro lado, quando praticamos sós, nossas tendências emocionais vêm à tona: indisciplina, impaciência, agressividade, preguiça, acomodação. É um outro terreno de observação: como nossa mente opera quando ninguém está olhando. E em yoga temos que aprender a nos desidentificarmos com a mente para observar a mente como objeto.

“Asana quer dizer postura, que é a arte de posicionar o corpo todo com uma certa atitude física, mental e espiritual. As posturas têm dois aspectos: a permanência e o repouso. A permanência implica ação (…). Repousar significa refletir sobre a postura. A postura é repensada e reajustada, para que os vários membros e segmentos corporais sejam posicionados em seus devidos lugares na ordem certa, e a sensação seja de descanso e apaziguamento, enquanto a mente experimenta a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras, das células. (…)

Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, entramos em estado de contemplação ou meditação, conhecido como asana. As dualidades entre corpo e mente, mente e alma, são vencidas ou destruídas.”

Mas a atitude tem ainda relação com outras indagações:

  • Praticamos por praticar ou para aprender? Prashant Iyengar costuma dizer que não saímos da prática do fazer, quando deveríamos adotar a cultura de praticar para aprender.
  • Praticamos com a mente aberta ou dogmaticamente? Geeta Iyengar diz que a maturidade em yoga é saber que também há outros sistemas, valorá-los, assim como à sabedoria existente neles.” Há muitas maneiras corretas (evidente que há também as incorretas). O estudo é, justamente, a exploração, a investigação, o uso da sensibilidade, contraposto à possibilidade da prática mecânica, automática.

Por fim, a aplicação se refere a como aplicamos o conhecimento obtido com a prática de yoga por meio da técnica, do exame da intenção e da atitude. Significa dizer, aferir de conseguimos tornar esse conhecimento em habilidade de praticar de maneira correta. Se sabemos como praticar quando temos uma lesão, como deveria ser a prática pela manhã e pela noite, ou se estamos cansados, deprimidos ou agitados. Enfim, se nosso conhecimento nos permite estabelecer uma prática correta diária contínua, não importa sob que circunstância nos encontremos em nossas vidas naquele dado momento.

Explica Guruji em Árvore no Ioga: “Se meu cérebro está cansado, faço halasana e recupero minha energia; se é meu corpo que está cansado, faço meio halasana e revigoro as células. Talvez vocês, mesmo cansados, façam posturas em pé. Já estão cansados e ainda se excedem no alongamento das posturas; naturalmente, ficarão ainda mais cansados. Vocês devem usar o bom senso: o que fazer, quanto fazer, quando fazer.”

A prática pessoal é muito importante porque é o momento em que nos encontramos conosco mesmos. A prática deve culminar, segundo Patañjali, no vislumbre da alma. Ao atingir esse estado, você desenvolve uma consciência madura conhecida como inteligência experiente ou madura, que não se abala, e você se torna um só com a essência do seu ser.

Diz Guruji, no mesmo livro: “Quando o corpo, a mente e os sentidos são limpos por tapas (zelo e autodisciplina baseados no desejo ardente), e quando o entendimento do eu foi atingido por meio de svadhyaya (autoexame), só então é que o indivíduo está apto para Isvara-pranidhana (entregar-se a Deus). Ele já anulou seu orgulho e desenvolveu humildade, e somente essa alma humilde é condizente com bhakti-marga, o caminho da devoção. Dessa maneira, percebemos que Patanjali não se esqueceu nem de karma-marga, o caminho da ação, nem de jñana-marga, o caminho do conhecimento, nem de bhakti-marga, o caminho da devoção.”

COMO RECONHECER A PERFEIÇÃO EM UM ASANA?

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(por Marcia Neves Pinto)

Hoje a aula do Prof. Senior Eyal Schifroni teve como fio condutor (sūtra) a estabilidade em um asana. 

