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O QUE É IYENGAR YOGA

Gabriella Giubilaro

 

O que é? O Iyengar Yoga leva o nome de B.K.S. Iyengar, um mestre do yoga contemporâneo.

A importância do alinhamento: o Iyengar Yoga é especialmente famoso pela importância atribuída à correção do alinhamento. O alinhamento dos ossos e articulações conduz ao equilíbrio melhor com menor esforço muscular. Desta maneira, obtemos maior estabilidade nos asanas com menor esforço. O alinhamento correto melhora a circulação, cria espaço interno (literalmente, nas articulações) e proporciona um fluxo de energia equilibrado por todo o corpo, acarretando em saúde e bem-estar. A atenção aos alinhamentos em yoga é muito mais que fazer uma lista dos pontos a serem lembrados enquanto executamos os asanas. Refere-se ao desenvolvimento da consciência corporal que se reflete em todos os aspectos da vida.

A consciência corporal: quando fazem ajustes, os alunos iniciantes perturbam outras partes do corpo. Por exemplo, os iniciantes frequentemente giram a cabeça quando querem girar a coluna. Praticantes maduros desenvolvem uma consciência corporal que se expressa de dois modos. Primeiro, por meio da compreensão de como tudo está conectado, são capazes de fazer qualquer ajuste sem perturbar o resto do corpo. Segundo, são capazes de manter uma correção feita pelo professor na memória corporal. A consciência corporal fornece os instrumentos para abrir as áreas do corpo que estão bloqueadas. Esta é uma das razões pelas quais o Iyengar Yoga tem sido tão bem sucedido na promoção do bem estar.

Conexões: por meio de seus ensinamentos, B.K.S. Iyengar mostrou-nos como entender as conexões entre as diferentes partes do corpo. Ele ensinou-nos que a coluna vertebral beneficia-se do trabalho das pernas e dos braços. Este princípio é tão fundamental que se aplica a todos os asanas. Por exemplo, tanto nas posturas em pé quanto nas extensões para trás, é a ação dos pés e das pernas que estende a coluna. Em vez de trabalhar diretamente em uma parte do corpo — o que muitas vezes não é eficaz — em vez disso precisamos entender as conexões. Iyengar ensinou-nos que os asanas do yoga não são apenas um conjunto de posturas desenvolvidas há muito tempo, mas envolve a exploração, mas ao contrário envolvem a exploração, a descoberta e o domínio das conexões obtidas por meio da prática.

Ação X Movimento: quando praticamos Iyengar Yoga, descobrimos a diferença entre ação e movimento. No começo, como iniciantes, nossa atenção é capaz de observar apenas o corpo periféricoe os movimentos externos. A isto chamamos de movimento físico. Com o refinamento, começamos vagorosamente a comprender uma maneira diferente de praticar. Aprendemos a usar todos os sentidos da percepção para sentir não apenas o que está acontecendo no corpo periférico, mas também o que está ocorrendo dentro do nosso corpo. Pois é aí que chegamos ao ponto descrito por Iyengar como “quando a mente atua como uma ponte entre os movimentos musculares e os órgãos de percepção e introduz o intelecto, conectando-o com todas as partes do corpo”. Aprendemos a distinguir e a analisar o que sentimos dentro dos nossos corpos. Isto é o que é chamado de ação. Existe ação quando criamos um alongamento interno, um movimento que é imperceptível para um observador externo, mas que trás inteligência e sabedoria às nossas posturas.

Personalizando os asanas: Iyengar adquiriu muita sabedoria a patir do yoga, por meio da prática contínua e da capacidade de penetração cada vez mais profunda para dentro de si mesmo. Com base na compreensão do seu próprio corpo, ele ensinou aos seus alunos como penetrar em todos os níveis do corpo: o físico, o orgânico e o mental. Ele ensina a importância de personalizar a prática dos asanas por meio da escolha cuidadosa de quais asanas praticarmos, em qual sequência organizá-los e como praticá-los (ativa ou passivamente, com ou sem suportes). Esta personalização da prática de asanas permite-nos ir de encontro às necessidades pessoais, de acordo com as mudanças fisiológicas, psicológicas e do estado de saúde.

Suportes: outro aspecto do Iyengar Yoga é o uso de diferentes suportes, incluindo blocos, mantas, cintos e bancos. Se uma pessoa se beneficiaria de um asana — nos níveis físico, orgânico ou mental — mas não pode desempenhá-lo por causa da falta de capacidade ou de força, pode usar-se um suporte para apoio. Com suportes, até a pessoa inválida ou muito doente pode beneficiar-se dos asanas. Os suportes possibilitam que todos os alunos permaneçam nas posturas por mais tempo. A permanência em uma postura por um tempo muito, primeiramente afeta o corpo físico. Permanecendo nas posturas por mais tempo, os benefícios penetram mais profundamente nos níveis orgânico e mental.

A sabedoria do yoga: nós, que tivemos a sorte de estudar regularmente com B.K.S. Iyengar, experimentamos diretamente, não somente suas palavras, mas também sua energia, as quais nos guiaram na penetração mais profunda em nossos asanas e em nossos próprios corpos. Cada um de nós aprendeu a dar o nosso melhor, a experimentar nossos próprios limites e a tocar no desconhecido, algo dificíl de se fazer sozinho. Aprendemos, não somente a guiar os alunos com explicações verbais e demonstrações, mas também a ensiná-los e corrigi-los com o toque, assim, capacitando-os para experimentar algo que levariam anos para atingir sem a nossa ajuda.

Um professor vivo: Yogacharya B.K.S. Iyengar conta atualmente 80 anos[1] de idade, mas não perdeu nada de sua energia quando está praticando ou ensinando. O refinamento de sua inteligência continua a expandir-se. Em suas palavras: “Hoje eu não estico o meu corpo, o que eu costumava fazer nos meus trinta, cinquenta anos, todos estes anos, agora estendo minha inteligência no meu corpo, para expandí-la, de forma que é a inteligência que estende o meu corpo.”

Tradução: Sílvia Stocche e Marcia Neves Pinto

Texto originalmente publicado em:

http://www.bluespruceyoga.com/iyengargiubilaro.html

[1] Esta era a idade de Guruji na ocasião do artigo, 2000. Ele faleceu em 20/08/2014, com a idade de 94 anos.

