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Prática de Yoga durante a menstruação – Sinopse

Prática de Yoga durante a menstruação – Sinopse

Geeta S. Iyengar

Os estudantes sempre perguntam aos professores sobre os āsana-s a serem executados durante a menstruação. As mulheres são orientadas a descontinuar sua prática regular durante a menstruação, mesmo que não experimentem desconfortos. Este artigo fornece um relance sobre vários āsana-s, as modificações das posturas básicas e o que deve ou não ser feito pelas mulheres com problemas menstruais.

Esse artigo destina-se a guiar o praticante regular de yoga. Para detalhes sobre as posturas, aconselha-se que o leitor consulte as obras Luz sobre o Yoga, de B. K. S. Iyengar e Yoga, a Gem for Women, der Geeta Iyengar.

Āsana-s em pé I

  • Uttānāsana
  • Adho Muka Śvānāsana
  • Pāda Hastāsana
  • Pārśvottānāsana
  • Prasārita Padottanāsana

Nota: Em Uttānāsana, Adho Muka Śvānāsana e Prasārita Padottanāsana pode-se apoiar a cabeça em um banco, uma cadeira ou um bloco.

Efeitos dos āsana-s em pé

  • O cérebro se relaxa mais rapidamente; a extensão posterior da coluna rejuvenesce os rins. O esforço cardíaco diminui, porque o coração descansa abaixo do topo da coluna.
  • Aumentam a circulação sanguínea na região baixa do abdômen, melhorando a função dos ovários.

Beneficia especialmente aquelas com:

  • Hipomenorreia ou oligomenorreia
  • Poli menorreia
  • Pressão alta
  • Tensão no corpo
  • Dores na parte baixa das costas
  • Peso na cabeça

Não faça estes āsana-s se tiver dor de cabeça.

Āsana-s em pé II

  • Utthita Trikoṇāsana
  • Utthita Pārśva Koṇāsana
  • Vīrabhadrāsana II
  • Ardha Candrāsana

Nota: Em uma classe geral, normalmente as mulheres são impedidas de fazer as posturas em pé. Você pode tender a permanecer na postura por mais tempo, portanto podendo extenuar-se. Então, estas posturas devem ser tentadas somente se você não sentir-se fatigada durante a menstruação. Todas as posturas em pé devem ser feitas com o uso do suporte da parede.

Em Ardha Candrāsana, coloque a mão no bloco, em vez de colocar no chão.

Efeitos das posturas em pé:
  • Os órgãos pélvicos se estendem, aliviando as cólicas.
  • As virilhas livram-se da tensão.

Ardha Candrāsana estende todo o corpo.

Não faça estes āsana-s se:

  • Sentir-se exausta ou
  • Se estiver sangrando excessivamente.

Faça Ardha Candrāsana, especialmente, se:

  • Se tiver sangramento excessivo, já que a postura causa ressecamento, se for realizada repetidamente contra parede. Assegure-se de não permanecer muito tempo na postura a cada
  • Tiver cólicas abdominais ou tensão.
  • Tiver as virilhas ou a pelve rígidos.
  • Tiver fibrose, cisto ou endometriose.

 Āsana-s sentados I

  • Vīrāsana
  • Swastikāsana
  • Padmāsana
  • Badha Koṇāsana

Modificações dos āsana-s acima:

  • Todas as posturas podem ser feitas inicialmente da maneira clássica, com as mãos posicionadas em cima das pernas ou ao lado dos
  • Urdhva Hasta Vīrāsana, Swastikāsana, Padmāsana, Badha Koṇāsana: as posturas podem ser repetidas entrelaçando os dedos e estendendo os braços acima da cabeça. Certifique-se de que está estendendo o corpo desde as quinas laterais externas da
  • Uttanāsana, Vīrāsana, Swastikāsana, Badha Koṇāsana, você pode inclinar-se à frente e apoiar a testa numa cadeira ou
  • Pārśva – Vīrāsana, Swasticāsana, Padmāsana, Baddha Koṇāsana: erga a coluna e então, com uma expiração, gire a coluna para o lado esquerdo. Fique nesta posição por alguns segundos e então repita a postura para o lado
  • ParivrittaVīrāsana, Swastikāsana, Padmāsana, Koṇāsana: faça Pārśva Vīrāsana e então se estenda para frente. Apoie a cabeça em um cobertor ou na

Nota: se você não pode permanecer na postura por um tempo mais longo, pode sair da postura e então voltar a repeti-la.

Efeitos dos āsana-s sentados:

  • Removem a rigidez nas virilhas, joelhos e
  • Uttana, isto é, o āsana de extensão à frente, reduz as cólicas menstruais, as dores nas costas, a fadiga e tranquiliza o cérebro.
  • Pārśva, isto é, as posturas com torção lateral, reduzem as dores no abdômen, na área pélvica, na cintura e nas
  • Parivritta, isto é, as posturas em que se gira para um lado e inclina- se à frente, diminuem as náuseas e a depressão.

 Āsana-s supinados:

  • Supta Baddha Konāsana
  • Supta Vīrāsana
  • Matsyāsana
  • Setu Bandha Sarvāngāsana
  • Supta Swastikāsana
  • Supta Pādānguṣṭāsana II

Nota: não tencione o abdômen nestas posturas. Comece a sua prática com estas posturas se tiver fibrose, cistos ou anomalias da posição do útero[1].

Efeitos dos āsana-s supinados:
  • Reduzem o cansaço, a insônia e a letargia
  • Diminuem o inchaço no
  • Reduzem a inflamação nos órgãos

São especialmente benéficas para aquelas com:

  • Dismenorreia
  • Pressão baixa
  • Anemia
  • Diarreia

 Āsana-s de extensão para frente

  • Janu Śirṣāsana
  • Trianga Mukhaikapada Paschimottānāsana
  • Ardha Baddha Padma Paschimottānāsana
  • Marichyāsana
  • Paschimottānāsana

Nota: Apoie a testa no cobertor em todas estas posturas. Você pode descansar a cabeça numa cadeira, se for muito rígida. Permaneça na postura de forma relaxada e mude a posição apenas quando sentir o corpo se pesado ou os ísquio tibiais tornarem-se pesados.

As posturas podem ser praticadas várias vezes. Tente aumentar gradualmente a duração da permanência em cada postura.

Efeitos
  • Relaxa os órgãos abdominais
  • Reduz a retenção de líquidos e o inchaço corporal
  • Regulariza o nível de açúcar no sangue

São especialmente benéficos para aquelas com:

  • Oligomenorreia

Não faça Trianga Mukhaikapada Paschimottānāsana e Ardha Baddha Padma Paschimottānāsana se você sofre de:

  • Dismenorreia
  • Menorragia

 Āsana-s sentados II

  • Upavistha Koṇāsana
  • Uttana Upavistha Koṇāsana
  • Pārśva Upavistha Koṇāsana

Nota: estas posturas podem ser feitas pegando um suporte que você possa segurar avante, algumas caixas ou a grade à sua frente, de forma que você possa elevar a coluna e os órgãos abdominais.

Efeitos:
  • Alargam e relaxam a pélvis
  • Ampliam a vagina e reduzem qualquer obstrução ao fluxo menstrual
  • Tornam a região sacral côncava, reduzindo o peso no abdômen
  • Reduzem a irritação e as sensações de queimação em torno da área dos órgãos genitais

São especialmente benéficas para aquelas com:

  • Endometriose
  • Bloqueio nas trompas de Falópio
  • Inflamação pélvica

 Āsana-s de extensão para trás

  • Vipārita Daṇdāsana
  • Setu Bandha Sarvāngāsana

Não se extenue nestas posturas. Faça estas posturas com a ajuda de um suporte. Vipārita Dandāsana deve ser realizada na cadeira. Setu Bandha Sarvangāsana deve ser feita com suporte do bloco ou da cadeira.

Efeitos
  • Rejuvenescem os órgãos pélvicos
  • Aumentam a estabilidade emocional e a autoconfiança
  • Eliminam a depressão
  • Aliviam a insônia

 Prāṇāyāma

  • Śavāsana
  • Ujjayi I (inspiração normal – expiração profunda )
  • Ujjayi II (inspiração profunda – expiração normal)
  • Ujjayi III (inspiração profunda – expiração profunda)
  • Viloma I (inspiração com pausas)
  • Viloma II (expiração com pausas)

Nota: todos estes prāṇāyāmas devem ser tentados em Sāvāsana ou Supta Baddha Koṇāsana

Efeitos do prāṇāyāma

  • Aumenta a sensibilidade dos pulmões
  • Relaxa o cérebro e os nervos
  • Induz ao sono

Āsana-s que devem ser realizados ao término da menstruação

  • Śīrṣāsana
  • Pārśvaika Pada Śīrṣāsana
  • Upavistha Koṇāsana em Śīrṣāsana
  • Baddha Koṇāsana em Śīrṣāsana
  • Sarvāngāsana
  • Pārśvaika Pada Sarvāngāsana
  • Upavistha Koṇāsana em Sarvāngāsana
  • Supta Koṇāsana
Efeitos
  • Melhora a circulação para os órgãos abdominais
  • Restaura as funções das glândulas endócrinas
  • Ajuda o sistema nervoso a recobrar-se da fadiga e da tensão
  • Cria um estado de equilíbrio mental

São especialmente benéficos para aquelas com:

  • Amenorreia
  • Leucorreia

Āsana-s para o período pré-menstrual (TPM)

  • Meio Halāsana
  • Janu Śīrṣāsana
  • Viparīta Karani

Nota: a tensão pré-menstrual caracteriza-se por tensão, cansaço, irritabilidade e depressão, e ocorre cerca de dez dias antes de começar a menstruação.