No livro Mobility in Stability, Geeta S. Iyengar[1], diz que Patañjali nos deu a metodologia para alcançar a estabilidade e que a metodologia se encontra no sūtra I.12:

“abhyāsa vairāgyābhyāṁ tannirodhaḥ”

No sūtra seguinte Patañjali define que tipo de mobilidade se faz necessária:

“I.13 – tatra sthitau yatnaḥ abhyāsaḥ”

Esforço contínuo (yatha) e estável (sthitau) na prática dos oito aspectos do yoga até que se atinja o estado nirvṛttika

E o sūtra I.14 esclarece de que tipo de esforço se está falando: sa tu dīrghakāla nairantarya satkārāsevitaḥ dṛḍhabhūmiḥ, isto é, o processo contínuo e estável. Donde a prática (abhyāsa) precisa ser feita por um longo tempo, sem interrupções, com humildade e dedicação. Como praticantes de yoga temos que nos lembrar destas linhas em todos os momentos de nossas práticas, inclusive na prática dos āsanas: o āsana deve ser estável.

Estabilidade em um āsana não significa simplesmente congelarmos as ações físicas. Patañjali alude à estabilidade em um āsana no sūtra II.46, dizendo: sthira sukham āsanam, isto é, āsana é a perfeita firmeza do corpo, estabilidade da inteligência e benevolência do espírito. Assim, independentemente de qual āsana estamos praticando, ele deve ser feito com firmeza, estabilidade e empenho físico; boa vontade da inteligência mental; consciência e satisfação da inteligência do coração. Isto é como um āsana deveria ser entendido, praticado e experimentado. A prática de um āsana deveria nos nutrir e iluminar.

E, finalmente, nos perguntou o mestre:  como reconhecer a perfeição em um āsana? Ela é definida por Patañjali no sūtra II.47 como prayatnasaithilyānantasamāpattibhyām, isto é, a perfeição é obtida em um āsana quando o esforço para praticá-lo deixa de existir, isto é, quando a perseverança no esforço não é mais necessária, e o ser infinito é alcançado. A perseguição esforçada da perfeição não é mais necessária quando chegamos ao platô da estabilidade, a dizer, a mobilidade cessa porque alcançada a estabilidade na postura. Quando isso ocorre é porque o praticante atingiu um estado de equilíbrio, atenção, extensão, difusão e relaxamento simultâneos no corpo e na inteligência e estes se fundiram à alma, isto é, atingiu yoga.

 

[1] 1st Published 2012 by YOG, Mumbai, Índia.

Aplico a filosofia, a ciência e a prática do yoga à minha conduta no mundo, quando estou fora do tapetinho?

yoga, Karma Yoga

Qual caminho do yoga seguir? Na minha vida diária, minhas ações se dão de acordo com o caminho do yoga? Aplico a filosofia, a ciência e a prática do yoga à minha conduta no mundo, quando estou fora do tapetinho?

Esta a nova reflexão diária proposta pelo professor senior Eyal Schifroni no segundo dia de seu curso aberto na cidade de Buenos Aires.

Patañjali diz que a prática do yoga pode se dar de três formas, por três caminhos (marga): karma, jñana ou bhakti yoga. No livro Árvore doYoga, Guruji diz que quando estamos executando os asanas observamos três níveis de niyama: tapas, svadhyaya e Isvara-pranidhana.

Tapas é o desejo ardente de purificar cada célula de nosso corpo e de nossos sentidos. E é nesse espírito que um asana deve ser executado. É karma-yoga, yoga da ação, porque o desejo ardente de manter todas as nossas partes limpas exige-nos uma ação nesse sentido.

Svadhyaya quer dizer estudo do eu, no sentido de conhecer cada um dos três níveis e de cada uma das cinco camadas do ser humano. Sva = ritmo + dhyaya = estudo, estudo de si mesmo desde a pele do corpo, a camada mais externa, até a camada mais interna que é o próprio cerne do Ser. Isso é conhecido como jñana-yoga, yoga do discernimento espiritual.

Isvara-pranidhana é bhakti-yoga, yoga da devoção. Quando, por meio da prática, se alcança um estado mais elevado de inteligência e essa identidade madura faz com que se perca a identidade do ser, tornamo-nos unos com Deus (não um Deus externo, mas nosso próprio Deus interior) e isto é Isvara-pranidhana, a entrega de nossos atos e de nossas vontades, a renúncia a todos os frutos de nossas ações.

