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Yoga: estudo da consciência

Yoga: estudo da consciência

Artigo de Alan Goode[1][2]

Tradução: Marcia Neves Pinto

Considere por um momento a questão do exercício. O que é exercício e porque o Hatha Yoga não é classificado como exercício? E por que os professores de yoga parecem ofendidos com a mera associação?

O exercício está descrito no dicionário como o uso e o esforço dos músculos e articulações para alcançar a saúde. No Hatha Yoga, entretanto, os exercícios com o corpo geralmente são vistos como um subproduto e não como um fim em si mesmo — quase uma distração para a tarefa.

O período do yoga clássico (período de Patañjali) considera a ênfase nas posturas corporais como um precursor insignificante para o trabalho sério, sendo a definição: “Yoga é a cessação das flutuações da consciência.” (Yoga Sutras I.2). O yoga é visto como o estudo do funcionamento da mente. A maneira como a mente interage com os sentidos e a respiração e estabelece as impressões emocionais. É o estudo da consciência. O modo como somos e como a nossa mente funciona — na verdade, a maneira como interagimos conosco mesmos e com os outros.

Como é possível dizer que o uso do corpo nos asanas contém as sementes para tal estudo?

Um espectador vê na prática dos asanas um gracioso conjunto de movimentos que contém coordenação, equilíbrio, flexibilidade e resistência. Mas o mesmo pode ser dito da dança. E quanto ao praticante — que é o yogi envolvido nela. Cada asana é uma tentativa de colocar o corpo em uma atitude física, mental e espiritual.

Como BKS Iyengar diz: Asana significa postura, que é a arte de posicionar o corpo com uma atitude física, mental e espiritual. A postura tem dois aspectos. A saber: posar e reposicionar. Posar significa agir. Posar é assumir uma posição fixa dos membros e do corpo, conforme representado pelo asana específico que está sendo executado. Reposicionar significa refletir sobre a pose. A postura é repensada e reajustada para que os vários membros e partes do corpo estejam posicionados em seus lugares em uma ordem apropriada, sentindo-se descansados e tranquilos; e a mente experimente a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras e das células.

Refletindo sobre qual parte do corpo está trabalhando, qual parte da mente está trabalhando e qual parte do corpo não foi penetrada pela mente, trazemos a mente para a mesma extensão do corpo. Do mesmo modo que o corpo é contraído e estendido, a inteligência é contraída ou estendida para alcançar cada parte do corpo. A isto é o que se conhece como reposicionamento; isto é sensibilidade. Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, estamos em estado de contemplação ou meditação, o que é conhecido como asana. As dualidades entre o corpo e a mente, a mente e a alma, são vencidas ou destruídas.”[3]

Cada vez que nos estendemos (ou agimos) há uma reação. A respiração se tensiona ou a atenção oscila ou a mente reage: yogis têm notado isso e reagem — não tentando parar essa interação, mas — observando-a para estudar a consciência, em vez de simplesmente controlá-la. Quanto mais concentrado e presente se está, menos presente está a reação excessiva. Os atos realizados conscientemente são mais puros, ou mais limpos, se você prefere, porque estão menos obscurecidos ou confusos. Como resultado, eles deixam menos impressões (samskaras) na mente. É igual em todas as atividades na vida. Quanto mais internamente ocupados tornamo-nos, mais perdemos a visão de nós mesmos, atraídos por nossos sentidos em direção à confusão e à perda de centro.

A prática diária opera em dois níveis — ter uma prática diária é ter um lugar reservado no dia para estar em silêncio interiorizado, uma pausa para respirar em um mundo de aparente loucura. Isso por si só não deve ser subestimado. Através dos sentidos tornamo-nos excessivamente estimulados, tensos e impulsionados. Como Patañjali afirma, “a causa da dor é a associação do observador com aquilo que é visto e a solução reside em dissociá-los.” (Yoga Sutras II.17). A prática é a arte de quebrar os hábitos criados em uma vida agitada — um momento para ouvir em um dia de ação.