Terapêutica em Iyengar Yoga: “Seu trabalho é colocar o aluno no caminho do yoga”

Terapêutica em Iyengar Yoga:

“Seu trabalho é colocar o aluno no caminho do yoga

 

Stephanie Quirk

Tradução: Marcia Neves Pinto 

A entrevista a seguir com Stephanie Quirk foi publicada pela primeira vez em
Yoga Samachar, springsummer-2011, revista da The American Iyengar Yoga Association. (https://www.stephaniequirk.com.au/therapeutics-iyengar-yoga-job-put-student-path-yoga/)

É tentador listar aqui todas as coisas maravilhosas que o yoga terapêutico pode fazer — o que pode curar, acalmar e aliviar — e eu sei que há muito interesse nisso. Isso mostra o interesse das pessoas no assunto. O yoga terapêutico é muitas vezes visto e compreendido apenas no estrato das doenças físicas. Porém, pensei em conduzir esta conversa de uma forma que, espero, seja mais interessante, apontando que em Iyengar Yoga a terapia, na verdade, nos beneficia a todos — professores, alunos ou pacientes.

Geralmente vê-se uma aula terapêutica como uma aula destinada às pessoas que não podem ou não devem frequentar uma aula geral. Estas pessoas vêm com várias doenças, complicações e incapacidades, sendo-lhes recomendada a classe medicinal, em lugar da aula regular. Ela não é vista como “yoga verdadeiro”, mas algo que é oferecido para as limitações dessas pessoas. Na verdade, as pessoas que frequentam as aulas terapêuticas[1] estão sendo apresentadas ao yoga da maneira que todos nós deveríamos segui-lo.

Desde o começo a prática delas de yoga cumpre os objetivos do yoga (veja os Yoga Sutras I.2, 3, 4 e 5 e I l.l). Para elas é imperativo que assim seja, a fim de reduzir as aflições e fazer cessar a distorção dos movimentos na consciência. (por consciência quero dizer a manifestação completa da consciência: os órgãos da ação, os sentidos da percepção, os elementos e os tanmatras, a mente, a inteligência, o senso do Eu e os movimentos internos da sensibilidade.) Em uma aula de yoga terapêutica, tudo isso é desenvolvido por meio da implementação da contenção, da retificação, da extensão, do equilíbrio, do alinhamento do corpo e da mente e da integração. Todas essas qualidades estão presentes no sadhana (prática) apresentado ao paciente. Como todos os praticantes, tendo dado os primeiros passos no caminho do yoga, ele ou ela ainda tem uma longuíssima jornada a empreender, mas tem a sorte de estar posicionado no caminho.

A outra pessoa envolvida no processo é o professor de yoga. Percebi a imensa importância que a terapêutica desempenha em Iyengar Yoga durante a formação de professores. Eu estou treinando-os não para serem instrutores, embora instruí-los de forma hábil e eficaz seja um ótimo trabalho, mas treinando-os para orientar os estudantes e os pacientes no caminho, a fim de despertá-los para seu conteúdo interior: a respiração, os órgãos, a energia e a mente. Para despertá-los através da correta abordagem crítica dos yogasanas e do pranayama. Tudo tem que funcionar ou o resultado terá impacto imediato sobre o paciente já enfraquecido e perturbado.

Por meio de upaya-kausalam — os meios hábeis da técnica libertadora — na situação terapêutica, juntos, o aluno e o professor, aproximam-se cada vez mais do verdadeiro objeto do yoga, cada um aprendendo e beneficiando-se do outro. Por causa da necessidade do paciente avançar habilmente para corrigir os fatores internos perturbadores e da habilidade de orientação do professor, ambos se aproximam da prática verdadeira.

Esta experiência compartilhada é um belo resultado da abordagem terapêutica em Iyengar Yoga. Em qualquer aula terapêutica as pessoas precisam trabalhar juntas. É um trabalho duro; muitas vezes são necessários assistentes. É uma atividade comunitária. Encorajo os professores a praticarem juntos novamente o que cobri em meus seminários, a fim de aprenderem. Muitas vezes os professores reportam-me o quanto apreciaram isto; eles descobrem que cada um deles se recorda de um aspecto diferente do trabalho. Revisá-lo juntos dá-lhes uma visão mais ampla sobre o que o “paciente/aluno” está experimentando. Isto é reunir-se para aprender e está fora do modelo usual de ensino de yoga.

A maioria dos professores aprende com outro professor e, em seguida, começa a ensinar. Muito frequentemente, no ocidente, o novo professor deixa seu professor para embarcar em uma carreira docente, afastando-se da riqueza do aprendizado. Aqui, estudando terapêutica, os professores retornam mais uma vez para aprender. Eles aprendem um com o outro e compartilham informações, observações e experiências. Este compartilhamento ocorre porque o estudo terapêutico não é conduzido com o professor isolado em uma plataforma. Todos têm que trabalhar juntos. Não há algo como “em isolamento” no ensino e na aprendizagem terapêutica, mesmo em níveis muito elevados. Em vez disso, é um processo de dar aos outros, incansavelmente, como podemos ver com nosso próprio Guru.

Stephanie Quirk: O yoga terapêutico vem muitas vezes disfarçado de terapia alternativa para a saúde, segundo o modelo médico. É aclamado pelas moléstias e doenças que pode curar. O professor pode cair no erro de se esconder atrás do papel do clínico. Essa maneira de ver tende a fazer com que os professores se limitem a buscar listas de suportes e sequências. Isso equivale a querer uma receita para curar uma doença. Mas para o professor, isso não funciona. Professores não são médicos; eles são praticantes de yoga. Muitas vezes tenho que lembrá-los de olhar para seus próprios anos de estudo como praticantes de yoga.

A terapêutica não é uma especialidade separada. Não há yoga aqui e “terapêutica” ali. Terapêutica não é outro método clínico — essas ideias são, na verdade, inimigas próximas para o professor. Muitas tentam fazer com que a terapêutica caiba nesses modelos, mas na verdade, é a abordagem do yoga que mais se adapta ao yoga. Eu tento fazer com que os professores olhem para sua própria prática de yoga, e tomem a direção desde dentro do yoga.

Para começar, os professores precisam parar e pensar no significado do sutra II.16 — heyam duhkham anagatham, qual a sua mensagem e o que está explicitando para eles! Esse sutra implica em uma reviravolta radical de todas as ações e comportamentos de uma pessoa, tanto dentro quanto fora do momento da prática. Se o sofrimento pode ou deve ser evitado, o que tem que mudar na maneira como as coisas são agora? Para ser sincera, assumir verdadeiramente apenas este único e aparentemente simples yoga sutra requer coragem, fé, determinação e uma abordagem aberta e positiva, pronta para a adaptação, aprendizado e absorção. Tudo tem que mudar. E isso é muito verdadeiro para o paciente que está sofrendo.

Então temos abhyasa e vairagya. Nenhum método de saúde alternativo tem isso. O seu trabalho como professor de yoga não é ser o médico, a enfermeira ou o psiquiatra de alguém. Seu trabalho é colocar o paciente/aluno no caminho do yoga. Eles devem tornar-se seguidores e praticantes, se pretendem erradicar todos os vestígios do que, finalmente, os perturba (dosha). Assumir abhyasa (prática) e vairagya (desprendimento) está no cerne de tudo o que alguém tem que fazer. Eles são os pedestais irredutíveis sobre os quais se baseia o yoga e o que realmente separa o caminho do yoga de outras terapias alternativas de saúde.