Efeitos dos āsana-s feitas para tensão pré-menstrual
  • Estas posturas ajudam a relaxar

 

(Este artigo foi compilado do vídeo cassete de Mrs. Geeta Iyengar, “Yoga em ação- menstruação”) e foi publicado originalmente em inglês: Yoga practice during menstruation: a synopsis, Yoga Rahasya – Compilation of articles pertaining to Yoga Therapy published from 1994 to 2009, YOG, Mumbai, Índia, págs. 150/157.

Tradução: Paula Torres

Revisão: Marcia Neves Pinto

[1] N. R.: Tipos de anomalias de posição do útero:

Embora a localização do útero seja variável, normalmente encontra-se no centro da pequena bacia, com o fundo mais perto da púbis do que da coluna vertebral e virado para a frente, já que o seu eixo forma um ângulo quase recto com o eixo da vagina, enquanto que o corpo do útero apresenta uma ligeira curvatura para diante em relação ao colo uterino. Embora as ligeiras variações não alterem a fertilidade nem provoquem qualquer incómodo, os desvios ou deslocações significativas podem provocar problemas e, consequentemente, originar graves alterações. É possível distinguir vários tipos de anomalias, cada uma delas com o seu nome específico.

Entre as anomalias de posição, destacam-se a anteposição e a retroposição, quando o útero se encontra respectivamente mais à frente e mais atrás do que o habitual, e a sinistroposição e dextroposição, quando está deslocado para a esquerda ou para a direita.

Existem igualmente as várias anomalias da inclinação do útero, em que as mais evidentes são a anteversão e a retroversão, quando o eixo do útero se encontra deslocado para a frente ou para trás em relação ao eixo da vagina.

Entre as anomalias da flexão do útero, as mais significativas são a anteflexão e a retroflexão, quando o corpo do útero se encontra curvado para a frente e para trás respectivamente em relação ao colo uterino. (https://www.medipedia.pt/home/home.php?module=artigoEnc&id=682)

 

O QUE É IYENGAR YOGA

Gabriella Giubilaro

 

O que é? O Iyengar Yoga leva o nome de B.K.S. Iyengar, um mestre do yoga contemporâneo.

A importância do alinhamento: o Iyengar Yoga é especialmente famoso pela importância atribuída à correção do alinhamento. O alinhamento dos ossos e articulações conduz ao equilíbrio melhor com menor esforço muscular. Desta maneira, obtemos maior estabilidade nos asanas com menor esforço. O alinhamento correto melhora a circulação, cria espaço interno (literalmente, nas articulações) e proporciona um fluxo de energia equilibrado por todo o corpo, acarretando em saúde e bem-estar. A atenção aos alinhamentos em yoga é muito mais que fazer uma lista dos pontos a serem lembrados enquanto executamos os asanas. Refere-se ao desenvolvimento da consciência corporal que se reflete em todos os aspectos da vida.

A consciência corporal: quando fazem ajustes, os alunos iniciantes perturbam outras partes do corpo. Por exemplo, os iniciantes frequentemente giram a cabeça quando querem girar a coluna. Praticantes maduros desenvolvem uma consciência corporal que se expressa de dois modos. Primeiro, por meio da compreensão de como tudo está conectado, são capazes de fazer qualquer ajuste sem perturbar o resto do corpo. Segundo, são capazes de manter uma correção feita pelo professor na memória corporal. A consciência corporal fornece os instrumentos para abrir as áreas do corpo que estão bloqueadas. Esta é uma das razões pelas quais o Iyengar Yoga tem sido tão bem sucedido na promoção do bem estar.

Conexões: por meio de seus ensinamentos, B.K.S. Iyengar mostrou-nos como entender as conexões entre as diferentes partes do corpo. Ele ensinou-nos que a coluna vertebral beneficia-se do trabalho das pernas e dos braços. Este princípio é tão fundamental que se aplica a todos os asanas. Por exemplo, tanto nas posturas em pé quanto nas extensões para trás, é a ação dos pés e das pernas que estende a coluna. Em vez de trabalhar diretamente em uma parte do corpo — o que muitas vezes não é eficaz — em vez disso precisamos entender as conexões. Iyengar ensinou-nos que os asanas do yoga não são apenas um conjunto de posturas desenvolvidas há muito tempo, mas envolve a exploração, mas ao contrário envolvem a exploração, a descoberta e o domínio das conexões obtidas por meio da prática.

Ação X Movimento: quando praticamos Iyengar Yoga, descobrimos a diferença entre ação e movimento. No começo, como iniciantes, nossa atenção é capaz de observar apenas o corpo periféricoe os movimentos externos. A isto chamamos de movimento físico. Com o refinamento, começamos vagorosamente a comprender uma maneira diferente de praticar. Aprendemos a usar todos os sentidos da percepção para sentir não apenas o que está acontecendo no corpo periférico, mas também o que está ocorrendo dentro do nosso corpo. Pois é aí que chegamos ao ponto descrito por Iyengar como “quando a mente atua como uma ponte entre os movimentos musculares e os órgãos de percepção e introduz o intelecto, conectando-o com todas as partes do corpo”. Aprendemos a distinguir e a analisar o que sentimos dentro dos nossos corpos. Isto é o que é chamado de ação. Existe ação quando criamos um alongamento interno, um movimento que é imperceptível para um observador externo, mas que trás inteligência e sabedoria às nossas posturas.

Personalizando os asanas: Iyengar adquiriu muita sabedoria a patir do yoga, por meio da prática contínua e da capacidade de penetração cada vez mais profunda para dentro de si mesmo. Com base na compreensão do seu próprio corpo, ele ensinou aos seus alunos como penetrar em todos os níveis do corpo: o físico, o orgânico e o mental. Ele ensina a importância de personalizar a prática dos asanas por meio da escolha cuidadosa de quais asanas praticarmos, em qual sequência organizá-los e como praticá-los (ativa ou passivamente, com ou sem suportes). Esta personalização da prática de asanas permite-nos ir de encontro às necessidades pessoais, de acordo com as mudanças fisiológicas, psicológicas e do estado de saúde.

Suportes: outro aspecto do Iyengar Yoga é o uso de diferentes suportes, incluindo blocos, mantas, cintos e bancos. Se uma pessoa se beneficiaria de um asana — nos níveis físico, orgânico ou mental — mas não pode desempenhá-lo por causa da falta de capacidade ou de força, pode usar-se um suporte para apoio. Com suportes, até a pessoa inválida ou muito doente pode beneficiar-se dos asanas. Os suportes possibilitam que todos os alunos permaneçam nas posturas por mais tempo. A permanência em uma postura por um tempo muito, primeiramente afeta o corpo físico. Permanecendo nas posturas por mais tempo, os benefícios penetram mais profundamente nos níveis orgânico e mental.

A sabedoria do yoga: nós, que tivemos a sorte de estudar regularmente com B.K.S. Iyengar, experimentamos diretamente, não somente suas palavras, mas também sua energia, as quais nos guiaram na penetração mais profunda em nossos asanas e em nossos próprios corpos. Cada um de nós aprendeu a dar o nosso melhor, a experimentar nossos próprios limites e a tocar no desconhecido, algo dificíl de se fazer sozinho. Aprendemos, não somente a guiar os alunos com explicações verbais e demonstrações, mas também a ensiná-los e corrigi-los com o toque, assim, capacitando-os para experimentar algo que levariam anos para atingir sem a nossa ajuda.

Um professor vivo: Yogacharya B.K.S. Iyengar conta atualmente 80 anos[1] de idade, mas não perdeu nada de sua energia quando está praticando ou ensinando. O refinamento de sua inteligência continua a expandir-se. Em suas palavras: “Hoje eu não estico o meu corpo, o que eu costumava fazer nos meus trinta, cinquenta anos, todos estes anos, agora estendo minha inteligência no meu corpo, para expandí-la, de forma que é a inteligência que estende o meu corpo.”

