Arquivo da categoria: B.K.S. IYENGAR

APROFUNDANDO A PRÁTICA DO YOGA

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(por Marcia Neves Pinto)

A reflexão do primeiro dia do intensivo para professores de Eyal Schifroni foi uma continuação da proposta da indagação diária de nossas motivações para a prática de yoga. O Prof. Eyal comenta que as técnicas de yoga são muito importantes, especialmente no método proposto por B. K. S. Iyengar, mas que temos que contextuá-las em todo esse arcabouço que forma a ciência, a arte e a filosofia do yoga.

Quando iniciamos a prática de yoga, é só mais uma forma de exercício, uma ginástica – exótica, mas é… Mas na medida em que progredimos, yoga vai se revelando muito mais do que práticas de posturas e respiração, vai se tornando uma forma de pensar, de agir, de viver. A maioria de nós começa estudando o corpo mas, em algum momento, passa a estudar a mente. Yoga, na verdade, é o estudo da mente, suas capacidades e limitações. O texto que lhe dá embasamento – os Yoga Sutras de Patañjali – é conhecido como um verdadeiro tratado de psicologia.

Há muita profundidade na prática dos yamas, niyamas, asanas e pranayama, se fazemos dela um laboratório de pesquisas de nós mesmos. A permanência nos asanas nos permite observar o corpo, a respiração, a mente e a relação entre eles.

Em Árvore da Vida, Guruji diz: “O corpo não pode ser separado da mente, nem a mente pode ser separada da alma.” E prossegue: “Se você, como principiante, observar o esforço envolvido na realização da postura e continuar observando-o à medida que progride, verá que esse esforço diminui a cada dia, embora o nível de realização do asana esteja melhorando. (…). Conforme vai trabalhando, você pode sentir desconforto por causa da imprecisão de sua postura. Para que isso não ocorra, você precisa aprendê-la e assimilá-la. Tem de fazer um esforço de entendimento e de observação. (…). O ioga requer análise durante a ação.”

“A mente age como uma ponte entre o movimento muscular e a ação dos órgãos de percepção, introduzindo o intelecto e ligando-o a todas as partes do corpo – fibras, tecidos e células (…), surgindo uma nova percepção. Observamos com atenção e lembramos a sensação da ação. Discriminamos com a mente. A mente discriminativa observa e analisa a sensação das diversas partes do corpo. “Finalmente, quando existe uma sensação total da ação sem quaisquer flutuações do alongamento, então a ação cognitiva, a ação mental e a ação reflexiva se reúnem todas para compor a conscientização plena (…). Essa é a prática espiritual do ioga.”

Quando a postura se torna contemplativa, atingimos o estado mais elevado de contemplação no asana, o que envolve a integração do corpo, da respiração, dos sentidos, da mente, da inteligência (ou do conhecimento) e do Eu com a totalidade da existência. Patañjali diz que, quando um asana é realizado corretamente, as dualidades entre corpo e mente, mente e alma, desaparecem. Isso é conhecido como repouso na permanência, reflexão durante a ação.

Diz Guruji: “Há dois tipos de prática de ioga. Quando você está totalmente envolvido, sem o reflexo de impressões passadas, ajustando-se e agindo passo a passo rumo à perfeição e à precisão, ele se torna espiritual. Se você estiver oscilando, se sua mente estiver divagando ou existir uma diferença entre você, seu corpo, sua mente e seus pensamentos, então esse ioga é sensual, embora o esteja praticando sob a designação de espiritual.

Voltamos, então, à segunda proposta de indagação pessoal diária, que se traduz na análise do modo como estabelecemos nossa prática de yoga, cabendo examinar o seguinte tripé para poder responder a esta questão: (1) intenção, (2) atitude e (3) aplicação. A intenção tem a ver com as razões pelas quais praticamos, com o que queremos obter por meio da prática, aferindo se estas intenções guardam sintonia com a meta do yoga, yoga citta vrtti nirodhah (I.2). Isto é, nossa prática está na direção da estabilização da nossa mente, na pacificação da torrente incessante de pensamentos que nos assomam? Ou nossa prática tem outros motivos ocultos, tais como poder, beleza, fonte de sustento, flexibilidade? É importante manter uma intenção correta e pura no caminho do yoga.