Outro aspecto que define a terapêutica como Iyengar Yoga é “a técnica e a precisão, ou a técnica aplicada com precisão”. Juntamente com a técnica apropriada para o estado do paciente, temos que encontrar no asana a precisão específica para esse estado. Encontrar essa precisão também significa descobrir o que está faltando no asana. Devemos rastrear o que é óbvio, visível e factível, bem como o que está oculto e adormecido. Nós devemos observar onde há vivacidade e onde há embotamento. Temos que conhecer o asana e, observando o paciente apresentar o asana, descobrir: É o asana integrativo ou desintegrativo? Como isso afeta, em geral, todas as camadas (kosas) e como atinge o distúrbio, especificamente? São conceitos abstratos, mas podem ser abordados pelas técnicas que aprendemos, com precisão e sutileza cada vez mais refinados.

Quando conseguirmos isso, estaremos fazendo o que Guruji tentou apresentar-nos como “Iyengar Yoga“, simultaneamente multidimensional e abrangente. Isso é holístico, não apenas musculoesquelético e fisiológico, mas yógico. Através dessa experiência, o aluno encontra sua própria experiência e sua conexão com a sensação de bem-estar.

Richard Jones: Como o treinamento rigoroso do Iyengar Yoga prepara os professores para a terapia?

SQ: No Iyengar Yoga temos um aparentemente longo processo de estudo. Muitos outros sistemas concedem certificados após um curso de final de semana, mas nós temos anos e anos de estudo, absorção e integração à nossa frente antes que nossa observação e ensino tornem-se maduros. Nenhuma acumulação de informações, nenhuma proficiência no entrelaçamento de um membro aqui ou ali em posturas avançadas pode trazer esta maturidade. Há que ser um estudante para sempre. O próprio Guruji frequentemente diz[2] que ele é apenas um aprendiz (embora não um principiante). Recentemente ele fez uma declaração muito pertinente sobre este tópico: “Eu rastreio as falhas; então, para mim, o que estou fazendo não é importante, é o que eu não estou fazendo que é importante.”

Sua declaração simples e única resume toda a abordagem necessária para progredir na própria arte, bem como na arte de ajudar os outros. Essa abordagem de rastreamento de falhas no Iyengar Yoga, de trazer o asana e o pranayama para um estado de excelência refinado, é um processo muito longo. Cultivamos a nossa capacidade de refinar ainda mais por meio da atenção e da correção cuidadosas.

Rastreando as falhas na prática, o professor mergulha mais e mais profundamente nas técnicas dos asanas e dos pranayamas. Empregamos essas técnicas na nossa própria prática, em prol do conhecimento que elas trazem. Gradualmente esses meios são usados com maior precisão, na medida em que provocam percepções sobre aquilo que cobre ou oculta a verdade ou a visão do si-mesmo. Começa logo no início, embora de forma rudimentar. Desta forma, alunos iniciantes e professores podem estar sendo treinados para a terapêutica por um grande número de anos.

Um bordão comum frequentemente aplicado por quem está fora do Iyengar Yoga é “alinhamento”. No entanto, esta palavra pode tornar-se superficial; pode começar a significar apenas aferição e posicionamento externos. Talvez uma diretriz melhor seja “a-linha-mente”: o professor deve observar se todos os revestimentos ou camadas do si-mesmo estão alinhados. A mente está equitativamente posicionada durante a postura? Há a sensação de que a pele está tocando uniformemente todas as partes, ou há algumas partes não tocadas e não penetradas? Este é o lugar no qual o alinhamento progride em direção ao a-linha-mente. O professor pode avaliar com maior precisão: está exatamente na linha, por igual? É dual ou não dual? Há algum local ou lugar desconhecido? Aqui a investigação do professor precisa mover-se da desproporcionalidade em direção à proporcionalidade, da disparidade para a paridade, a fim de anular o duelo entre as oscilações do complexo mente-corpo-respiração.

As técnicas em que somos treinados são aquelas de aferição ou de posicionamento, contato ou toque, rastreamento, expansão, alongamento e extensão. Elas são as técnicas de estabilização, fundação (ou “descendência”) e ascendência. Elas estão proporcionando maior leveza ou mais peso. Equilíbrio e posicionamento. Arejamento, ventilação e umidificação. Mobilizando e imobilizando, e a lista prossegue. Muito frequentemente o professor conhece o quadro externo correto de um asana, mas a menos que estude o conteúdo do quadro, o que está acontecendo é território desconhecido, virtualmente. É por isso que muitas perguntas sobre o que fazer em situações terapêuticas ainda são dirigidas aos Iyengars.

Notei que o sucesso de uma abordagem terapêutica parece depender da própria visão do paciente. Não importando o estado em que se encontrem, em algum momento eles devem buscar e obter a compreensão do processo do yoga e apropriar-se dele (carpe diem). Este é um passo vital. O aluno deve ter uma visão do caminho maior que está seguindo. O professor precisa ajudar o aluno a desenvolver a aspiração de seguir este caminho, para além da sua situação de sofrimento imediata.

Assim, o professor também deve cultivar a sua própria inspiração, a sua conexão com os objetivos do yoga. Caso contrário, ele deixará de avançar. Quando determinamos nosso verdadeiro “eu” para além do ego que se baseia nas posses e nas necessidades, obteremos a clareza e a lucidez da mente e do coração para atuar verdadeiramente como se heyam duhkham anagatham seja, de fato, possível?

Em sua abordagem multidimensional, porém abrangente, as qualidades verdadeiramente notáveis do Iyengar Yoga tornam-se visíveis.

RJ: Você pode compartilhar algumas das suas experiências nas aulas terapêuticas no R.I.M.Y.I.?

SQ: Na verdade não posso reproduzir para os professores o que aprendi ao longo de todos esses anos subindo as escadas [do R.I.M.Y.I.]. Não posso dar-lhes a experiência obtida prestando assistência nas aulas terapêuticas. Uma coisa que os professores não entendem é que tudo o que necessitam para ensinar em aulas terapêuticas é, na verdade, o que eles vieram estudando desde o início. Eles têm praticado os asanas durante anos. Frequentemente eles parecem estar à espera que lhes seja mostrado algo que não sabem. Para mim é muito divertido ensinar-lhes os asanas que praticaram repetidamente, mas nos quais não mergulharam realmente, para encontrar suas características e propriedades interiores. Vejo-me com dificuldade para descrever a vibrante força emocional e a força moral empregadas pelos Iyengars nas aulas terapêuticas. As pessoas acham perturbadora, às vezes. Os Iyengars são lendários por sua ferocidade e paixão. Eu passei a apreciar, cada vez mais, sua força e a presença emocional que eles trazem para a classe. Certamente seus anos de experiência e de conhecimento não podem ser igualados, mas é a sua conexão pessoal que lhe dá algo mais profundo do que qualquer experiência clínica. Seu envolvimento transpõe o fosso existente entre eles e o aluno que estão tentando ajudar.