Tradução: Sílvia Stocche e Marcia Neves Pinto

Texto originalmente publicado em:

http://www.bluespruceyoga.com/iyengargiubilaro.html

[1] Esta era a idade de Guruji na ocasião do artigo, 2000. Ele faleceu em 20/08/2014, com a idade de 94 anos.

Terapêutica em Iyengar Yoga: “Seu trabalho é colocar o aluno no caminho do yoga”

Terapêutica em Iyengar Yoga:

“Seu trabalho é colocar o aluno no caminho do yoga

 

Stephanie Quirk

Tradução: Marcia Neves Pinto 

A entrevista a seguir com Stephanie Quirk foi publicada pela primeira vez em
Yoga Samachar, springsummer-2011, revista da The American Iyengar Yoga Association. (https://www.stephaniequirk.com.au/therapeutics-iyengar-yoga-job-put-student-path-yoga/)

É tentador listar aqui todas as coisas maravilhosas que o yoga terapêutico pode fazer — o que pode curar, acalmar e aliviar — e eu sei que há muito interesse nisso. Isso mostra o interesse das pessoas no assunto. O yoga terapêutico é muitas vezes visto e compreendido apenas no estrato das doenças físicas. Porém, pensei em conduzir esta conversa de uma forma que, espero, seja mais interessante, apontando que em Iyengar Yoga a terapia, na verdade, nos beneficia a todos — professores, alunos ou pacientes.

Geralmente vê-se uma aula terapêutica como uma aula destinada às pessoas que não podem ou não devem frequentar uma aula geral. Estas pessoas vêm com várias doenças, complicações e incapacidades, sendo-lhes recomendada a classe medicinal, em lugar da aula regular. Ela não é vista como “yoga verdadeiro”, mas algo que é oferecido para as limitações dessas pessoas. Na verdade, as pessoas que frequentam as aulas terapêuticas[1] estão sendo apresentadas ao yoga da maneira que todos nós deveríamos segui-lo.

Desde o começo a prática delas de yoga cumpre os objetivos do yoga (veja os Yoga Sutras I.2, 3, 4 e 5 e I l.l). Para elas é imperativo que assim seja, a fim de reduzir as aflições e fazer cessar a distorção dos movimentos na consciência. (por consciência quero dizer a manifestação completa da consciência: os órgãos da ação, os sentidos da percepção, os elementos e os tanmatras, a mente, a inteligência, o senso do Eu e os movimentos internos da sensibilidade.) Em uma aula de yoga terapêutica, tudo isso é desenvolvido por meio da implementação da contenção, da retificação, da extensão, do equilíbrio, do alinhamento do corpo e da mente e da integração. Todas essas qualidades estão presentes no sadhana (prática) apresentado ao paciente. Como todos os praticantes, tendo dado os primeiros passos no caminho do yoga, ele ou ela ainda tem uma longuíssima jornada a empreender, mas tem a sorte de estar posicionado no caminho.

A outra pessoa envolvida no processo é o professor de yoga. Percebi a imensa importância que a terapêutica desempenha em Iyengar Yoga durante a formação de professores. Eu estou treinando-os não para serem instrutores, embora instruí-los de forma hábil e eficaz seja um ótimo trabalho, mas treinando-os para orientar os estudantes e os pacientes no caminho, a fim de despertá-los para seu conteúdo interior: a respiração, os órgãos, a energia e a mente. Para despertá-los através da correta abordagem crítica dos yogasanas e do pranayama. Tudo tem que funcionar ou o resultado terá impacto imediato sobre o paciente já enfraquecido e perturbado.

Por meio de upaya-kausalam — os meios hábeis da técnica libertadora — na situação terapêutica, juntos, o aluno e o professor, aproximam-se cada vez mais do verdadeiro objeto do yoga, cada um aprendendo e beneficiando-se do outro. Por causa da necessidade do paciente avançar habilmente para corrigir os fatores internos perturbadores e da habilidade de orientação do professor, ambos se aproximam da prática verdadeira.

Esta experiência compartilhada é um belo resultado da abordagem terapêutica em Iyengar Yoga. Em qualquer aula terapêutica as pessoas precisam trabalhar juntas. É um trabalho duro; muitas vezes são necessários assistentes. É uma atividade comunitária. Encorajo os professores a praticarem juntos novamente o que cobri em meus seminários, a fim de aprenderem. Muitas vezes os professores reportam-me o quanto apreciaram isto; eles descobrem que cada um deles se recorda de um aspecto diferente do trabalho. Revisá-lo juntos dá-lhes uma visão mais ampla sobre o que o “paciente/aluno” está experimentando. Isto é reunir-se para aprender e está fora do modelo usual de ensino de yoga.

A maioria dos professores aprende com outro professor e, em seguida, começa a ensinar. Muito frequentemente, no ocidente, o novo professor deixa seu professor para embarcar em uma carreira docente, afastando-se da riqueza do aprendizado. Aqui, estudando terapêutica, os professores retornam mais uma vez para aprender. Eles aprendem um com o outro e compartilham informações, observações e experiências. Este compartilhamento ocorre porque o estudo terapêutico não é conduzido com o professor isolado em uma plataforma. Todos têm que trabalhar juntos. Não há algo como “em isolamento” no ensino e na aprendizagem terapêutica, mesmo em níveis muito elevados. Em vez disso, é um processo de dar aos outros, incansavelmente, como podemos ver com nosso próprio Guru.

Stephanie Quirk: O yoga terapêutico vem muitas vezes disfarçado de terapia alternativa para a saúde, segundo o modelo médico. É aclamado pelas moléstias e doenças que pode curar. O professor pode cair no erro de se esconder atrás do papel do clínico. Essa maneira de ver tende a fazer com que os professores se limitem a buscar listas de suportes e sequências. Isso equivale a querer uma receita para curar uma doença. Mas para o professor, isso não funciona. Professores não são médicos; eles são praticantes de yoga. Muitas vezes tenho que lembrá-los de olhar para seus próprios anos de estudo como praticantes de yoga.

A terapêutica não é uma especialidade separada. Não há yoga aqui e “terapêutica” ali. Terapêutica não é outro método clínico — essas ideias são, na verdade, inimigas próximas para o professor. Muitas tentam fazer com que a terapêutica caiba nesses modelos, mas na verdade, é a abordagem do yoga que mais se adapta ao yoga. Eu tento fazer com que os professores olhem para sua própria prática de yoga, e tomem a direção desde dentro do yoga.

Para começar, os professores precisam parar e pensar no significado do sutra II.16 — heyam duhkham anagatham, qual a sua mensagem e o que está explicitando para eles! Esse sutra implica em uma reviravolta radical de todas as ações e comportamentos de uma pessoa, tanto dentro quanto fora do momento da prática. Se o sofrimento pode ou deve ser evitado, o que tem que mudar na maneira como as coisas são agora? Para ser sincera, assumir verdadeiramente apenas este único e aparentemente simples yoga sutra requer coragem, fé, determinação e uma abordagem aberta e positiva, pronta para a adaptação, aprendizado e absorção. Tudo tem que mudar. E isso é muito verdadeiro para o paciente que está sofrendo.

Então temos abhyasa e vairagya. Nenhum método de saúde alternativo tem isso. O seu trabalho como professor de yoga não é ser o médico, a enfermeira ou o psiquiatra de alguém. Seu trabalho é colocar o paciente/aluno no caminho do yoga. Eles devem tornar-se seguidores e praticantes, se pretendem erradicar todos os vestígios do que, finalmente, os perturba (dosha). Assumir abhyasa (prática) e vairagya (desprendimento) está no cerne de tudo o que alguém tem que fazer. Eles são os pedestais irredutíveis sobre os quais se baseia o yoga e o que realmente separa o caminho do yoga de outras terapias alternativas de saúde.

Outro aspecto que define a terapêutica como Iyengar Yoga é “a técnica e a precisão, ou a técnica aplicada com precisão”. Juntamente com a técnica apropriada para o estado do paciente, temos que encontrar no asana a precisão específica para esse estado. Encontrar essa precisão também significa descobrir o que está faltando no asana. Devemos rastrear o que é óbvio, visível e factível, bem como o que está oculto e adormecido. Nós devemos observar onde há vivacidade e onde há embotamento. Temos que conhecer o asana e, observando o paciente apresentar o asana, descobrir: É o asana integrativo ou desintegrativo? Como isso afeta, em geral, todas as camadas (kosas) e como atinge o distúrbio, especificamente? São conceitos abstratos, mas podem ser abordados pelas técnicas que aprendemos, com precisão e sutileza cada vez mais refinados.

Quando conseguirmos isso, estaremos fazendo o que Guruji tentou apresentar-nos como “Iyengar Yoga“, simultaneamente multidimensional e abrangente. Isso é holístico, não apenas musculoesquelético e fisiológico, mas yógico. Através dessa experiência, o aluno encontra sua própria experiência e sua conexão com a sensação de bem-estar.