A atitude guarda relação com a forma como nos aproximamos da prática. É preciso notar que há uma diferença entre praticarmos em um grupo e praticarmos sozinhos: em grupo, além da interação com outros, abre-se espaço para a comparação, competição, vaidade, orgulho, e podemos observar nossa tendência à necessidade de aprovação, de impressionar os outros e até mesmo de nos sentirmos inferiorizados em relação aos outros (ou o contrário…). Por outro lado, quando praticamos sós, nossas tendências emocionais vêm à tona: indisciplina, impaciência, agressividade, preguiça, acomodação. É um outro terreno de observação: como nossa mente opera quando ninguém está olhando. E em yoga temos que aprender a nos desidentificarmos com a mente para observar a mente como objeto.

“Asana quer dizer postura, que é a arte de posicionar o corpo todo com uma certa atitude física, mental e espiritual. As posturas têm dois aspectos: a permanência e o repouso. A permanência implica ação (…). Repousar significa refletir sobre a postura. A postura é repensada e reajustada, para que os vários membros e segmentos corporais sejam posicionados em seus devidos lugares na ordem certa, e a sensação seja de descanso e apaziguamento, enquanto a mente experimenta a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras, das células. (…)

Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, entramos em estado de contemplação ou meditação, conhecido como asana. As dualidades entre corpo e mente, mente e alma, são vencidas ou destruídas.”

Mas a atitude tem ainda relação com outras indagações:

  • Praticamos por praticar ou para aprender? Prashant Iyengar costuma dizer que não saímos da prática do fazer, quando deveríamos adotar a cultura de praticar para aprender.
  • Praticamos com a mente aberta ou dogmaticamente? Geeta Iyengar diz que a maturidade em yoga é saber que também há outros sistemas, valorá-los, assim como à sabedoria existente neles.” Há muitas maneiras corretas (evidente que há também as incorretas). O estudo é, justamente, a exploração, a investigação, o uso da sensibilidade, contraposto à possibilidade da prática mecânica, automática.

Por fim, a aplicação se refere a como aplicamos o conhecimento obtido com a prática de yoga por meio da técnica, do exame da intenção e da atitude. Significa dizer, aferir de conseguimos tornar esse conhecimento em habilidade de praticar de maneira correta. Se sabemos como praticar quando temos uma lesão, como deveria ser a prática pela manhã e pela noite, ou se estamos cansados, deprimidos ou agitados. Enfim, se nosso conhecimento nos permite estabelecer uma prática correta diária contínua, não importa sob que circunstância nos encontremos em nossas vidas naquele dado momento.

Explica Guruji em Árvore no Ioga: “Se meu cérebro está cansado, faço halasana e recupero minha energia; se é meu corpo que está cansado, faço meio halasana e revigoro as células. Talvez vocês, mesmo cansados, façam posturas em pé. Já estão cansados e ainda se excedem no alongamento das posturas; naturalmente, ficarão ainda mais cansados. Vocês devem usar o bom senso: o que fazer, quanto fazer, quando fazer.”

A prática pessoal é muito importante porque é o momento em que nos encontramos conosco mesmos. A prática deve culminar, segundo Patañjali, no vislumbre da alma. Ao atingir esse estado, você desenvolve uma consciência madura conhecida como inteligência experiente ou madura, que não se abala, e você se torna um só com a essência do seu ser.

Diz Guruji, no mesmo livro: “Quando o corpo, a mente e os sentidos são limpos por tapas (zelo e autodisciplina baseados no desejo ardente), e quando o entendimento do eu foi atingido por meio de svadhyaya (autoexame), só então é que o indivíduo está apto para Isvara-pranidhana (entregar-se a Deus). Ele já anulou seu orgulho e desenvolveu humildade, e somente essa alma humilde é condizente com bhakti-marga, o caminho da devoção. Dessa maneira, percebemos que Patanjali não se esqueceu nem de karma-marga, o caminho da ação, nem de jñana-marga, o caminho do conhecimento, nem de bhakti-marga, o caminho da devoção.”

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LUZ SOBRE O YOGA

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Tivemos o lançamento da tradução do livro Light on Yoga para o português no dia 17/04 último, durante a Primeira Convenção Nacional de Iyengar Yoga no Brasil.  Levamos um ano no processo da Editora Pensamento aceitar nosso projeto, adquirir os direitos autorais para a tradução para a língua portuguesa no Brasil e examinar as duas tradutoras/revisoras que não compõem seus quadros, mas são professoras certificadas do método, o que acarreta no diferencial de ter tradutores que praticam os ensinamentos contidos no texto.