RJ: Qual conselho você daria aos professores sobre terapêutica?

SQ: Vocês têm um grande recurso em suas mãos: Vocês precisam estudar e aprender uns com os outros. Os professores de uma devem reunir-se para estudar e praticar o que lhes é apresentado em seminários para que, primeiramente, entendam em seus próprios corpos. Geetaji disse, em Portland, que todos teríamos que passar pelo menos um ano digerindo o que ela ensinou lá. Não tenha medo, não se preocupe com o fato de outros métodos não dedicarem o tempo que alocamos para estudar. Infelizmente este é um sinal de como o mundo vê o yoga — como um passatempo, uma atividade secundária. Ele não lhe dá credibilidade. É o mesmo com relação a muitas disciplinas que têm sua origem nas tradições espirituais orientais. O mundo materialista de hoje não dará credibilidade a algo que é tão criativo como a abordagem do yoga para a saúde.

RJ: E quanto a precauções e orientações?

SQ: Sim, eu menciono os cuidados — não tanto sobre o que fazer e o que não fazer com relação à determinada doença, nem as contraindicações como em um manual de farmacologia — mas mais no sentido de proteger o professor de cometer um erro. Um erro prejudicial é uma tragédia para o professor. É estilhaçador. Quando estiver trabalhando diretamente sobre o asana do paciente, o professor precisa pensar sobre se o paciente é capaz ou não de absorver ou de tolerar a postura. Não faz sentido levá-los para uma postura que é demasiadamente forte, que está demasiadamente fora do seu alcance. O inverso também é verdadeiro. É um equívoco comum considerar que a terapia se trata de “descansar” ou de praticar posturas restaurativas. Podem existir fadiga ou problemas circulatórios ou desequilíbrios mentais que têm de ser liberados no início de uma sessão de āsana; porém, permitir que os sistemas circulatório, nervoso e mental do paciente afundem na apatia pode criar mais problemas.

Para ajudar os professores a evitar lesionar os estudantes, dou-lhes algumas orientações simples. A primeira é perguntar — repetindo frequentemente — “Como se sente agora?” Os professores devem observar a cor do paciente e sua respiração; devem observar especialmente o pescoço e o abdômen para verificar sinais de desequilíbrio e tensão. Devem tocar e verificar se há algum tremor interno. Muito frequentemente, o professor pode ser hábil no ajuste e na colocação de suportes, mas pode deixar de observar a transformação obtida a partir deles. Ao ajustar, “ouça” através de suas mãos para verificar a resistência ou a aceitação do movimento.

Hoje há tanta informação disponível; compare isso com anos atrás, onde a informação era escassa. Agora vocês têm que abordar o aprendizado de uma forma diferente. Preparem-se para criar o seu próprio aprendizado, cometer erros e aprender novamente. A aprendizagem tem que incluir o insucesso, porque ele é instrutivo. Vocês têm que “fazer”, brincar, investigar. Para ingressar no espaço real e encontrar o seu manejo, a sua visão. É por isso que tenho tantas sessões nas quais os professores trabalham juntos e um no outro, para dar-lhes uma oportunidade de encontrar seus olhos, para encontrar a sua mão no assunto. Eles não se limitam a me observar trabalhando e fazer anotações. Fazem por si mesmos. Há muitos livros bons disponíveis (de novo, toda essa informação!), mas os professores ainda perguntam o que fazer. Eles têm que “obter seu manejo”. Eles têm que desenvolver habilidade, compaixão e sabedoria (kausalam, karuna, e prajna). As técnicas e a informação estarão lá, mas mais importante é existir a imersão com todo coração na matéria. Só então essas qualidades surgirão.

Stephanie Quirk tem observado e trabalhado com os Iyengars no R.I.M.Y.I. desde 1994, auxiliando em todas as aulas, incluindo as terapêuticas e as para mulheres. Nos últimos anos, ela vem conduzindo seminários de treinamento abrangentes sobre terapêutica em seis partes, compartilhando seu conhecimento e experiência com professores de Iyengar Yoga no mundo todo.

[1] N.T.: no original em inglês está escrito medical classes. Entretanto, atualmente em R.IM.I.Y. tais aulas são denominadas remedial classes, cuja tradução pode ser “aulas terapêuticas” – 2. adjective [usually ADJECTIVE noun]. Remedial activities are intended to improve a person’s health when they are ill. [formal] He is already walking normally and doing remedial exercises. Synonyms: therapeutic, healing, curing, curative, fonte: https://www.collinsdictionary.com/dictionary/english/remedial). No Brasil consagramos o uso da designação aulas terapêuticas, razão pela qual, a fim de evitar mal entendidos, usamos a designação conhecida no Brasil e atualmente empregada em Puna.

(http://bksiyengar.com/modules/Institut/RIMYI/RIMYI%20TT_2012.pdf

[2] A entrevista foi publicada pela primeira vez em 2011, ocasião em que Guruji ainda estava vivo.

IYENGAR POR PATRICIA WALDEN: UM GÊNIO EM AÇÃO

IYENGAR POR PATRICIA WALDEN
UM GÊNIO EM AÇÃO

Patricia Walden

Tradução: Marcia Neves Pinto

Nada poderia ter me preparado para BKS Iyengar. Com seu amor pelo yoga, ele era o príncipe da paixão e o rei do carisma. Em minha primeira aula, ele explodiu: “Se você mantiver as axilas abertas, não ficará deprimido!” E pela sensação de abertura e elevação no meu peito, eu sabia exatamente o que ele queria dizer.

Havia fogo na sua presença, um fogo que acendeu a luz do yoga em mim e transformou a minha vida. Ele era direto e claro, com uma ferocidade de espírito que denotava que poderia enfrentar qualquer desafio.

Isso há mais de 25 anos. Desde então, passei a ver BKS Iyengar como um classicista moderno, mergulhado na tradição, versado nos Vedas e fluente em Patañjali. Aos 80 anos, ele continua a praticar intensamente: 35 minutos de apoio sobre a cabeça, 108 repetições de retroflexões (ciclos de tadasana, descendo para trás em urdhva dhanurasana e depois subindo para tadasana), 10 minutos de viparita dandasana e longas, introvertidas, extensões para frente. Como ele diz, “quando era jovem, brinquei. Agora, fiquei.”