Richard Jones: Como o treinamento rigoroso do Iyengar Yoga prepara os professores para a terapia?

SQ: No Iyengar Yoga temos um aparentemente longo processo de estudo. Muitos outros sistemas concedem certificados após um curso de final de semana, mas nós temos anos e anos de estudo, absorção e integração à nossa frente antes que nossa observação e ensino tornem-se maduros. Nenhuma acumulação de informações, nenhuma proficiência no entrelaçamento de um membro aqui ou ali em posturas avançadas pode trazer esta maturidade. Há que ser um estudante para sempre. O próprio Guruji frequentemente diz[2] que ele é apenas um aprendiz (embora não um principiante). Recentemente ele fez uma declaração muito pertinente sobre este tópico: “Eu rastreio as falhas; então, para mim, o que estou fazendo não é importante, é o que eu não estou fazendo que é importante.”

Sua declaração simples e única resume toda a abordagem necessária para progredir na própria arte, bem como na arte de ajudar os outros. Essa abordagem de rastreamento de falhas no Iyengar Yoga, de trazer o asana e o pranayama para um estado de excelência refinado, é um processo muito longo. Cultivamos a nossa capacidade de refinar ainda mais por meio da atenção e da correção cuidadosas.

Rastreando as falhas na prática, o professor mergulha mais e mais profundamente nas técnicas dos asanas e dos pranayamas. Empregamos essas técnicas na nossa própria prática, em prol do conhecimento que elas trazem. Gradualmente esses meios são usados com maior precisão, na medida em que provocam percepções sobre aquilo que cobre ou oculta a verdade ou a visão do si-mesmo. Começa logo no início, embora de forma rudimentar. Desta forma, alunos iniciantes e professores podem estar sendo treinados para a terapêutica por um grande número de anos.

Um bordão comum frequentemente aplicado por quem está fora do Iyengar Yoga é “alinhamento”. No entanto, esta palavra pode tornar-se superficial; pode começar a significar apenas aferição e posicionamento externos. Talvez uma diretriz melhor seja “a-linha-mente”: o professor deve observar se todos os revestimentos ou camadas do si-mesmo estão alinhados. A mente está equitativamente posicionada durante a postura? Há a sensação de que a pele está tocando uniformemente todas as partes, ou há algumas partes não tocadas e não penetradas? Este é o lugar no qual o alinhamento progride em direção ao a-linha-mente. O professor pode avaliar com maior precisão: está exatamente na linha, por igual? É dual ou não dual? Há algum local ou lugar desconhecido? Aqui a investigação do professor precisa mover-se da desproporcionalidade em direção à proporcionalidade, da disparidade para a paridade, a fim de anular o duelo entre as oscilações do complexo mente-corpo-respiração.

As técnicas em que somos treinados são aquelas de aferição ou de posicionamento, contato ou toque, rastreamento, expansão, alongamento e extensão. Elas são as técnicas de estabilização, fundação (ou “descendência”) e ascendência. Elas estão proporcionando maior leveza ou mais peso. Equilíbrio e posicionamento. Arejamento, ventilação e umidificação. Mobilizando e imobilizando, e a lista prossegue. Muito frequentemente o professor conhece o quadro externo correto de um asana, mas a menos que estude o conteúdo do quadro, o que está acontecendo é território desconhecido, virtualmente. É por isso que muitas perguntas sobre o que fazer em situações terapêuticas ainda são dirigidas aos Iyengars.

Notei que o sucesso de uma abordagem terapêutica parece depender da própria visão do paciente. Não importando o estado em que se encontrem, em algum momento eles devem buscar e obter a compreensão do processo do yoga e apropriar-se dele (carpe diem). Este é um passo vital. O aluno deve ter uma visão do caminho maior que está seguindo. O professor precisa ajudar o aluno a desenvolver a aspiração de seguir este caminho, para além da sua situação de sofrimento imediata.

Assim, o professor também deve cultivar a sua própria inspiração, a sua conexão com os objetivos do yoga. Caso contrário, ele deixará de avançar. Quando determinamos nosso verdadeiro “eu” para além do ego que se baseia nas posses e nas necessidades, obteremos a clareza e a lucidez da mente e do coração para atuar verdadeiramente como se heyam duhkham anagatham seja, de fato, possível?

Em sua abordagem multidimensional, porém abrangente, as qualidades verdadeiramente notáveis do Iyengar Yoga tornam-se visíveis.

RJ: Você pode compartilhar algumas das suas experiências nas aulas terapêuticas no R.I.M.Y.I.?

SQ: Na verdade não posso reproduzir para os professores o que aprendi ao longo de todos esses anos subindo as escadas [do R.I.M.Y.I.]. Não posso dar-lhes a experiência obtida prestando assistência nas aulas terapêuticas. Uma coisa que os professores não entendem é que tudo o que necessitam para ensinar em aulas terapêuticas é, na verdade, o que eles vieram estudando desde o início. Eles têm praticado os asanas durante anos. Frequentemente eles parecem estar à espera que lhes seja mostrado algo que não sabem. Para mim é muito divertido ensinar-lhes os asanas que praticaram repetidamente, mas nos quais não mergulharam realmente, para encontrar suas características e propriedades interiores. Vejo-me com dificuldade para descrever a vibrante força emocional e a força moral empregadas pelos Iyengars nas aulas terapêuticas. As pessoas acham perturbadora, às vezes. Os Iyengars são lendários por sua ferocidade e paixão. Eu passei a apreciar, cada vez mais, sua força e a presença emocional que eles trazem para a classe. Certamente seus anos de experiência e de conhecimento não podem ser igualados, mas é a sua conexão pessoal que lhe dá algo mais profundo do que qualquer experiência clínica. Seu envolvimento transpõe o fosso existente entre eles e o aluno que estão tentando ajudar.

RJ: Qual conselho você daria aos professores sobre terapêutica?

SQ: Vocês têm um grande recurso em suas mãos: Vocês precisam estudar e aprender uns com os outros. Os professores de uma devem reunir-se para estudar e praticar o que lhes é apresentado em seminários para que, primeiramente, entendam em seus próprios corpos. Geetaji disse, em Portland, que todos teríamos que passar pelo menos um ano digerindo o que ela ensinou lá. Não tenha medo, não se preocupe com o fato de outros métodos não dedicarem o tempo que alocamos para estudar. Infelizmente este é um sinal de como o mundo vê o yoga — como um passatempo, uma atividade secundária. Ele não lhe dá credibilidade. É o mesmo com relação a muitas disciplinas que têm sua origem nas tradições espirituais orientais. O mundo materialista de hoje não dará credibilidade a algo que é tão criativo como a abordagem do yoga para a saúde.

RJ: E quanto a precauções e orientações?

SQ: Sim, eu menciono os cuidados — não tanto sobre o que fazer e o que não fazer com relação à determinada doença, nem as contraindicações como em um manual de farmacologia — mas mais no sentido de proteger o professor de cometer um erro. Um erro prejudicial é uma tragédia para o professor. É estilhaçador. Quando estiver trabalhando diretamente sobre o asana do paciente, o professor precisa pensar sobre se o paciente é capaz ou não de absorver ou de tolerar a postura. Não faz sentido levá-los para uma postura que é demasiadamente forte, que está demasiadamente fora do seu alcance. O inverso também é verdadeiro. É um equívoco comum considerar que a terapia se trata de “descansar” ou de praticar posturas restaurativas. Podem existir fadiga ou problemas circulatórios ou desequilíbrios mentais que têm de ser liberados no início de uma sessão de āsana; porém, permitir que os sistemas circulatório, nervoso e mental do paciente afundem na apatia pode criar mais problemas.

Para ajudar os professores a evitar lesionar os estudantes, dou-lhes algumas orientações simples. A primeira é perguntar — repetindo frequentemente — “Como se sente agora?” Os professores devem observar a cor do paciente e sua respiração; devem observar especialmente o pescoço e o abdômen para verificar sinais de desequilíbrio e tensão. Devem tocar e verificar se há algum tremor interno. Muito frequentemente, o professor pode ser hábil no ajuste e na colocação de suportes, mas pode deixar de observar a transformação obtida a partir deles. Ao ajustar, “ouça” através de suas mãos para verificar a resistência ou a aceitação do movimento.

Hoje há tanta informação disponível; compare isso com anos atrás, onde a informação era escassa. Agora vocês têm que abordar o aprendizado de uma forma diferente. Preparem-se para criar o seu próprio aprendizado, cometer erros e aprender novamente. A aprendizagem tem que incluir o insucesso, porque ele é instrutivo. Vocês têm que “fazer”, brincar, investigar. Para ingressar no espaço real e encontrar o seu manejo, a sua visão. É por isso que tenho tantas sessões nas quais os professores trabalham juntos e um no outro, para dar-lhes uma oportunidade de encontrar seus olhos, para encontrar a sua mão no assunto. Eles não se limitam a me observar trabalhando e fazer anotações. Fazem por si mesmos. Há muitos livros bons disponíveis (de novo, toda essa informação!), mas os professores ainda perguntam o que fazer. Eles têm que “obter seu manejo”. Eles têm que desenvolver habilidade, compaixão e sabedoria (kausalam, karuna, e prajna). As técnicas e a informação estarão lá, mas mais importante é existir a imersão com todo coração na matéria. Só então essas qualidades surgirão.