Depois, levamos 3 anos no processo de traduzir e revisar a tradução, que também contou com autorizações do Guruji para pequenas alterações que purificaram o texto da obra em inglês, assim como autorização para uniformizar as transliterações do sânscrito, o que tornou a tradução e revisão em um processo hercúleo.

Finalmente, a editora levou um ano para editar a obra: mas o resultado final mostra o capricho com que foi realizada a edição brasileira. Se você quiser adquirir a obra, clique http://www.pensamento-cultrix.com.br/luzsobreoyoga,product,978-85-315-1924-6,230.aspx.

A Editora Pensamento informou que até o final do mês o livro poderá ser encontrado nas livrarias, também.

Já de antemão aponto que, como tradutora, não recebo nenhuma participação nas vendas, estou apenas indicando o caminho para aquisição, uma vez perguntada “n” vezes.

Desejo que a leitura do livro  ilumine a todos em suas jornadas.

Namaskar!

Marcia Neves Pinto

LUZ SOBRE O YOGA

Luz sobre o Yoga

Queridos todos:

Tenho a felicidade de anunciar que a tradução do Light on Yoga para o português – Luz sobre o Yoga – será lançada em evento especial e aberto durante a Primeira Convenção Nacional de Iyengar Yoga, dia 17/04/2016, veja a programação:
15h20 às 15h40 – Discurso do Prof. Faeq Biria sobre o livro
15h40 às 16h – Discurso e homenagem da Presidente da ABIY
16 às 16h30 – Venda dos livros pela Editora Pensamento-Cultrix.

O preço de capa da edição brasileira será R$ 75,00, mas no evento de lançamento o preço será de R$ 60,00.

Local:
CLUBE PORTUGUÊS
Rua Turiassú, 59 – Perdizes, São Paulo – SP.

Desejo que este trabalho nos preencha a todos com a Luz do Yoga e os ensinamentos do Guruji.
Namaskar!

Marcia Neves Pinto

Tradutora/Prof. Certificada por RIMYI

DHYĀNA NA PRÁTICA DE YOGA

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Marcia Neves Pinto 

Quando Patañjali afirma que yogaḥ citta vṛtti nirodaḥ (sūtra I.2) , está a dizer que yoga é um estado da mente em que ela está completamente livre de todas as oscilações do pensamento, de todos os hábitos mentais e, portanto, de toda a tendência à reatividade:

  • vṛtti = modificações, transformações, variações ou funcionamento;
  • citta = mente;
  • nirodhaḥ = parar, restringir ou controlar e, neste contexto, absorver os pensamentos em si mesmo.

Patañjali inicia seu trabalho dizendo, portanto, que as funções, as agitações e os fluxos da mente precisam ser controlados, no sentido de que se deve obter controle da mente para “desligá-la” de seu aspecto mundano e direcioná-lo para fins espirituais. De regra, é a mente que nos controla, equivalendo ao servo controlando o mestre.

Sabe-se que os hábitos da mente são os centros de reação formados na mente, resultantes da repetição de pensamentos (vṛttis) que resultam em repetição de experiências de prazer ou de dor (sukha/dukha) que, por sua vez, resultam na formação de memórias (saṁskāras) que se tornam nossos hábitos mentais que, colocados em ação, exibem as características de impulsos reativos.

Acostumamo-nos tanto com esses hábitos de pensamento e de ação que começamos a considerá-los nossa natureza. Entretanto, essa é a nossa natureza adquirida, não a nossa verdadeira natureza, a nossa natureza essencial livre dos centros reativos (ātman, puruṣa, self).

Cabe aqui ressaltar que cessar o fluxo incessante de vṛttis não significa inibir o surgimento de pensamentos na mente, pois isto significaria tornar a mente totalmente adormecida ou morta. Não é o surgimento de pensamentos que constitui um problema, mas dar continuidade a esses pensamentos porque, a continuidade de pensamentos e as tendências da mente são uma única coisa: da continuidade do pensamento nasce a tendência reativa da mente.

“Quando o pensamento estabelece sua esfera de influência na mente, então nasce vṛtti. Se os pensamentos viessem e fossem sem formar qualquer centro permanente da mente, não haveria absolutamente dificuldade. Tal mente sempre permaneceria livre e não comprometida. Em tal mente os centros do hábito não seriam criados. (…)

A questão fundamental portanto é: como prevenir esta continuidade com referência ao pensamento-emoção?”[1]

Quando vamos para o tapete praticar yoga, nossa mente vai conosco, de modo que precisamos estabelecer um esforço contínuo (yatna) e estável (sthitau)[2] para praticar os oito aspectos do yoga[3] a fim de prevenir a continuidade das ondas pensamento-emoção (vṛtti).