Cada um desses três caminhos do yoga se adapta a um tipo diferente de pessoa. Aqueles que são ativos, se encaminham para karma yoga, yoga da ação, correspondente a tapas, descrita no Baghavad Gita como uma proposta da forma como cada um deve atuar no mundo, basicamente sugerindo que a cada ação nos perguntemos qual a nossa motivação para ela, que examinemos se nossa motivação é pessoal (pelo ego, pela expectativa dos frutos da ação, pela ganância, etc) ou se executamos a ação de forma desinteressada, se fazemos o trabalho pelo trabalho, porque cumprimos com nosso dever, porque devemos o que nos cabe fazer.

As pessoas com maior tendência intelectual e filosófico, vão perseguir o caminho do yoga por meio do estudo, do intelecto, jñana yoga, que corresponde a svadhyaya.

Já as pessoas com maior inclinação devocional, que agem tendo por motivo a dedicação, a entrega, o bem comum ou maior, estas seguirão o caminho de bhakti yoga, que corresponde a Isvara-pranidhana.

Mas há um caminho à disposição de toda e qualquer pessoa rumo ao yoga. Em suma, trabalho (tapas), estudo (svadhyaya) e amor (Isvara-pranidhana) são o tripé da vida de todos nós e o que nos define é como fazemos cada uma dessas coisas: se trabalhamos visando ao lucro ou ao bem estar dos outros, se estudamos para nosso engrandecimento pessoal ou desenvolvimento espiritual, se amamos de modo apegado ou incondicionalmente.

Namaskar!

Marcia Neves Pinto

 

POR QUE PRATICAMOS YOGA?

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Por que praticamos yoga?

Esta a reflexão diária proposta pelo professor senior Eyal Schifroni no primeiro dia de seu curso aberto na cidade de Buenos Aires.

Para que tenhamos essa sensação de paz e harmonia interna, que configura, justamente, o que Patañjali nos diz ser a meta do yoga – e seu próprio conceito – yoga citta vrtti nirodhah (I.2): yoga é a estabilidade da mente. Citta é um termo abrangente para designar o princípio do pensar, que inclui as forças vitais prânicas; difere de manas que corresponde à mente ou consciência dos sentidos, à mente que deseja, que sente atração pelas coisas exteriores através dos sentidos; de ahamkara que é o princípio do ego e também de buddhi, que corresponde à inteligência intuitiva, o intelecto ou faculdade de discernimento. No sutra II.1 Patañjali nos diz como praticar yoga: tapas svadhyaya isvarapranidhanani kriyayogah.

Para Patañjali, a prática do yoga é o “yoga da ação”, kriya-yoga, composto de tapas, auto disciplina, svadhyaya, auto estudo e Isvara pranidhana, renúncia aos frutos da ação: karma, jnana e bhakti-marga, os três grandes caminhos apontados no Gita, cujas fontes são a vida, a sabedoria e a rendição do ego, respectivamente.

Na nossa prática esses instrumentos se encadeiam de modo natural: quando começamos a praticar yoga, a primeira coisa que temos que estabelecer é tapas, a disciplina interna, o desejo ardente de praticar, o esforço de estabelecer uma prática diária e constante. Essa é, sobretudo, a fase da inserção da prática dos yamas, niyamas, asanas e pranayama em nossa vida diária. Sem prática, disciplina e esforço em direção à firmeza da mente, nada pode ser alcançado. O esforço em direção à firmeza da mente é a prática (I.13), a prática contínua, o contínuo esforço de conter as flutuações da mente, selecionando eternamente cada pensamento, cada palavra e cada ação.

Na medida em que nossa prática vai avançando, começamos a ter uma melhor consciência do que fazemos e para que fazemos, fase em que começa a se instalar svadhyaya, o auto estudo, a observação, a pesquisa = sva. E é quando avançamos neste estudo, que nos desenvolvemos no caminho do yoga: a experimentação, a observação, a perquirição, fazem a prática avançar para os próximos passos no caminho do yoga, pratyahara, dharana, dhyana e, eventualmente, samadhi, essa jornada rumo ao interior que separa a consciência dos objetos exteriores.

Finalmente, prosseguindo o desenvolvimento no caminho do yoga, nos defrontamos com o último elemento, Isvara pranidhana, a dedicação de todas as ações ao nosso Deus interior, a atitude de não criar expectativas, de desprender-se, de renunciar a todos os frutos desejados. Os comentaristas consideram essa dedicação dos frutos da ação a Isvara como uma referência implícita ao karma-yoga exposto lindamente no Baghavad Gita por Krisna: “você tem o direito de cumprir seus deveres, mas não aos seus frutos; não se considere como o executor das suas atividades e não se apegue à inatividade.” (II.47).