Stephanie Quirk tem observado e trabalhado com os Iyengars no R.I.M.Y.I. desde 1994, auxiliando em todas as aulas, incluindo as terapêuticas e as para mulheres. Nos últimos anos, ela vem conduzindo seminários de treinamento abrangentes sobre terapêutica em seis partes, compartilhando seu conhecimento e experiência com professores de Iyengar Yoga no mundo todo.

[1] N.T.: no original em inglês está escrito medical classes. Entretanto, atualmente em R.IM.I.Y. tais aulas são denominadas remedial classes, cuja tradução pode ser “aulas terapêuticas” – 2. adjective [usually ADJECTIVE noun]. Remedial activities are intended to improve a person’s health when they are ill. [formal] He is already walking normally and doing remedial exercises. Synonyms: therapeutic, healing, curing, curative, fonte: https://www.collinsdictionary.com/dictionary/english/remedial). No Brasil consagramos o uso da designação aulas terapêuticas, razão pela qual, a fim de evitar mal entendidos, usamos a designação conhecida no Brasil e atualmente empregada em Puna.

(http://bksiyengar.com/modules/Institut/RIMYI/RIMYI%20TT_2012.pdf

[2] A entrevista foi publicada pela primeira vez em 2011, ocasião em que Guruji ainda estava vivo.

IYENGAR POR PATRICIA WALDEN: UM GÊNIO EM AÇÃO

IYENGAR POR PATRICIA WALDEN
UM GÊNIO EM AÇÃO

Patricia Walden

Tradução: Marcia Neves Pinto

Nada poderia ter me preparado para BKS Iyengar. Com seu amor pelo yoga, ele era o príncipe da paixão e o rei do carisma. Em minha primeira aula, ele explodiu: “Se você mantiver as axilas abertas, não ficará deprimido!” E pela sensação de abertura e elevação no meu peito, eu sabia exatamente o que ele queria dizer.

Havia fogo na sua presença, um fogo que acendeu a luz do yoga em mim e transformou a minha vida. Ele era direto e claro, com uma ferocidade de espírito que denotava que poderia enfrentar qualquer desafio.

Isso há mais de 25 anos. Desde então, passei a ver BKS Iyengar como um classicista moderno, mergulhado na tradição, versado nos Vedas e fluente em Patañjali. Aos 80 anos, ele continua a praticar intensamente: 35 minutos de apoio sobre a cabeça, 108 repetições de retroflexões (ciclos de tadasana, descendo para trás em urdhva dhanurasana e depois subindo para tadasana), 10 minutos de viparita dandasana e longas, introvertidas, extensões para frente. Como ele diz, “quando era jovem, brinquei. Agora, fiquei.”

Nos primeiros anos, seu ensino refletiu sua prática. Fazíamos muitas, muitas posturas, inclusive avançadas, em cada aula. Ele derramava instruções sobre nós com uma intensidade torrencial. Seu foco estava na ação – ações que fundiam o corpo e a mente: “Faça com que a mente sinta o estiramento. Dspertem a mente do dedo mindinho do pé.” Nós saíamos da aula exaustos e alegres, encharcados até os ossos pela torrente de seus ensinamentos, pensando se conseguiríamos chegar aos nossos quartos de hotel.

Como o passar dos anos, ele adicionou novas dimensões ao seu ensino. Fazemos um menor número de posturas por aula, mas ele nos conduz mais profundamente em cada uma. Demonstrando as nuances da prática, ele nos encoraja e persuade a verificar e a compreender. Ele exorta-nos a explorar, a descobrir onde estamos entorpecidos ou trabalhando em excesso, a nos ajustarmos, a fim de que a consciência possa agraciar o corpo uniformemente por toda parte. E, acima de tudo, ele realça que o propósito da prática está em aproximar-se da alma por meio do equilíbrio entre a ação e a reflexão. Nas suas próprias palavras: “Temos posar e repousar”.

Com a mente de uma cientista e a alma de um poeta, ele gastou milhares de horas usando seu corpo como um laboratório, experimentando, explorando, observando e criando. Lembro-me de uma vez tê-lo observado praticando antes de ministrar uma aula. Eu estava surpresa em ver o corpo dele torcido em um alinhamento atipicamente pobre; mas depois, na aula, percebi que ele tinha estado trabalhando sobre os problemas de seus alunos em seu próprio corpo. Uma vez ele me disse que aprendeu o próprio método explorando não apenas o que estava certo, mas também o que estava errado; e que ele esperava que seus alunos pudessem aprender com a sua experiência.

Nas aulas terapêuticas, ele é uma força da natureza criativa e terapêutica, um gênio em ação. Ele atravessa o instituto durante duas horas inteiras, observando e reagindo na velocidade da luz: um curador moderno apaixonado por seu trabalho.

É extraordinário e desafiador ter Guruji como professor: aprender com ele, ano após ano e experimentar sua genialidade, generosidade e orientação. Sua paixão pela excelência e o interesse incessante no yoga são contagiosos; e essas qualidades, juntamente com sua coragem e força de vontade, inspiram a minha vida, a minha prática e o meu ensino.

Quando eu comecei o yoga, a prática era difícil para mim. Tomou-me um tremendo esforço e disciplina. Em contraste, era paradoxal ver Guruji praticar: ele parecia livre e despido de esforço, mesmo enquanto praticava as posturas mais desafiadoras. Inspirada por seu exemplo e instrução, permaneci esforçando-me. O que se seguiu surpreendeu-me: através da disciplina, me apaixonei pela prática. Uma liberdade interior floresceu.

Trago essa lição para os meus alunos: se ficarmos no caminho que escolhemos e desenvolvermos a disciplina para ultrapassar as dificuldades, nossos esforços nos transformarão.

Escrever esta homenagem a BKS Iyengar desafiou-me a examinar o meu coração e a minha vida, a fim de identificar o que valorizo mais nele e nos seus ensinamentos. E aqui está:

O maior presente que um professor/guru pode dar a um estudante é o interesse genuíno: tal interesse genuíno pode transformar e moldar incomensuravelmente a vida do aluno. [grifo do original]

Guruji é o meu elo de ligação com a tradição. Ele me mostra o que é possível com a prática e representa para mim um exemplo vivo do sutra I.14 (sa tu dirghakala nairantarya satkara asevitah drdhabhumih): “ Obtém-se sucesso no yoga quando ele é praticado com devoção, de modo initerrupto, por um longo período de tempo.”

Recordo-me de uma das primeiras lições que aprendi com dele: “Quando confrontado com a dificuldade, tome uma atitude, não importa quão pequena.” Qualquer coisa é possível se você agir (e refletir) com amor e devoção.

Com seu estilo desafiador, Guruji ensinou-me a enfrentar as dificuldades com os olhos bem abertos, a refinar-me por meio da paixão e da disciplina, e de sentir-me segura em seu método. Como resultado, sinto alegria em minha prática e liberdade no meu amor pelo ensino.

(este artigo foi publicado em 28/08/2007 em https://www.yogajournal.com/lifestyle/genius-in-action)

Abhijata e um longo sirsasana:

Abhijata e um longo sirsasana:

“Coloquei meu relógio na minha frente, peguei os cintos e amarrei minhas pernas unidas, de forma que a permanência se tornasse mais fácil, esse era o meu plano.” Iyengar estava por perto, praticando com os olhos fechados, “assim, era mais fácil para mim. Após cerca de dez minutos, minhas mãos começaram a suar. Eu tinha comichões no rosto, nas costas, em lugares que eu nem sabia que existiam, todas as áreas começaram a coçar. Mas eu disse: hoje eu tenho que permanecer, aconteça o que acontecer. Doze minutos, treze minutos depois, estava suando, tremendo. De alguma forma o relógio chegou aos dezessete minutos e, então, no décimo sétimo minuto digo a mim mesma: deixe-me completar outros três minutos. Então, no momento em que o relógio marcava o vigésimo minuto, desci e me coloquei em Adho Mukha Virasana.

Naquele momento, Guruji apareceu e disse:

— Venha cá, menina preguiçosa, o que você está fazendo?

E eu respondi com muito orgulho:

— Fiz uma conquista! — disse. — Hoje não fui preguiçosa. Fiquei em sirsasana por 20 minutos.

Ele disse:

— Certo. O que você fez?

— Guruji, fiquei em sirsasana por 20 minutos — respondi.