Por força da prática com o foco no momento presente, a prática torna-se consciente, de forma que há real benefício mental na prática de yoga: adquirimos maior estabilidade mental e, de consequência, maior estabilidade emocional.

Quando trazemos a atenção para as sensações do corpo e nos concentramos em perceber o “aqui e agora” de modo reiterado, estamos controlando as flutuações da mente a fim de alcançar o estado de esvaziamento. Quando alcançamos o controle das alterações da mente, temos controle de tudo, porque as coisas externas não nos aprisionam, nem nos libertam, somente nossa atitude perante elas faz isso.

Iyengar[4] ensina que yoga é a neutralização das ondas que se alternam na consciência; é a cessação de todas as modificações da substância mental, é a arte de estudar o comportamento da consciência, que possui três funções: cognição, volição e ação. A prática de yoga mostra formas de conduzir alguém ao estado imperturbável do silêncio que conduz ao assento da consciência. Yoga é, então, a arte e a ciência da disciplina mental através da qual a mente se torna refinada e madura.

A prática do yoga integra uma pessoa através da jornada da inteligência e consciência desde o exterior (da camada do corpo por meio da prática dos āsanas) até o interior (da alma, do ser interior, do self por meio da concentração no momento presente), unifica a partir da inteligência da pele até a inteligência do eu, de modo que seu eu se funda com o Eu cósmico.

Na técnica desenvolvida por B. K. S. Iyengar, iniciamos a prática usando aquilo com que temos maior contato, o corpo, através da execução dos āsanas e dos prāṇāyāmās, tendo por foco de atenção o eu individual, a quem acessamos por meio do direcionamento da atenção para o momento presente, primeiro, à execução da figura do āsana, depois às ações nele envolvidas, mais adiante aos efeitos destas ações sobre a respiração e ainda mais adiante ao efeito da ação sobre cada célula do corpo durante a execução para, afinal, observarmos o estado da mente, desta forma alcançando uma mente ekāgratā que acaba fluindo para o estado de meditação (dhyāna), onde o eu individual perde sua identidade e se torna um com o Eu Universal.

Deste modo, podemos observar que a prática consciente dos āsanas e dos prāṇāyāmās e conduzem ao estado de pratyāhāra (atenção) que provocam a contenção da flutuação dos pensamentos que, por sua vez, conduz à concentração (dhāraṇā) que conduz ao silêncio que é a meditação (dhyāna), conduzindo, por fim,  ao estado sátvico (sabedoria).

El Haṭha Yoga Pradīpikā, dice que los sentidos son controlados por la mente, y que esta lo es por la respiración. El texto dice:

indriyāṇām hi mano nāthaḥ manonātḥasya mārutaḥ/

mārutasya layo nāthaḥ s layo nāḍamāśritaḥ// (IV.29)

El señor de los sentidos es la mente; el señor de la mente es la respiración; cuando los nervios suavizan el fluido de la respiración, entonces se controla los sentidos y se somete la mente.

La mente, el señor de los sentidos, ha de ser calmada mediante el fluido de energía, el prāṇa. Quien sabe cómo canalizar la respiración puede canalizar la consciencia, y a través de ello controlar los órganos de acción y los sentidos de percepción.[5]

Neste sentido o sūtra I.34 – pracchardana vidharanabhyam vā pranasya: outra possibilidade de difundir consciência é conseguir aquele estado de serenidade existente na retenção da respiração após a expiração. Aqui se recomenda inspirar e expirar lenta e pausadamente, mantendo a retenção (kumbhaka) tanto quanto seja confortável. Essa prática assegura um estado de consciência calmo, preparando-a para a evolução espiritual, leciona Iyengar, assim tornando claro que atingir a meta do yoga é possível para indivíduos, culturas e bagagens diferentes.

Quando a mente está concentrada e sem agitação, a respiração para, o que é chamado de kevala kumbhaka ou retenção sem esforço, o que as pessoas que ingressam em meditação profunda experimentam.

Se a respiração está controlada, a mente também está, uma vez que ambas estão intimamente conectadas, produzindo uma mente calma e focada, livre dos vṛttis e próxima do estado de samādhi.