Nos primeiros anos, seu ensino refletiu sua prática. Fazíamos muitas, muitas posturas, inclusive avançadas, em cada aula. Ele derramava instruções sobre nós com uma intensidade torrencial. Seu foco estava na ação – ações que fundiam o corpo e a mente: “Faça com que a mente sinta o estiramento. Dspertem a mente do dedo mindinho do pé.” Nós saíamos da aula exaustos e alegres, encharcados até os ossos pela torrente de seus ensinamentos, pensando se conseguiríamos chegar aos nossos quartos de hotel.

Como o passar dos anos, ele adicionou novas dimensões ao seu ensino. Fazemos um menor número de posturas por aula, mas ele nos conduz mais profundamente em cada uma. Demonstrando as nuances da prática, ele nos encoraja e persuade a verificar e a compreender. Ele exorta-nos a explorar, a descobrir onde estamos entorpecidos ou trabalhando em excesso, a nos ajustarmos, a fim de que a consciência possa agraciar o corpo uniformemente por toda parte. E, acima de tudo, ele realça que o propósito da prática está em aproximar-se da alma por meio do equilíbrio entre a ação e a reflexão. Nas suas próprias palavras: “Temos posar e repousar”.

Com a mente de uma cientista e a alma de um poeta, ele gastou milhares de horas usando seu corpo como um laboratório, experimentando, explorando, observando e criando. Lembro-me de uma vez tê-lo observado praticando antes de ministrar uma aula. Eu estava surpresa em ver o corpo dele torcido em um alinhamento atipicamente pobre; mas depois, na aula, percebi que ele tinha estado trabalhando sobre os problemas de seus alunos em seu próprio corpo. Uma vez ele me disse que aprendeu o próprio método explorando não apenas o que estava certo, mas também o que estava errado; e que ele esperava que seus alunos pudessem aprender com a sua experiência.

Nas aulas terapêuticas, ele é uma força da natureza criativa e terapêutica, um gênio em ação. Ele atravessa o instituto durante duas horas inteiras, observando e reagindo na velocidade da luz: um curador moderno apaixonado por seu trabalho.

É extraordinário e desafiador ter Guruji como professor: aprender com ele, ano após ano e experimentar sua genialidade, generosidade e orientação. Sua paixão pela excelência e o interesse incessante no yoga são contagiosos; e essas qualidades, juntamente com sua coragem e força de vontade, inspiram a minha vida, a minha prática e o meu ensino.

Quando eu comecei o yoga, a prática era difícil para mim. Tomou-me um tremendo esforço e disciplina. Em contraste, era paradoxal ver Guruji praticar: ele parecia livre e despido de esforço, mesmo enquanto praticava as posturas mais desafiadoras. Inspirada por seu exemplo e instrução, permaneci esforçando-me. O que se seguiu surpreendeu-me: através da disciplina, me apaixonei pela prática. Uma liberdade interior floresceu.

Trago essa lição para os meus alunos: se ficarmos no caminho que escolhemos e desenvolvermos a disciplina para ultrapassar as dificuldades, nossos esforços nos transformarão.

Escrever esta homenagem a BKS Iyengar desafiou-me a examinar o meu coração e a minha vida, a fim de identificar o que valorizo mais nele e nos seus ensinamentos. E aqui está:

O maior presente que um professor/guru pode dar a um estudante é o interesse genuíno: tal interesse genuíno pode transformar e moldar incomensuravelmente a vida do aluno. [grifo do original]

Guruji é o meu elo de ligação com a tradição. Ele me mostra o que é possível com a prática e representa para mim um exemplo vivo do sutra I.14 (sa tu dirghakala nairantarya satkara asevitah drdhabhumih): “ Obtém-se sucesso no yoga quando ele é praticado com devoção, de modo initerrupto, por um longo período de tempo.”

Recordo-me de uma das primeiras lições que aprendi com dele: “Quando confrontado com a dificuldade, tome uma atitude, não importa quão pequena.” Qualquer coisa é possível se você agir (e refletir) com amor e devoção.

Com seu estilo desafiador, Guruji ensinou-me a enfrentar as dificuldades com os olhos bem abertos, a refinar-me por meio da paixão e da disciplina, e de sentir-me segura em seu método. Como resultado, sinto alegria em minha prática e liberdade no meu amor pelo ensino.

(este artigo foi publicado em 28/08/2007 em https://www.yogajournal.com/lifestyle/genius-in-action)

Abhijata e um longo sirsasana:

Abhijata e um longo sirsasana:

“Coloquei meu relógio na minha frente, peguei os cintos e amarrei minhas pernas unidas, de forma que a permanência se tornasse mais fácil, esse era o meu plano.” Iyengar estava por perto, praticando com os olhos fechados, “assim, era mais fácil para mim. Após cerca de dez minutos, minhas mãos começaram a suar. Eu tinha comichões no rosto, nas costas, em lugares que eu nem sabia que existiam, todas as áreas começaram a coçar. Mas eu disse: hoje eu tenho que permanecer, aconteça o que acontecer. Doze minutos, treze minutos depois, estava suando, tremendo. De alguma forma o relógio chegou aos dezessete minutos e, então, no décimo sétimo minuto digo a mim mesma: deixe-me completar outros três minutos. Então, no momento em que o relógio marcava o vigésimo minuto, desci e me coloquei em Adho Mukha Virasana.

Naquele momento, Guruji apareceu e disse:

— Venha cá, menina preguiçosa, o que você está fazendo?

E eu respondi com muito orgulho:

— Fiz uma conquista! — disse. — Hoje não fui preguiçosa. Fiquei em sirsasana por 20 minutos.

Ele disse:

— Certo. O que você fez?

— Guruji, fiquei em sirsasana por 20 minutos — respondi.

E ele repetiu:

— O que você fez?

Eu absolutamente não entendi a pergunta. Eu disse:

— Permaneci em sirsasana, equilibrei-me sobre minha cabeça, durante vinte minutos.

E ele retrucou:

— No momento em que você entrou [na postura] sobre sua cabeça, abusou da posição de sirsasana, o que você fez durante os vinte minutos?

Eu estava perplexa! Não fiz nada durante os vinte minutos; estava esperando pelo vigésimo minuto.

E ele pontuou:

— Que perda de tempo…”

(publicado em 28/08/2018, em inglês, por Iyengar Yogamandala South Delhi)

Tradução: Marcia Neves Pinto

Yoga: estudo da consciência

Yoga: estudo da consciência

Artigo de Alan Goode[1][2]

Tradução: Marcia Neves Pinto

Considere por um momento a questão do exercício. O que é exercício e porque o Hatha Yoga não é classificado como exercício? E por que os professores de yoga parecem ofendidos com a mera associação?

O exercício está descrito no dicionário como o uso e o esforço dos músculos e articulações para alcançar a saúde. No Hatha Yoga, entretanto, os exercícios com o corpo geralmente são vistos como um subproduto e não como um fim em si mesmo — quase uma distração para a tarefa.