E ele repetiu:

— O que você fez?

Eu absolutamente não entendi a pergunta. Eu disse:

— Permaneci em sirsasana, equilibrei-me sobre minha cabeça, durante vinte minutos.

E ele retrucou:

— No momento em que você entrou [na postura] sobre sua cabeça, abusou da posição de sirsasana, o que você fez durante os vinte minutos?

Eu estava perplexa! Não fiz nada durante os vinte minutos; estava esperando pelo vigésimo minuto.

E ele pontuou:

— Que perda de tempo…”

(publicado em 28/08/2018, em inglês, por Iyengar Yogamandala South Delhi)

Tradução: Marcia Neves Pinto

Yoga: estudo da consciência

Yoga: estudo da consciência

Artigo de Alan Goode[1][2]

Tradução: Marcia Neves Pinto

Considere por um momento a questão do exercício. O que é exercício e porque o Hatha Yoga não é classificado como exercício? E por que os professores de yoga parecem ofendidos com a mera associação?

O exercício está descrito no dicionário como o uso e o esforço dos músculos e articulações para alcançar a saúde. No Hatha Yoga, entretanto, os exercícios com o corpo geralmente são vistos como um subproduto e não como um fim em si mesmo — quase uma distração para a tarefa.

O período do yoga clássico (período de Patañjali) considera a ênfase nas posturas corporais como um precursor insignificante para o trabalho sério, sendo a definição: “Yoga é a cessação das flutuações da consciência.” (Yoga Sutras I.2). O yoga é visto como o estudo do funcionamento da mente. A maneira como a mente interage com os sentidos e a respiração e estabelece as impressões emocionais. É o estudo da consciência. O modo como somos e como a nossa mente funciona — na verdade, a maneira como interagimos conosco mesmos e com os outros.

Como é possível dizer que o uso do corpo nos asanas contém as sementes para tal estudo?

Um espectador vê na prática dos asanas um gracioso conjunto de movimentos que contém coordenação, equilíbrio, flexibilidade e resistência. Mas o mesmo pode ser dito da dança. E quanto ao praticante — que é o yogi envolvido nela. Cada asana é uma tentativa de colocar o corpo em uma atitude física, mental e espiritual.

Como BKS Iyengar diz: Asana significa postura, que é a arte de posicionar o corpo com uma atitude física, mental e espiritual. A postura tem dois aspectos. A saber: posar e reposicionar. Posar significa agir. Posar é assumir uma posição fixa dos membros e do corpo, conforme representado pelo asana específico que está sendo executado. Reposicionar significa refletir sobre a pose. A postura é repensada e reajustada para que os vários membros e partes do corpo estejam posicionados em seus lugares em uma ordem apropriada, sentindo-se descansados e tranquilos; e a mente experimente a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras e das células.

Refletindo sobre qual parte do corpo está trabalhando, qual parte da mente está trabalhando e qual parte do corpo não foi penetrada pela mente, trazemos a mente para a mesma extensão do corpo. Do mesmo modo que o corpo é contraído e estendido, a inteligência é contraída ou estendida para alcançar cada parte do corpo. A isto é o que se conhece como reposicionamento; isto é sensibilidade. Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, estamos em estado de contemplação ou meditação, o que é conhecido como asana. As dualidades entre o corpo e a mente, a mente e a alma, são vencidas ou destruídas.”[3]

Cada vez que nos estendemos (ou agimos) há uma reação. A respiração se tensiona ou a atenção oscila ou a mente reage: yogis têm notado isso e reagem — não tentando parar essa interação, mas — observando-a para estudar a consciência, em vez de simplesmente controlá-la. Quanto mais concentrado e presente se está, menos presente está a reação excessiva. Os atos realizados conscientemente são mais puros, ou mais limpos, se você prefere, porque estão menos obscurecidos ou confusos. Como resultado, eles deixam menos impressões (samskaras) na mente. É igual em todas as atividades na vida. Quanto mais internamente ocupados tornamo-nos, mais perdemos a visão de nós mesmos, atraídos por nossos sentidos em direção à confusão e à perda de centro.

A prática diária opera em dois níveis — ter uma prática diária é ter um lugar reservado no dia para estar em silêncio interiorizado, uma pausa para respirar em um mundo de aparente loucura. Isso por si só não deve ser subestimado. Através dos sentidos tornamo-nos excessivamente estimulados, tensos e impulsionados. Como Patañjali afirma, “a causa da dor é a associação do observador com aquilo que é visto e a solução reside em dissociá-los.” (Yoga Sutras II.17). A prática é a arte de quebrar os hábitos criados em uma vida agitada — um momento para ouvir em um dia de ação.

Em segundo lugar, e mais importante para o estudante sério, a prática é uma tentativa de observar as próprias reações ao estímulo. Através da prática regular a forma exterior se torna familiar (isto não é nada fácil, porque a forma exterior em si mesma é complexa e exigente) e então yogi adentra no laboratório do complexo corpo/mente, onde as ferramentas se tornam a repetição, a paciência e a observação. O ato de retornar diariamente para a postura do cachorro, por exemplo, prova conclusivamente a natureza mutável da nossa experiência — o modo como a sensação pode mudar e ser influenciada pelo cansaço, interesse, humor, pensamento e respiração. A investigação séria e a longo prazo conduz o yogi ao inextricável fato da influência dos sentidos e do pensamento sobre nossa percepção do mundo.

A repetição destas três ferramentas é básica para o ato de aprender — a aprendizagem aprimora e refina os sentidos pelo ato de repetir vezes sem conta. A repetição neutraliza o pensamento confirmando-o por meio de uma sensação. Isto desafia a tendência da mente, que quer especular em vez de experimentar. A prática diária de Sarvangasana é bastante diferente das suas ideias sobre ela.

A paciência é uma ferramenta diferente. Isso implica em esperar, mas um termo melhor seria escutar. É a arte de esperar com os sentidos abertos para descobrir ou revelar o significado oculto ou que não é aparente para o observador ocasional. O significado oculto é um princípio implícito em yoga, o pensamento segundo o qual muito do que o yoga tem para ensinar não está aparente para a análise intelectual e está contido nos exemplos que são revelados pela prática. Somente esperando e ouvindo somos capazes de esvaziar-nos suficientemente para aprender. A paciência também contém em si as sementes do zelo ardente (desejo de saber ou tapas). Aqueles apressados dificilmente comprometem-se à perquirição, na medida em que nunca irão desenvolver totalmente o desejo de entender.

Todas as práticas de yoga contêm a premissa básica da observação ou da observação desapaixonada. Esta é a arte de observar ou de testemunhar. Observamos as nossas ações e monitoramos quaisquer reações internas, para vê-las, segundo o entendimento de que limpar as lentes através das quais recebemos o mundo (os sentidos) nos ajudará a ver a natureza de nossos pensamentos em oposição aos próprios pensamentos e às complicações do mundo. Estar presente como um observador do ato, em vez de sendo partícipe ou alguém interessado nele. Isso nem sempre implica em que controlamos nossas reações. Podemos suprimi-la. É o ato de vê-las, em vez de manipulá-las, que é importante. Quantas vezes você esteve calmo por dentro, mas agitado por fora, por exemplo?

Mas não vejamos apenas a influência dos sentidos, a maneira como eles nublam nossa percepção e nos tornam incapazes de ver claramente. Como veremos mais do que o fato de sermos vulneráveis aos sentidos e à mente? O próprio Iyengar esteve intimamente envolvido nesta perquirição — a prática deve tornar-se uma busca para encontrar as raízes dessa influência. Ele é muitas vezes visto levando um asana ao extremo — “um yogi físico” — interessado em alargar seus limites e demonstrar suas proezas; mas este não é o caso e é, de fato, uma grave distorção de seu método. Assim como alguns sentam-se observando a respiração, mantendo a atenção sem oscilar, seu método requer que a mente se mantenha concentrada e observando as invasões das sensações — meditação em ação. Veja Salamba Sirsasana, por exemplo. Um minuto ou dois é um esforço; cinco minutos ou mais, um ato de resistência; mas qualquer coisa acima de dez minutos se torna um ato de atenção. Iyengar não estabeleceu chegar, mas observar. Seu método leva o aluno desde o ato de executar até o ato de ser.