Bryant, em comentário ao sutra I.39[6], nota que se deve apontar a memorável conquista de B. K. S. Iyengar na disseminação da prática dos āsanas mais que qualquer outra pessoa nos registros da história do yoga, sustentando que os āsanas, não somente são o terceiro dentre os oito membros do yoga, mas também são um objeto de meditação que pode trazer a experiência de samādhi.

Enquanto isso é uma inovação na história do yoga, deve se notar que Patañjali mesmo sustenta, no sūtra I.34, que a prática do āsana associada ao quarto membro do yogaprāṇāyāma – pode trazer a tranquilidade da mente, pré-requisito de samādhi, agora neste sūtra acrescentando que qualquer objeto pode ser eleito pelo praticante para meditação, de acordo com suas inclinações.

Ainda mais importante é lembrar que uma vez atingido o estado de tranquilidade da mente numa situação, mais fácil é transpor essa tranquilidade para outras situações. Uma vez a mente acalmada, sua natureza sátvica pode se manifestar e, como resultado disso, as qualidades de sattva, insight e lucidez gradualmente se manifestam e começam a permear todos os aspectos da vida do praticante, transformando sua compreensão e relacionamentos e, ao final, gerando a inclinação ao cultivo da sabedoria e iluminação.

O sādhaka não somente fica livre das perturbações da mente, mas também subjuga sua consciência e paixões.

[1] Rohit Mehta, Yoga – a arte da integração, Ed. Teosófica, Brasília – DF, Brasil, 1995.

[2] I.13 – tatra sthitau yatnaḥ abhyāsaḥ.

[3] II.29 – yama, nyama, āsana, prāṇāyama, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi.

[4] B. K. S. Iyengar, Light on the Yoga Sūtras de Patañjali, Harper Collins Publishers, United Kingdom, 15ª Ed., 2008.

[5] B. K. S. Iyengar, La Esencia del Yoga, Aṭadaḷa Yogamālā, V. I., Biblioteca de la Salud, Ed.Kairós, 2ª edición, Barcelona, Spagna, 2008, p. 174.

[6] I.39 – yathabhimata dhyanat vā, “ou pela meditação sobre qualquer objeto que se deseje, que conduza à estabilidade da consciência”. Não qualquer objeto que seja externamente prazeroso, mas um que seja auspicioso e espiritualmente elevador. Praticando esse simples método de atenção focada, o sādhaka desenvolverá gradualmente a arte da contemplação. A execução perfeita de um āsana é prazerosa e através dela, também, se pode ganhar serenidade in Edwin Bryant, The Yoga Sutras of Patañjali, North Point Press, New York, 1ª ed., 2009.

 

Gulnaaz Dashti e Rajlaxmi: duas belas surpresas

Gulnaaz Dashti e Rajlaxmi: duas belas surpresas.

ESCOLHENDO UM ESTILO DE YOGA – POR QUE IYENGAR YOGA PODE SER A MELHOR ESCOLHA

ESCOLHENDO UM ESTILO DE YOGA

POR QUE IYENGAR YOGA PODE SER A MELHOR ESCOLHA

 

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(artigo de Marcia Neves Pinto, baseado em artigo publicado em http://act3.hubpages.com/hub/Why-Iyengar-Yoga-May-be-the-Best-Yoga-for-You)

 

Para aqueles estreando ou desejando estrear em yoga – e mesmo para muitos praticantes, há uma grande gama de diferentes estilos de yoga ofertados, o que torna difícil escolher uma classe para ir. Cada aula de yoga parece ter seu próprio nome ou associação. Se você está em uma metrópole, pode haver mais de uma dúzia de estilos diferentes de aulas de yoga à sua disposição.

Tirando pela minha própria experiência, assim como para muitas pessoas que conheço, uma aula de Iyengar Yoga pode ser a melhor opção. E isto por três razões principais: pela qualidade de seus professores, pelo tipo de instrução que você vai receber e pela adaptabilidade do método às suas necessidades específicas.

 

PROFESSORES

Os professores certificados em Iyengar Yoga (e você pode encontrar um na página da Associação Brasileira de Iyengar Yoga – ABIY, www.iyengar.com.br) são excepcionalmente bem treinados. Há vários diferentes níveis de certificação no sistema Iyengar, atualmente começando com o nível Introdutório I-II.