O período do yoga clássico (período de Patañjali) considera a ênfase nas posturas corporais como um precursor insignificante para o trabalho sério, sendo a definição: “Yoga é a cessação das flutuações da consciência.” (Yoga Sutras I.2). O yoga é visto como o estudo do funcionamento da mente. A maneira como a mente interage com os sentidos e a respiração e estabelece as impressões emocionais. É o estudo da consciência. O modo como somos e como a nossa mente funciona — na verdade, a maneira como interagimos conosco mesmos e com os outros.

Como é possível dizer que o uso do corpo nos asanas contém as sementes para tal estudo?

Um espectador vê na prática dos asanas um gracioso conjunto de movimentos que contém coordenação, equilíbrio, flexibilidade e resistência. Mas o mesmo pode ser dito da dança. E quanto ao praticante — que é o yogi envolvido nela. Cada asana é uma tentativa de colocar o corpo em uma atitude física, mental e espiritual.

Como BKS Iyengar diz: Asana significa postura, que é a arte de posicionar o corpo com uma atitude física, mental e espiritual. A postura tem dois aspectos. A saber: posar e reposicionar. Posar significa agir. Posar é assumir uma posição fixa dos membros e do corpo, conforme representado pelo asana específico que está sendo executado. Reposicionar significa refletir sobre a pose. A postura é repensada e reajustada para que os vários membros e partes do corpo estejam posicionados em seus lugares em uma ordem apropriada, sentindo-se descansados e tranquilos; e a mente experimente a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras e das células.

Refletindo sobre qual parte do corpo está trabalhando, qual parte da mente está trabalhando e qual parte do corpo não foi penetrada pela mente, trazemos a mente para a mesma extensão do corpo. Do mesmo modo que o corpo é contraído e estendido, a inteligência é contraída ou estendida para alcançar cada parte do corpo. A isto é o que se conhece como reposicionamento; isto é sensibilidade. Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, estamos em estado de contemplação ou meditação, o que é conhecido como asana. As dualidades entre o corpo e a mente, a mente e a alma, são vencidas ou destruídas.”[3]

Cada vez que nos estendemos (ou agimos) há uma reação. A respiração se tensiona ou a atenção oscila ou a mente reage: yogis têm notado isso e reagem — não tentando parar essa interação, mas — observando-a para estudar a consciência, em vez de simplesmente controlá-la. Quanto mais concentrado e presente se está, menos presente está a reação excessiva. Os atos realizados conscientemente são mais puros, ou mais limpos, se você prefere, porque estão menos obscurecidos ou confusos. Como resultado, eles deixam menos impressões (samskaras) na mente. É igual em todas as atividades na vida. Quanto mais internamente ocupados tornamo-nos, mais perdemos a visão de nós mesmos, atraídos por nossos sentidos em direção à confusão e à perda de centro.

A prática diária opera em dois níveis — ter uma prática diária é ter um lugar reservado no dia para estar em silêncio interiorizado, uma pausa para respirar em um mundo de aparente loucura. Isso por si só não deve ser subestimado. Através dos sentidos tornamo-nos excessivamente estimulados, tensos e impulsionados. Como Patañjali afirma, “a causa da dor é a associação do observador com aquilo que é visto e a solução reside em dissociá-los.” (Yoga Sutras II.17). A prática é a arte de quebrar os hábitos criados em uma vida agitada — um momento para ouvir em um dia de ação.

Em segundo lugar, e mais importante para o estudante sério, a prática é uma tentativa de observar as próprias reações ao estímulo. Através da prática regular a forma exterior se torna familiar (isto não é nada fácil, porque a forma exterior em si mesma é complexa e exigente) e então yogi adentra no laboratório do complexo corpo/mente, onde as ferramentas se tornam a repetição, a paciência e a observação. O ato de retornar diariamente para a postura do cachorro, por exemplo, prova conclusivamente a natureza mutável da nossa experiência — o modo como a sensação pode mudar e ser influenciada pelo cansaço, interesse, humor, pensamento e respiração. A investigação séria e a longo prazo conduz o yogi ao inextricável fato da influência dos sentidos e do pensamento sobre nossa percepção do mundo.

A repetição destas três ferramentas é básica para o ato de aprender — a aprendizagem aprimora e refina os sentidos pelo ato de repetir vezes sem conta. A repetição neutraliza o pensamento confirmando-o por meio de uma sensação. Isto desafia a tendência da mente, que quer especular em vez de experimentar. A prática diária de Sarvangasana é bastante diferente das suas ideias sobre ela.

A paciência é uma ferramenta diferente. Isso implica em esperar, mas um termo melhor seria escutar. É a arte de esperar com os sentidos abertos para descobrir ou revelar o significado oculto ou que não é aparente para o observador ocasional. O significado oculto é um princípio implícito em yoga, o pensamento segundo o qual muito do que o yoga tem para ensinar não está aparente para a análise intelectual e está contido nos exemplos que são revelados pela prática. Somente esperando e ouvindo somos capazes de esvaziar-nos suficientemente para aprender. A paciência também contém em si as sementes do zelo ardente (desejo de saber ou tapas). Aqueles apressados dificilmente comprometem-se à perquirição, na medida em que nunca irão desenvolver totalmente o desejo de entender.

Todas as práticas de yoga contêm a premissa básica da observação ou da observação desapaixonada. Esta é a arte de observar ou de testemunhar. Observamos as nossas ações e monitoramos quaisquer reações internas, para vê-las, segundo o entendimento de que limpar as lentes através das quais recebemos o mundo (os sentidos) nos ajudará a ver a natureza de nossos pensamentos em oposição aos próprios pensamentos e às complicações do mundo. Estar presente como um observador do ato, em vez de sendo partícipe ou alguém interessado nele. Isso nem sempre implica em que controlamos nossas reações. Podemos suprimi-la. É o ato de vê-las, em vez de manipulá-las, que é importante. Quantas vezes você esteve calmo por dentro, mas agitado por fora, por exemplo?

Mas não vejamos apenas a influência dos sentidos, a maneira como eles nublam nossa percepção e nos tornam incapazes de ver claramente. Como veremos mais do que o fato de sermos vulneráveis aos sentidos e à mente? O próprio Iyengar esteve intimamente envolvido nesta perquirição — a prática deve tornar-se uma busca para encontrar as raízes dessa influência. Ele é muitas vezes visto levando um asana ao extremo — “um yogi físico” — interessado em alargar seus limites e demonstrar suas proezas; mas este não é o caso e é, de fato, uma grave distorção de seu método. Assim como alguns sentam-se observando a respiração, mantendo a atenção sem oscilar, seu método requer que a mente se mantenha concentrada e observando as invasões das sensações — meditação em ação. Veja Salamba Sirsasana, por exemplo. Um minuto ou dois é um esforço; cinco minutos ou mais, um ato de resistência; mas qualquer coisa acima de dez minutos se torna um ato de atenção. Iyengar não estabeleceu chegar, mas observar. Seu método leva o aluno desde o ato de executar até o ato de ser.