O método Iyengar é um teste destes princípios no rigor do asana. Não é um enfoque sobre o corpo ou um aperfeiçoamento de alinhamento, mas uma inquirição em curso sobre a natureza da existência, a arte da manutenção de equanimidade e o esvaziamento da mente de ideias, muitas vezes descrito como as oscilações do pensamento. O que começa como um ato de disciplina e atenção deve tornar-se um estudo da consciência; a observação de quem somos nós e do modo como as oscilações do pensamento nos prendem. Para iniciar esta etapa o professor deve ficar para trás, porquanto nenhuma força externa pode interagir nesse nível. BKS Iyengar diz “enquanto executa a postura, você deve se tornar total e completamente absorvido, com devoção, dedicação e atenção. Deve haver honestidade na abordagem e honestidade na apresentação. Ao realizar uma postura, você tem que descobrir se seu corpo aceitou o desafio da mente, ou se a mente aceitou o desafio do corpo. Você está trabalhando a partir do corpo para obter uma sensação concreta da postura ou fazendo a postura porque você leu nos livros que vai obter tal e qual efeito? Você está pego pela rede do que leu, buscando pela experiência posta no papel por outra pessoa, ou está trabalhando com a mente fresca para saber que tipo de nova luz é lançada por sua própria experiência sobre a postura enquanto a realiza?

Além dessa total honestidade, você precisa ter uma tremenda fé, coragem, determinação, consciência e absorção. Com essas qualidades em sua mente, em seu corpo e em seu coração, você fará bem a pose. O asana deve consagrar com esplendor e beleza todo o ser daquele que o executa. Esta é uma prática espiritual em forma física.”[4]

O asana conduz o sadhaka para a límpida luz da própria imperfeição — sua humanidade, se preferir. No que se refere a tentar o asana, invariavelmente revela o caráter do praticante e as suas próprias falhas.

Mathew Fox comenta que qualquer prática baseada em perfeição é inerentemente imperfeita e está fadada a falhar, pois é muito rígida.[5] O yoga é tudo, menos baseado na perfeição, estando intimamente envolvido com a imperfeição do indivíduo. Quando pratico, observo minhas falhas, fraquezas, hábitos e traços de caráter. Praticar é viver de muitas maneiras no pleno conhecimento de quem realmente somos, em vez de quem gostaríamos de ser. Nós nos estudamos. Nós estudamos nossa consciência.

Novamente diz Iyengar: “Estude cada aspecto de um asana. Pode ser triangular, redondo, em forma de arco-íris ou oval, em linha reta ou diagonal. Observe todos estes pontos, estude e haja dentro desse campo, de modo que o corpo possa representar o asana em sua pura glória. Como o diamante bem lapidado, a joia do corpo com suas articulações, ossos e assim por diante, deve ser lapidada para caber na fina moldura do asana. O corpo inteiro está envolvido neste processo com os sentidos, a mente, a inteligência, a consciência e o si-mesmo. Não se deve ajustar o asana para se encaixar na estrutura do corpo, mas moldar o corpo do modo requerido pelo o asana. Então o asana terá relevância física, fisiológica, psicológica, intelectual e espiritual.

Patañjali diz que quando um asana é executado corretamente, as dualidades entre o corpo e a mente, a mente e a alma, desaparecem. Isso é conhecido como reposicionamento, reflexão na ação. Quando os asanas são realizados desta forma, as células do corpo, que têm suas próprias memórias e inteligência, se mantém saudáveis. Quando a saúde das células é mantida através da prática precisa dos asanas, o corpo fisiológico se torna saudável e a mente é trazida para perto da alma. Este é o efeito dos asanas. Eles devem ser executados de forma a conduzir a mente da sua fixação no corpo em direção à luz da alma, assim o praticante pode residir na morada da alma.”[6]

 

Artigo publicado em Iyengar Yoga Resources, October 2001/Versão online: www.iyengar-yoga.com

 

[1] Gostaríamos de agradecer a Alan Goode por enviar seu artigo para a Iyengar Yoga Resources. Alan é um professor de Iyengar Yoga,  vive e ensina em Blue Mountain, Austrália. Ele pode ser contatado pelo email: goode@pnc.com.au. Copyright © 2001 Alan Goode. Nenhuma parte desta publicação pode ser de qualquer forma reproduzida sem o consentimento prévio e expresso dos editores.

[2] Foto do arquivo de Roadtobliss.

[3] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, pág. 55.

[4] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, p. 55.

[5] Matthew Fox, Original Blessings

[6] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, p. 55.

Entrevista com Christian Pisano: “O asana é apenas uma onda no oceano do Yoga.”

Entrevista com Christian Pisano:

“O asana é apenas uma onda no oceano do Yoga.”

Christian Pisano pratica Iyengar Yoga há muitos anos e ainda continua estudando em Pune. Ele dirige o Iyengar Yoga Institute em Nice, na França. Esta é uma entrevista de Consuelo Serrano para YogaenRed.

Tradução: Marcia Neves Pinto 

Christian Pisano pratica Iyengar Yoga há trinta anos e é uma das três únicas pessoas no mundo que receberam um Certificado Sênior Avançado de BKS Iyengar. Ele viveu em Pune, na Índia, por vários anos de sua juventude e dedicou-se a explorar a arte sagrada do yoga sob a orientação de seu guru, BKS Iyengar. Durante esse período, ele também se aprofundou no estudo de várias filosofias e aprendeu sânscrito.

Pergunta: Você começou a praticar há trinta anos. Como a prática de yoga evoluiu desde então?

Eu não posso falar sobre a evolução do yoga em geral. A prática, entendida como a prática postural, é apenas uma onda no oceano do yoga. Eu poderia acrescentar que a maioria das práticas posturais de yoga, hoje, não é mais do que uma invenção, uma adaptação contemporânea.

Trinta anos não são nada quando falamos sobre a evolução de uma arte que leva em consideração os ciclos cósmicos. E podemos falar sobre evolução quando consideramos que o yoga foi revelado? Isto é, apareceu espontaneamente ao mesmo tempo em que os diferentes ciclos cósmicos apareceram. É uma maneira de dizer que é parte integrante da potencialidade da Consciência. Tomará, então, diferentes formas e expressões de acordo com os diferentes ciclos do espaço-tempo. De fato, as mudanças observadas ao longo dos séculos são indescritíveis.

Eu poderia falar mais facilmente sobre a evolução da minha prática. Mas isto também seria problemático: a prática é apenas a expressão orgânica sensorial, emocional, mental e respiratória de um ponto X no espaço-tempo que é atribuído a um indivíduo.

Essencialmente, existe o espaço aberto da Consciência que se atualiza nas diferentes atividades. Claro, o leitor será capaz de dizer que houve mudanças, é evidente. Essas mudanças são pontos de vista simples (que a Consciência faz de si mesma) de um indivíduo que é, ele mesmo, a expressão do jogo da Consciência. Como afirmado no Siva Sutras, “O Eu é a cena” (rango antaratma[1]).

 

P: Foi durante a sua terceira viagem à Índia que você conheceu BKS Iyengar. Que lembranças você guarda do mestre e da sua estada em Pune?

Lembro-me da complacência de um sonho em que tudo era possível. Aqueles sonhos que nos embalam na infância e se alimentam da magia do mundo. Esse sonho que quando percebido é o sopro da nossa vida.

Vou dizer-lhe do que me lembro dos anos da minha juventude na Índia, onde conheci vários magos. Eles eram magos ou mestres? Um deles foi meu mestre de yoga, BKS Iyengar, que transbordava fogo, paixão e devoção à sua arte. Por trás de seus olhos de fogo e de suas sobrancelhas emaranhadas se via a pergunta maliciosa: do que você tem medo? Que risco você corre, já que não é o corpo-mente? Seu grito em direção ao Absoluto permanecerá em meu coração até meu último suspiro.

Isso realmente aconteceu? Eu não sei … Apesar disso, nos confins do meu ser há apenas a certeza desse sonho.

 

P: Você é professor de Yoga Iyengar e ensina um rigoroso programa de treinamento de professores em sua escola em Nice. Como o ensino de yoga no Ocidente está mudando? Quais são as qualidades de um bom professor?

De que rigor se está falando? De uma disciplina imposta, da série infinita que nossas sociedades, baseadas no medo, em seu sistema educacional não param de bradar, trilhar ou reinventar, e de lidar perfeitamente com o pau e a cenoura. Um rigor que cultiva a competição, a comparação e a não cooperação entre os indivíduos. Um rigor com o qual nos é prometido que, trabalhando arduamente os diplomas, a obediência e o pertencimento a um sistema, nos fará esquecermos da profunda ferida de nossas carências que não podem ser satisfeitas por nada.

Claro que tudo isso é expresso através de programas. Todos os programas existem para privar-nos de nosso próprio poder criativo, de nossas próprias habilidades para discernir e entender o processo pelo qual estamos passando. Sempre explico aos meus alunos que, se eu der a eles programas de prática, eles entenderão que o programa não é viável e, então, é inútil. O mapa nunca é o território.

No território, que é o processo do indivíduo através do corpo-mente, há uma qualidade orgânica que é essencial e de valor inestimável. Um programa nunca pode levar isso em conta. Ou você se dá conta que ele muda constantemente e então não é mais um programa.

A aplicação (viniyoga) das técnicas ou do programa de acordo com o indivíduo e sua constituição é, portanto, essencial. É por isso que o yoga era ensinado, tradicionalmente, de pessoa para pessoa.