Para alcançar este nível inicial, exigem-se 5 anos de prática regular de Iyengar Yoga sob a direção de um professor certificado em Iyengar Yoga, assim como a experiência mínima de 1 ano de ensino como assistente ou monitor ou aluno-mestre de um professor também certificado, mais a existência de um professor igualmente certificado que o recomende para a prova de certificação.

As provas de certificação incluem a demonstração de cerca de 50 āsanas e 3 tipos de prāṇāyāma, um teste escrito sobre anatomia, āsanas e filosofia do yoga. Se aprovado nestes exames, o candidato ainda deverá submeter-se ao teste de ensino, onde será observado e avaliado pela banca de certificação em suas habilidades de ensino de āsanas escolhidos pela banca, inclusive quanto à capacidade de corrigir ou adaptar a execução do āsana por cada um dos alunos, de acordo com suas possibilidades.

 

INSTRUÇÃO

Professores certificados em Iyengar Yoga irão, tipicamente, dar instruções muito detalhadas e específicas durante a aula. Eles foram treinados para descrever ações específicas que são blocos construtores de cada postura de yoga. Some-se a isso a repetição da postura por duas ou três vezes com instruções adicionais ou variações, que visam fazer com que o praticante alcance o resultado físico, fisiológico, mental e emocional da prática de cada postura.

Enquanto alguns alunos podem não ver o benefício que isto traz, ou mesmo ficar impacientes para executar um próximo āsana, há muito valor na exploração aprofundada de cada āsana. Aprender o alinhamento específico e as ações de cada āsana ajuda a colocar a atenção/inteligência/consciência da mente em estreita associação com o corpo, conduzindo a um estado pré-meditativo de forma natural. Ademais, há menor possibilidade de lesão neste modo de praticar, seja durante as aulas, ou a longo prazo pela repetição das posturas, de forma “incorreta”.

Se você tende a concordar com estas premissas, então a prática das ações de modo preciso e totalmente focado do estilo Iyengar Yoga será de grande benefício para você.

 

ADAPTABILIDADE

Iyengar yoga é mais largamente conhecido pelo uso de muitos acessórios, incluindo mantas, blocos, cintos, cordas na parede e cadeiras. Os acessórios podem ser de grande auxílio para ensinar as ações de uma postura para cuja prática ainda não estamos preparados. Os acessórios também ajudam aos alunos menos flexíveis, ou com outros tipos de limitação, a experimentar os benefícios da postura sem dor.

Os professores certificados em Iyengar yoga recebem treinamento sobre como modificar as posturas para pessoas com problemas nos joelhos, quadris, pescoço, coluna, por exemplo, assim como outras condições de saúde. Professores certificados nos níveis Intermediário e Sênior recebem um treinamento adicional no uso terapêutico do yoga.

Se você vai experimentar praticar yoga, especialmente Iyengar Yoga, seria interessante disponibilizar-se para ir a pelo menos 3 a 4 aulas antes de decidir se este (ou aquele) é o método certo para você. As aulas de Iyengar Yoga tendem a seguir um esquema de sequenciamento das posturas ao longo do mês, de modo que ao longo de 4 semanas você tenha praticado toda a gama de famílias de posturas (posturas em pé, sentadas, flexões para frente e para trás, torções, invertidas e restaurativas). Deste modo, dependendo das suas habilidades, algumas aulas parecerão fáceis e outras difíceis.

Independentemente de sua idade, flexibilidade ou estado de saúde, um professor certificado em Iyengar Yoga terá base de conhecimento para ajudá-lo a experimentar os benefícios e o prazer derivados da prática de yoga.

Mas atenção: quando se trata de Iyengar Yoga, dado o método criado e regulamentado por B. K. S. Iyengar, a comprovação de que você tem um professor certificado e que corresponde a todas essas qualificações se dá por ter o professor seu nome inscrito no site da ABIY.

Deste modo, escolha bem seu professor: isto é o que garante que você estará em boas mãos, é a sua garantia de segurança.

Namastê!

 

B.K. S. IYENGAR E A INVENÇÃO DO YOGA

B.K. S. IYENGAR E A INVENÇÃO DO YOGA

 BKS and death

Marcia Neves Pinto – foto de Jake Clennell

Nas aulas de yoga contemporâneas, frequentemente os professores falam sobre os Yoga Sūtras de Patañjali, um texto filosófico compilado cerca de 2 mil anos atrás, como o manancial da prática. Isto requer um salto de imaginação, porque os yoga sūtras falam quase nada sobre as posturas; sua prioridade máxima é o trabalho da mente. Os sūtras dizem que yoga “é a contenção das flutuações da consciência”. A completude de sua orientação sobre as posturas é que elas devem ser “constantes e confortáveis”.