O capítulo inicial do Baghavad Gita apresenta os princípios básicos da ciência do yoga e descreve a luta espiritual do yogi que empreende o caminho rumo a kaivalya, a libertação. No Gita, a personagem Sanjaya representa o poder da auto análise intuitiva imparcial, a introspecção discernidora. Por meio da honesta introspecção, Sanjaya analisa os feitos e avalia as forças dos exércitos antagônicos de suas tendências boas e más: autocontrole versus indulgência com os sentidos; a inteligência discernidora por oposição às inclinações sensoriais da mente; a decisão espiritual de meditar desafiada pela resistência mental e pela inquietude física; e a divina consciência da alma contra a ignorância e a atração magnética da natureza inferior do ego[1].

Prashant diz que se pode saber se uma pessoa é iluminada ou não observando a presença do ego nela: se o ego está presente, a pessoa não é iluminada. Isso não quer dizer que toda pessoa humilde é iluminada, mas apenas que uma pessoa que não é humildade não é iluminada.

Deste modo, o caminho do yoga evolui desde o esforço e disciplina para nos comprometermos com a prática diária dos quatro primeiros membros do yoga yamas, niyamas, asanas e pranayama – até que a própria prática nos traz questionamentos, fazendo-nos mudar para uma atitude de observação da prática e seus elementos – pratyahara – o que nos conduz a um outro patamar da própria prática – svadhyaya, o que permite que a prática evolua e vá estabelecendo os efeitos da prática: dharana (concentração), dhyana (meditação) e, eventualmente, samadhi (libertação).

[1] O campo de batalha dessas forças em combate é Kurukshetra (kuru da raiz sânscrita kri, “trabalho, ação material” e kshetra, “campo”). Esse “campo de ação” é o corpo humano, com suas faculdades físicas, mentais e espirituais. A esse campo o Gita se refere como Dharmaksetra (dharma, isto é, retidão, virtude, santidade, logo, “campo sagrado”) porque nele a batalha pelo que é certo se trava entre as virtudes da inteligência discernidora da alma (os filhos de Pandu) e as atividades ignóbeis e sem controle da mente cega (os kurus, ou a prole do rei cego Dhritarashtra).

Desse modo, nesta interpretação metafísica mais profunda, Dharmakshetra Kurukshetra significa o campo corporal interno em que se realiza a ação espiritual da meditação yogi para alcançar a auto realização. Nesse campo competem duas forças antagônicas: a inteligência discernidora (buddhi) e a mente consciente dos sentidos (manas). Buddhi, representado por Pandu, colhe seu discernimento correto da superconsciência da alma. Manas, representado pelo rei cego Dhritarashtra (deriva de dhrta, trazidas curtas e rastra, reino, de raj, goverrnar, donde temos “aquele que governa mantendo curtas as rédeas do reino” dos sentidos), ou a mente sensorial, voltada para o mundo da matéria.

Namaskar!

Marcia Neves Pinto

ESFORÇO SEM ESFORÇO

ESFORÇO SEM ESFORÇO

 (e quanto esforço se requer para realmente consegui-lo…)

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Marcia Neves Pinto

 

Na prática dos āsanas é preciso ter a estabilidade de tadāsana e a passividade de savāsana. – Prashant Iyengar.

Um conceito a que B. K. S. Iyengar frequentemente se referia quando discutia a prática era esforço sem esforço. A primeira vez em que ouvi esta frase, realmente me impactou, haja vista a quantidade de esforço que eu empregava para tentar executar um sem número de posturas em pé, as primeiras que aprendemos no método Iyengar.

O conceito está contido nos Yoga Sutras de Patañjali:

Sutra II.47

प्रयत्नशैथिल्यानन्त्यसमापत्तिभ्याम्॥४७॥

prayatnashaithilyaanantyasamaapattibhyaam

A postura se torna perfeita quando cessa o esforço e por meio da meditação sobre O Infinito. 