O rigor e os programas são as facetas das formações que formatam. Treinamento, por definição, é sempre formatação. É fabricado e moldado de acordo com uma padronização de técnicas e tempo. Um período de tempo é imposto. Como é possível, quando todos nós temos ritmos diferentes? Você deve ter terminado em um lapso de tempo e tudo é sancionado com um exame. A padronização das técnicas é realizada através de um currículo que constitui um modelo de prática com um tempo imposto. De fato, o que se faz é sujeitar todos os candidatos às mesmas condições, sem levar em consideração sexo, idade, circunstâncias, etc.

A dimensão de um ritmo orgânico em que todos respeitam seu terreno e se tornam conscientes de suas próprias capacidades é completamente ignorada nessa perspectiva. Teria que começar com uma “quebra do rigor”, um “des-programamento”, uma “de-formação”, onde se “des-aprenda” muito mais que se acumule informação.

Estou muito satisfeito com a decisão tomada pelo RIMYI (Instituto de Yoga Memorial Ramamani Iyengar) de cessar completamente o treinamento como atualmente proposto e retornar a uma forma muito mais tradicional de transmissão.

Quanto às qualidades de um bom professor, para que servem as listas de qualidades? Elas não nos ajudam em nada. Muitas vezes, elas não podem ser aplicadas ou não estão diretamente relacionadas ao que é vivido no dia-a-dia. Isso significaria que eu sei ou acho que sei o que é um bom professor ou que vivo de acordo com um ideal que não alcancei e que quero alcançar. Em ambos os casos, eu falaria de duas situações que não têm relação com o que eu vivo diariamente, visceralmente, sem a imagem que quero dar, do que deveria ou não ser um professor de yoga.

 

P: Sua inclinação filosófica o levou ao Shivaísmo não-dualista da Caxemira. Você poderia explicar a essência deste sistema?

A expressão do Shivaísmo não-dual da Caxemira é a designação contemporânea e recente de uma forma de Shivaísmo ensinada e elaborada pelos mestres da Caxemira a partir de textos escritos em sânscrito. A maioria foi escrita entre a segunda metade dos séculos IX e XIII da nossa era.

Nesta perspectiva, a única coisa que é reconhecida é a Consciência e sua inclusividade. Nada é separado ou diferenciado desta Consciência. Já somos o que procuramos, mesmo que ainda não tenhamos reconhecido. O fracasso em reconhecê-lo é também uma expressão da Consciência. Esta Consciência não está ainda para ser alcançada, mas já foi alcançada e realizada e expressa livremente em todas as expressões da existência, em todas as percepções, quaisquer que sejam.

“Seja como você é, sem qualquer preocupação, já que o objetivo já foi alcançado. Isso é exatamente discriminação. Quem mais se não Ele ensinaria o que e para quem?” (Mahartha-manjari, Mahesvarananda 64).

O estado em que me encontro seja qual for o estado de contração ou expansão, de prazer ou sofrimento, de lucidez ou confusão, já tem o grande prêmio da presença. Não poderia se expressar ou aparecer sem a luz da nossa própria Consciência, da nossa Presença. Então, não há nada para adicionar ou subtrair, nada que possa me aproximar ou afastar, nada a procurar ou evitar. Nada que possa facilitar ou impedir.

“Como o indivíduo é idêntico a tudo, já que ele é a fonte de tudo, a partir do momento em que ele toma consciência disso – em relação ao corpo, à palavra, aos sentidos, ao pensamento, às ações -, já não existe outro estado que diferente que não seja (o de) Shiva. É sempre o Sujeito que goza e que se manifesta a si mesmo em qualquer lugar, na forma daquele que está desfrutando.”(Spanda Karika 28-29)

 

P: Em junho, você vem a Madri para apresentar seu último livro, , La contemplación del héroe. Quais foram seus objetivos ao escrevê-lo? O que você pretende transmitir aos seus leitores?

O que pode ser transmitido? O essencial do que somos não pode ser transmitido. A única coisa que podemos compartilhar é o nosso espanto diante de nossas tentativas e estratégias repetidas tentando dar sentido e significado à maravilhosa e terrível dança de Shiva, que é a nossa própria dança. Dança que nunca pode ser entendida e que explico no primeiro capítulo, Confesiones de ignorancia, que é muito curto. Eu adoraria, se no final da leitura, o leitor fechasse o livro explodindo em gargalhadas por ter percebido a piada cósmica de tudo isso.

 

P: Interessa-me sua definição de herói, que você coloca entre o animal social, condicionado por seu ambiente, e o ser divino, sem qualquer condição. Conte-nos sobre esse conceito de herói tântrico e como o yoga pode ajudar-nos a encontrar nosso próprio herói.

O modelo de nossas sociedades e o sistema de ensino, geralmente transmitido por nossos pais, é baseado em medo, vergonha e culpa. A maioria das organizações sociais reforça esse condicionamento, o do indivíduo separado do mundo, o de um universo que seria estranho e perigoso. O animal social se crê uma entidade separada do resto através de uma história pessoal e que, graças aos seus esforços e trabalho árduo, terá um lugar nesta sociedade ou no paraíso.

“Aquele que vê o que percebe como sendo ele mesmo (a existência objetiva é apenas a expressão da nossa subjetividade) é um professor (pati), enquanto aquele que se considera diferente do que percebe, é um pashu (um ser acorrentado).” (Utpaladeva Isvarapratyabijnakarika, Livro III, capítulo 2, verso 3).

O Vira (herói) não tem nada a ver com o herói de Hollywood que mesmo nas situações mais assustadoras mantém sua melhor imagem, sempre apresentável e politicamente correta. O Vira também não tem nada a ver com o guerreiro espiritual que realiza a luta contra os moinhos de vento. Tudo o que se apresentado a ele e o estado em que ele se encontra, qualquer que seja, é unicamente a expressão da Consciência. Tudo é alimento para ele. Ele não quer transcender ou idealizar o estado em que se encontra. Para ele, a realidade em si é a prática autêntica e última.

“Eu sempre pratico os três lembretes. São como lagos que limpam o coração. Primeiro, lembro-me de que sou uma forma de Consciência infinita. Então observo os gloriosos fenômenos do universo como a expressão do universo, a expressão da minha própria Consciência. E no final eu vejo os diferentes estados de Consciência como se se tratasse de mim mesmo, do meu próprio ser.” Lalla.

“Tudo o que é percebido, tudo o que existe, é precipitadamente jogado no fogo que ruge no estômago de nossa própria consciência, abandonando, assim, toda diferenciação; alimentando-o com diferentes tipos de combustíveis que a realidade nos oferece a cada momento. Uma vez que a forma de todas as coisas e objetos tenha sido dissolvida com esta digestão violenta, somente a energia pura da Consciência permanece”. (Abhinavagupta, Tantraloka).

“Chamamos de sacrifício a tudo que o herói (vira) assume através do pensamento, fala ou corpo, qualquer que seja a atividade capaz de revelar o essencial.” (Abhinavagupta, Tantraloka).

Nada pode ajudar, nada pode impedir. Como Abhinavagupta diz no Tantraloka: “A consciência não é um produto da atividade; os rituais, a prática do yoga, não podem servir como um caminho. A atividade só existe através da pré-existência da Consciência.”

Acreditar que o yoga ou qualquer outra coisa poderia ajudar a descobrir, a encontrar nosso próprio herói, seria simplesmente uma estratégia como qualquer outra que me projeta em direção ao futuro e que me diz que tal como sou agora há algo que não funciona. Que teria que praticar, meditar, purificar, ir mais longe, ceder, soltar, acordar. É apenas um catálogo de decadência e perdas desesperadas com um futuro inexistente.

Por acaso somos um corpo-mente que de vez em quando experimenta o infinito, ou somos a Consciência infinita que experimenta as contrações, as limitações do corpo-mente?

É inútil tentar revelar a capacidade de nossa própria Consciência, a capacidade heróica de esquecer-se e limitar-se, pelo prazer do jogo, através de uma história pessoal, com tudo o que isso implica.

 

(https://www.yogaenred.com/2018/05/24/entrevista-con-christian-pisano-asana-solo-es-una-ola-en-el-oceano-del-yoga/)

 

[1] N. T. Shiva Sutra 3.10 rango’ntaratma

Ranga é o palco, o local onde a alma universal pode encenar inúmeros papéis. Antaratma é a alma interior que tomou a forma do corpo sutil (puryashtaka). O corpo sutil carrega os traços residuais de nossas boas e más ações de uma vida para a outra. [Jaideva Singh] Cada um de nós é a composição perfeita de cada um de nossos pensamentos, ações e obras em todas as vidas anteriores.

A alma interior age em três estados: desperto, sonho e sono profundo. A consciência destes três estados é importante no Shivaísmo da Caxemira, porque temos que nos tornar conscientes de todos os três.