As instruções sobre as posturas, ou āsanas, surgem muito depois, nos textos medievais influenciados pelo tantra, como o Haṭḥa Yoga Pradīpikā. Mesmo nesses trabalhos, contudo, não vamos encontrar muitas das posturas ensinadas hoje como yoga. Quinze posturas aparecem no Haṭḥa Yoga Pradīpikā, a maior parte delas sentada ou supinada. Não há saudações ao Sol, nem adho mukha śvānāsana (cachorro olhando para baixo) ou virabhadrāsana-s (guerreiros).

Há instruções sobre como dirigir o sêmen descarregado de volta ao pênis, de forma a superar a morte, e para separar o tendão que conecta a língua à base da boca e estendê-la de modo que ela possa tocar a testa.

Antes do Século XX, tanto ocidentais quanto indianos educados tendiam a desdenhar as práticas ocultas designadas pelo termo haṭḥa yoga.”Não temos nada a fazer com isto aqui, porque suas práticas são muito difíceis e não podem ser aprendidas em um dia e, afinal, não conduzem a tanto crescimento espiritual”,escreveu Swāmi Vivekānanda, que muito fez para popularizar a filosofia do yoga no Ocidente, por meio de seu livro de 1896, Rajā Yoga. Somente na Era Moderna o haṭḥa yoga foi transformado em sistema acessível completo para a saúde e o bem estar. A figura central desta transformação foi B. K. S. Iyengar, o autor da bíblia do yoga Luz sobre o Yoga (Light on Yoga, 1966), agora traduzido e publica em português, falecido no dia 20 de agosto deste ano (2014).

  1. K. S. Iyengar mantinha seu instituto, R. I. M. I. Y., em Pune, Estado de Maharastra, a Índia, uma cidade cerca de 160 km ao sul de Mumbai, onde alunos vindos de todos os lugares do mundo iam estudar com seu reverenciado mestre, guru.

Em 1934, quando Iyengar contava dezesseis anos, ele foi enviado para morar com sua irmã e seu cunhado, Krishnamacharya, em Mysore. Ele chegou em uma época de grande desenvolvimento do yoga moderno. Krishnamacharya, um brilhante acadêmico que sacrificou sua respeitabilidade para trilhar o caminho do haṭḥa yoga, esteve na dianteira desse movimento. A convite do progressista maharāja de Mysore, um patrono das artes indianas e ávido esportista, Krishnamacharya dirigiu a shala (escola) do palácio, onde lecionava a cultura física do yoga aos meninos da realeza.

O sistema criado lá por Krishnamacharya desenhou o haṭḥa yoga, assim como a ginástica e a luta tradicional indianas. No livro do acadêmico Mark Singleton, Yoga Body: The Origins of Modern Posture Practice, ele conclui que o método de Krishnamacharya era uma síntese de vários métodos de treinamento físico anteriores ao seu tempo, que teriam caído bem em qualquer definição fora do yoga.

Iyengar conta que Krishnamacharya podia ser feroz e exigente, que tinha uma personalidade amendrontadora e cuja severidade das ações era difícil de esquecer. Logo após a chegada de Iyengar em sua casa, o melhor aluno de Krishnamacharya fugiu, às vésperas da conferência da Y. M. C. A, no palácio, onde estava incluída uma apresentação de posturas do yoga. Precisando de alguém para fazer a demonstração, Krishnamacharya recrutou seu jovem parente, ordenando que aprendesse uma série de posturas difíceis. Embora fraco e rígido, Iyengar fez o melhor que podia, lesionando-se severamente, mas impressionando a audiência. Depois disso, ele frequentemente fazia as demonstrações para seu cunhado.