Entendi a frase como esforço sem força, isto é, a prática equilibrada das ações e não ações, o emprego do esforço necessário para executar todas as ações necessárias para alcançar uma postura inteligente, ao mesmo tempo em que todo esse esforço deve cessar para colher os resultados físicos, fisiológicos, mentais e emocionais da execução. A prática deliberada, repetida e consciente das posturas, mas sem exaurimento ou agressividade. A frase capta a suavidade/tranquilidade com que nossa prática deveria ocorrer, mas sem sugerir que ela deveria ser “fácil”, indolente, tamásica.

Na minha prática pessoal persisto na busca de um nível saudável do que imagino poderia ser chamado de esforço sem esforço. Mais no começo de minha prática, frequentemente ouvi meus professores me dizerem que estava exagerando as ações. Entretanto, quando tentava ser menos intensa, tinha a nítida impressão de que faltava a ação correta. Como alcançar o equilíbrio?

Nesta fase tento me manter comprometida com minha prática, sigo as instruções de cada postura, examino minhas ações com o crivo da verdade (satya) e procuro eliminar a agressividade, a violência (himsa), a força bruta. Basicamente isto me leva a distinguir entre esforço e exaurimento, entre dores musculares, dores positivas porque auxiliam no estabelecimento da força e da estabilidade e dores negativas, que são aquelas que colocam a saúde do meu corpo e a estabilidade da minha mente em estado de ameaça.

Atualmente é mais raro um professor me dizer que estou exagerando na intensidade das minhas ações: acho que estou começando a entender o que é executar uma postura sem sobrecarregar meu corpo e minha mente… Ainda há um longo caminho pela frente, mas agora a sensação de paz que segue cada prática é uma constante e não termino minha prática exausta: cansada, sim, mas com aquele contentamento (santosa) típico da tarefa cumprida satisfatoriamente, mesmo que tenha falhado na execução de alguma ou algumas posturas. Amanhã tento de novo, e de novo, e de novo, até conseguir. A disciplina (tapas) e o auto estudo (svadyaya) se encarregarão disto. A prática regular (abhyasa) e desprendida dos resultados (vairaghya) são os melhores instrumentos.

Mas muito esforço foi necessário para chegar a este ponto em que a ausência de esforço começa a aparecer. Observar alguns professores sênior (Karin O’Bannon, Raya Uma Datta e o próprio B. K. S. Iyengar) praticando com toda serenidade e contentamento estampados no rosto apesar da dificuldade inerente à execução de um determinado asana, contribuiu muito para meu processo de aprendizado.

Existem muitos asanas em que ainda emprego muito esforço porque meu corpo simplesmente parece recusar-se a cooperar, mas procuro evitar brigar comigo mesma. Virabhadrasana I, Parsvottanasana e Parivrtta Trikonasana, por exemplo, provavelmente serão posturas inalcançáveis para mim. Meu calcanhar da perna de trás se recusa totalmente a ir para o chão. Falta a cada ano menos um pouquinho, mas o avanço é penosamente lento, o que às vezes me faz pensar em simplesmente desistir…

Mas o avanço em outros asanas depende tanto desta mesma conquista, que fica impossível não retornar ao meu tapetinho para tentar de novo. E de outros modos. E com outros acessórios. E neste passo é que a provável luta se transforma em uma divertida brincadeira, um desafio à minha inteligência e disciplina e faz com que eu volte seguidamente para superar a mim mesma, superar as minhas próprias dificuldades. É um exercício de humildade, de aceitação sem resignação, de consolidação, integração e penetração do conhecimento, do autoconhecimento.

Devemos ter humildade para reconhecer em que ponto de maturidade estamos na nossa prática e ir progredindo etapa por etapa na evolução do āsana, até o ponto em que mantemos íntegras sua estrutura e ações. O āsana não precisa ser perfeito, mas precisa ser ótimo: o melhor que você pode fazer, mantendo a integridade de sua estrutura e ações. – María de Jesús Lorrio

E deste modo penso que me aproximo do objetivo final do yoga, o autoconhecimento promovendo a integração de todas as minhas infinitas partes com as infinitas partes do Universo que parece estar à minha volta, mas que sou eu mesma, ainda que ainda esteja muito distante de executar bem uma única postura: yoga não é uma prática puramente física e pode nos tornar seres humanos melhores.

Namastê!

 

 

 

Sanskrit, Say What? | Dharma

Sanskrit, Say What? | Dharma.