O método Iyengar é um teste destes princípios no rigor do asana. Não é um enfoque sobre o corpo ou um aperfeiçoamento de alinhamento, mas uma inquirição em curso sobre a natureza da existência, a arte da manutenção de equanimidade e o esvaziamento da mente de ideias, muitas vezes descrito como as oscilações do pensamento. O que começa como um ato de disciplina e atenção deve tornar-se um estudo da consciência; a observação de quem somos nós e do modo como as oscilações do pensamento nos prendem. Para iniciar esta etapa o professor deve ficar para trás, porquanto nenhuma força externa pode interagir nesse nível. BKS Iyengar diz “enquanto executa a postura, você deve se tornar total e completamente absorvido, com devoção, dedicação e atenção. Deve haver honestidade na abordagem e honestidade na apresentação. Ao realizar uma postura, você tem que descobrir se seu corpo aceitou o desafio da mente, ou se a mente aceitou o desafio do corpo. Você está trabalhando a partir do corpo para obter uma sensação concreta da postura ou fazendo a postura porque você leu nos livros que vai obter tal e qual efeito? Você está pego pela rede do que leu, buscando pela experiência posta no papel por outra pessoa, ou está trabalhando com a mente fresca para saber que tipo de nova luz é lançada por sua própria experiência sobre a postura enquanto a realiza?

Além dessa total honestidade, você precisa ter uma tremenda fé, coragem, determinação, consciência e absorção. Com essas qualidades em sua mente, em seu corpo e em seu coração, você fará bem a pose. O asana deve consagrar com esplendor e beleza todo o ser daquele que o executa. Esta é uma prática espiritual em forma física.”[4]

O asana conduz o sadhaka para a límpida luz da própria imperfeição — sua humanidade, se preferir. No que se refere a tentar o asana, invariavelmente revela o caráter do praticante e as suas próprias falhas.

Mathew Fox comenta que qualquer prática baseada em perfeição é inerentemente imperfeita e está fadada a falhar, pois é muito rígida.[5] O yoga é tudo, menos baseado na perfeição, estando intimamente envolvido com a imperfeição do indivíduo. Quando pratico, observo minhas falhas, fraquezas, hábitos e traços de caráter. Praticar é viver de muitas maneiras no pleno conhecimento de quem realmente somos, em vez de quem gostaríamos de ser. Nós nos estudamos. Nós estudamos nossa consciência.

Novamente diz Iyengar: “Estude cada aspecto de um asana. Pode ser triangular, redondo, em forma de arco-íris ou oval, em linha reta ou diagonal. Observe todos estes pontos, estude e haja dentro desse campo, de modo que o corpo possa representar o asana em sua pura glória. Como o diamante bem lapidado, a joia do corpo com suas articulações, ossos e assim por diante, deve ser lapidada para caber na fina moldura do asana. O corpo inteiro está envolvido neste processo com os sentidos, a mente, a inteligência, a consciência e o si-mesmo. Não se deve ajustar o asana para se encaixar na estrutura do corpo, mas moldar o corpo do modo requerido pelo o asana. Então o asana terá relevância física, fisiológica, psicológica, intelectual e espiritual.

Patañjali diz que quando um asana é executado corretamente, as dualidades entre o corpo e a mente, a mente e a alma, desaparecem. Isso é conhecido como reposicionamento, reflexão na ação. Quando os asanas são realizados desta forma, as células do corpo, que têm suas próprias memórias e inteligência, se mantém saudáveis. Quando a saúde das células é mantida através da prática precisa dos asanas, o corpo fisiológico se torna saudável e a mente é trazida para perto da alma. Este é o efeito dos asanas. Eles devem ser executados de forma a conduzir a mente da sua fixação no corpo em direção à luz da alma, assim o praticante pode residir na morada da alma.”[6]

 

Artigo publicado em Iyengar Yoga Resources, October 2001/Versão online: www.iyengar-yoga.com

 

[1] Gostaríamos de agradecer a Alan Goode por enviar seu artigo para a Iyengar Yoga Resources. Alan é um professor de Iyengar Yoga,  vive e ensina em Blue Mountain, Austrália. Ele pode ser contatado pelo email: goode@pnc.com.au. Copyright © 2001 Alan Goode. Nenhuma parte desta publicação pode ser de qualquer forma reproduzida sem o consentimento prévio e expresso dos editores.

[2] Foto do arquivo de Roadtobliss.

[3] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, pág. 55.

[4] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, p. 55.

[5] Matthew Fox, Original Blessings

[6] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, p. 55.

Yoga e o complexo corpo-mente – sobre os efeitos psicofísicos da prática do yoga

YOGA E O COMPLEXO CORPO-MENTE

Artigo de Eyal Shifroni

Tradução: Marcia Neves Pinto

(Artigo originalmente publicado em 18 de janeiro de 2016, no blog do autor: http://eyalshifroni.com/yoga-and-the-mind-body-complex-on-the-psychophysical-effects-of-yoga-practice/, que antecede o lançamento de seu novo livro: http://eyalshifroni.com/the-psychophysical-lab-book-preview/)

 

Yoga e menstruação

Geeta S. Iyengar responde a perguntas sobre

Yoga e menstruação

Tradução Geisa França – Revisão: Marcia Neves Pinto

 

Quais asanas e pranayamas podem ser praticados de maneira segura durante a menstruação?

A partir do primeiro dia até o final da menstruação, deve ater-se à prática dos asanas que ajudam as mulheres a manterem-se saudáveis e que não criam obstrução ao fluxo menstrual. Estes asanas têm de ser selecionados para que não a deixem sem energia ou causem qualquer distúrbio hormonal.

As extensões de pé para a frente (uttistha paschima pratana sthiti), como Uttanasana, Adho Mukha Svanasana, Prasarita Padottanasana e Parsvottanasana — de preferência com a cabeça apoiada — são de auxílio durante a menstruação. Com a finalidade de suavizar o abdômen, deve-se, primeiro, fazer com as costas côncavas, antes de ir para a postura final. Mas aquelas que sofrem de dores no corpo, dores lombares , queda no nível  de energia ou quedas súbitas do nível de açúcar no sangue, devem evitar estas posturas.

Ardha Chandrasana e Utthita Hasta Padangusthasana II ajudam a regular o sangramento excessivo, dores nas costas e cólicas abdominais. Aquelas que sofrem com dores ciáticas ou de deslocamentos discais, devem incluir estes dois asanas em sua lista.