Krishnamacharya por fim enviou Iyengar para ensinar em escolas e ginásios em Pune. Iyengar trabalhou duro como instrutor; Ele sabia, por experiência própria, os perigos de submeter alguém a posturas prematuramente, e dedicou-se a desenvolver um tipo de yoga cujo desenvolvimento fosse mais lento, mais preciso anatomicamente e preciso, utilizando acessórios como blocos e mantas para auxiliar os estudantes a encontrar o alinhamento correto. Ao mesmo tempo desafiador e terapêutico, o sistema de yoga de Iyengar tornou-se enormemente popular no Ocidente, em parte graças ao apoio do violinista Yehudi Menuhin e soma cerca de 1.500 estúdios de Iyengar yoga, espalhados em mais de 70 países,

Menuhin, que desenvolveu interesse pelo yoga depois de encontrar um livro sobre o tema na sala de espera de um osteopata, encontrou-se com Iyengar quando fazia um tour na índia, em 1952. O violinista sofria de toda sorte de dores musculares e esqueléticas, que não lhe permitiam dormir e relaxar e que teriam sepultado sua carreira de violinista. Os ensinamentos de Iyengar tiveram um profundo efeito sobre ele: em 1953, na revista Life, em uma história chamada O Yoga de Yehudi, ele disse que o yoga o conduziu a um ponto de ruptura em sua arte, e foi ainda mais importante para ele do que sua prática de violino.

Nenhum outro professor de yoga foi tão influente quanto Iyengar. Seu livro Light on Yoga, com prefácio de Menuhin, foi traduzido em 18 idiomas, conta cerca de 60 edições, permanece sem paralelos como um guia para a prática de āsanas. Como redigido em um tributo a ele no Yoga Journal, quando os “professores se referem à maneira correta de executar uma postura, geralmente estão se referindo o alinhamento ensinado e demonstrada com perícia pelo Sr. Iyengar em seu livro”. No Light on Yoga, Iyengar descreve o yoga como “uma ciência prática atemporal desenvolvida ao longo de milhares de anos, que lida com o bem estar físico, moral, mental e espiritual do homem como um todo”, e diz que o Yoga Sūtras de Patañjali é o “primeiro livro a sistematizar a prática”.

Entretanto, de fato, foi ele, Iyengar, quem descobriu como mostrar às pessoas por todo o mundo a maneira mais segura de equilibrar-se sobre a cabeça e possibilitou que o yoga fosse acessível para toda e qualquer pessoa, independentemente de suas habilidades e condições físicas. B. K. S. Iyengar tem o crédito de ter trazido para o Ocidente uma tradição e prática de três mil anos. Ele é responsável por promover um sistema notável pelo uso de acessórios e de instruções passo-a-passo detalhadas para conquistar um āsana, que atualmente é a mais disseminada forma de praticar yoga no mundo;

Iyengar conquistou seguidores dos quatro cantos do mundo entre dançarinos, estrelas de cinema e do esporte, músicos, escritores, políticos, e até mesmo, em 1958, a Rainha Mãe da Bélgica, à época contando 85 anos, a quem ele ensinou a postura do equilíbrio sobre a cabeça (śīrṣāsana).

Iyengar, originariamente, voltou-se para o yoga a fim de encontrar uma solução para seus problemas de saúde, posto ter sido um menino doente, atacado por diversas doenças tropicais e, a partir daí, cultivou o desejo de possibilitar que as pessoas comuns se beneficiassem do sistema também. Ele está entre os pioneiros na promoção da aplicação terapêutica do yoga como método natural de prevenção e cura de doenças graves, ajudando a ampliar o acesso à disciplina da mente e do corpo.

Ele desenvolveu seu próprio estilo, aperfeiçoado por meio de sua própria prática, antes de ensiná-lo a seus alunos. Também introduziu a ideia do ensino de yoga a grupos e a mulheres, mesmo durante a gestação. Embora tenha dado ênfase ao alinhamento preciso do corpo, ele trabalhou na adaptação dos āsanas, de forma que pudessem ser praticado por pessoas com mobilidade limitada. Ele foi pioneiro na introdução de acessórios como cordas, cintos, blocos de madeira e bolsters com o fito de possibilitar aos idosos e aos que não estão em boa forma física a execução das posturas clássicas corretamente e com segurança.

A fim de manter a integridade de seu método, Iyengar estabeleceu um rigoroso processo de certificação de professores, que enfatiza a prevenção de lesões. Ele escreveu: “A arte de ensinar compreende saber a hora de parar.”

Iyengar, aos 95 anos, com seus cabelos brancos, olhar intenso e sorridente encimado por selvagens sobrancelhas, transmitia incomparável vitalidade, como se tivesse descoberto um método de yoga capaz de enganar a morte. Mesmo nesta idade ele afirmava que não havia um único āsana, de śīrṣāsana a hanumanāsana, que não pudesse executar. “Se você tem a mente certa, seu corpo pode fazer qualquer coisa”, ele dizia.