Os asanas supinados (supta sthiti) — como Supta Virasana, Supta Baddhakonasana, Supta Svastikasana, Matseyasana e Supta Pagangushtasana II, (feitos com suporte de cintos, almofadões e mantas), relaxam os músculos e nervos que estão em constante estresse, tensão e irritação. Estes asanas ajudam a relaxar e a acalmar o latejamento constante.

Aquelas que sofrem de falta de ar, peso no peito, retenção de líquidos, sangramento intenso, cólicas abdominais, irritação e impulsão mentais, acham estes asanas muito eficazes para reduzir e eliminar estes problemas.

As extensões simples para frente (pashima pratana shitti) — como Adho Mukha Virasana, Adho Mukha Svastikasana, Janu Sirsasana, Triang Mukhaikapada em Paschimottatanasana, Ardha Baddha Padma em Paschimottanasana, Marichyasana, Parsva Upavisthakonasana e Adho Mukha Upavisthakonasana — executadas de modo restaurativo, regulam o excesso de sangramento, aliviam o abdômen e fazem com que as palpitantes células do cérebro repousem. Estes asanas auxiliam àquelas que sofrem de dores de cabeça, dores nas costas, fluxo menstrual intenso, cólicas abdominais e fadiga.

Os asanas sentados (upavistha sthitti) — como Svastikasana, Virasana, Padmasana, Baddhakonasana, Upavisthakonasana, Gomukasana, Mulabandhasana etc. — ajudam a remover a tensão e o estresse. É também o momento em que se pode  lidar com os joelhos, isquiotibiais, virilhas, tornozelos e dedos dos pés, a fim de lubrificá-los, estendê-los e flexioná-loss, de modo que as articulações relaxem e sejam eliminados o inchaço e a dor.

Durante a menstruação, é o momento para as mulheres que têm dores causadas por artrite, trabalharem os  ombros, cotovelos e punhos praticando Parsva Baddha Hastasana, Paschima Namaskarasana  e Gomukasana (posição dos braços), e a série de Cordas 1 para os ombros, etc. Então, aquelas que sofrem de dores de artrite e reumatismo, e edema nas articulações  , podem dedicar tempo suficiente para trabalhar estas áreas, lenta e gradualmente soltando e aliviando estas articulações sem agressividade.

Aquelas que não puderem fazer Virasana e Padmasana podem colocar energia (sem agressividade) para trabalhar sobre os joelhos, na medida em que haverá tempo suficiente, pois não estará apressada para terminar a rotina prática diária.

A fim de ter um bom repouso orgânico e nervoso, deve ser feito Viparita Dandasana e Setubandha Sarvangasana (purva pratana sthitti), que ajudam a energizar e estimular o cérebro, o peito, os pulmões e o coração e a manter o equilíbrio hormonal no sistema glandular.

Podem ser feitos Savasana, Ujjayi e Viloma pranayama em Savasana. Se a menstruação é normal, sem provocar nenhuma dor, dores de cabeça, irritação, ansiedade, sufocamento ou depressão, podem ser feitos os pranayamas  Ujjayi e Viloma em uma postura sentada.

Dentre todos estes asanas, apenas para manter a saúde durante a menstruação, de rotina deve-se praticar os asanas supinados, extensões para frente, Viparita Dandasana, Setubandha Sarvangasana e pranayama em Savasana, como um curto programa, embora  leve normalmente 1:h30 a 2:00h.

Quais asanas e pranayamas devem ser evitados?

Devem ser evitadas posturas invertidas (viparita sthitti) como Adho Mukha Vriksasana; de equilíbrio sobre os braços como Bakasana (bhujatalan sthitti; extensões para trás (purva pratana sthitti) como Urdhva Dhanurasana e Kapotasana; que causem obstruções no corpo (grantha sthitti) como Yoganidrasana, Eka Pada Sirsasana, e contração abdominal (udara akunchana sthitti) como Navasana e Jathara Parivatasana.

Devem evitar-se os pranayamas em asanas sentados. Se forem feitos mesmo assim, não o devem ser por mais de quinze minutos. Evite Antara e Bahaya Kumbhakas, Uddiyana e Mula Bandhas, Bhastrika, Kapalabhati e Mahamudra.

Por que não devemos praticar invertidas (viparita sthitti) durante a menstruação?

Se fizermos inversões durante a menstruação, o fluxo sanguíneo se interromperá. Aquelas que tentarem fazer, por entusiasmo ou indiferença, perceberão que o fluxo cessa abruptamente. Isso certamente não é bom para a saúde, pois pode acarretar no aparecimento de miomas, cistos, endometriose e câncer, danificando o sistema.

De acordo com a ayurveda, o que deve ser excretado deve ser expelido, e não retido ou mantido. Você não pode reter urina, fezes, catarro, muco, etc, dentro de si, porquanto são substâncias que devem ser descartadas. Chamam-se mala —- os resíduos que precisam ser excretados. Se eles são mantidos dentro de si, convidam todas as doenças.

Durante a menstruação, é preciso diminuir o esforço físico, incluindo caminhar, dançar ou fazer trabalho doméstico pesado. O corpo exige descanso e relaxamento, e é preciso fornecer isso.

As invertidas têm suas próprias características. Essa categoria de asanas interrompe o fluxo menstrual e, quando realizada durante a gravidez, mantém o feto seguro e saudável. Para aquelas que sofrem com abortos espontâneos frequentes, estes asanas são benéficos. É permitido iniciar a prática de invertidas após doze dias de fluxo, se tiver período prolongado por mais de quinze dias. As invertidas estancarão o sangramento. Obviamente, é preciso conhecer a causa por trás de tais fluxos prolongados e intensos, e tratar da doença com outros asanas durante o período não menstrual. No entanto, que o fluxo pode ser regulado, é um fato. Se uma mulher fica menstruada durante a ovulação, as invertidas são administradas como remédio.

Após o ciclo menstrual inicie a prática de asanas com as inversões, na medida em que são altamente curativas, no que diz respeito ao sistema reprodutivo. Elas rapidamente provocam o equilíbrio hormonal.

Neste contexto, até onde os efeitos das invertidas são conhecidos, não se deve duvidar de omití-las durante a menstruação. Ainda assim, se devido à obstinação e rigidez, alguém se forçar a fazê-las, pode ter que pagar muito caro mais tarde, se não, imediatamente. O fluxo deve parar completamente antes que se possa retomar a prática de invertidas. A questão não é de três ou quatro dias. Assim que o fluxo parar, comece com a prática de invertidas. Não vá de repente para as posturas em pé, flexões para trás, equilíbrio, etc. Lembre-se de que você acabou de dar à luz a um bebê não nascido, já que a menstruação é chamada de funeral do bebê não nascido.

Geeta S. Iyengar

Pune, fevereiro de 2003.