Em segundo lugar, e mais importante para o estudante sério, a prática é uma tentativa de observar as próprias reações ao estímulo. Através da prática regular a forma exterior se torna familiar (isto não é nada fácil, porque a forma exterior em si mesma é complexa e exigente) e então yogi adentra no laboratório do complexo corpo/mente, onde as ferramentas se tornam a repetição, a paciência e a observação. O ato de retornar diariamente para a postura do cachorro, por exemplo, prova conclusivamente a natureza mutável da nossa experiência — o modo como a sensação pode mudar e ser influenciada pelo cansaço, interesse, humor, pensamento e respiração. A investigação séria e a longo prazo conduz o yogi ao inextricável fato da influência dos sentidos e do pensamento sobre nossa percepção do mundo.

A repetição destas três ferramentas é básica para o ato de aprender — a aprendizagem aprimora e refina os sentidos pelo ato de repetir vezes sem conta. A repetição neutraliza o pensamento confirmando-o por meio de uma sensação. Isto desafia a tendência da mente, que quer especular em vez de experimentar. A prática diária de Sarvangasana é bastante diferente das suas ideias sobre ela.

A paciência é uma ferramenta diferente. Isso implica em esperar, mas um termo melhor seria escutar. É a arte de esperar com os sentidos abertos para descobrir ou revelar o significado oculto ou que não é aparente para o observador ocasional. O significado oculto é um princípio implícito em yoga, o pensamento segundo o qual muito do que o yoga tem para ensinar não está aparente para a análise intelectual e está contido nos exemplos que são revelados pela prática. Somente esperando e ouvindo somos capazes de esvaziar-nos suficientemente para aprender. A paciência também contém em si as sementes do zelo ardente (desejo de saber ou tapas). Aqueles apressados dificilmente comprometem-se à perquirição, na medida em que nunca irão desenvolver totalmente o desejo de entender.

Todas as práticas de yoga contêm a premissa básica da observação ou da observação desapaixonada. Esta é a arte de observar ou de testemunhar. Observamos as nossas ações e monitoramos quaisquer reações internas, para vê-las, segundo o entendimento de que limpar as lentes através das quais recebemos o mundo (os sentidos) nos ajudará a ver a natureza de nossos pensamentos em oposição aos próprios pensamentos e às complicações do mundo. Estar presente como um observador do ato, em vez de sendo partícipe ou alguém interessado nele. Isso nem sempre implica em que controlamos nossas reações. Podemos suprimi-la. É o ato de vê-las, em vez de manipulá-las, que é importante. Quantas vezes você esteve calmo por dentro, mas agitado por fora, por exemplo?

Mas não vejamos apenas a influência dos sentidos, a maneira como eles nublam nossa percepção e nos tornam incapazes de ver claramente. Como veremos mais do que o fato de sermos vulneráveis aos sentidos e à mente? O próprio Iyengar esteve intimamente envolvido nesta perquirição — a prática deve tornar-se uma busca para encontrar as raízes dessa influência. Ele é muitas vezes visto levando um asana ao extremo — “um yogi físico” — interessado em alargar seus limites e demonstrar suas proezas; mas este não é o caso e é, de fato, uma grave distorção de seu método. Assim como alguns sentam-se observando a respiração, mantendo a atenção sem oscilar, seu método requer que a mente se mantenha concentrada e observando as invasões das sensações — meditação em ação. Veja Salamba Sirsasana, por exemplo. Um minuto ou dois é um esforço; cinco minutos ou mais, um ato de resistência; mas qualquer coisa acima de dez minutos se torna um ato de atenção. Iyengar não estabeleceu chegar, mas observar. Seu método leva o aluno desde o ato de executar até o ato de ser.

O método Iyengar é um teste destes princípios no rigor do asana. Não é um enfoque sobre o corpo ou um aperfeiçoamento de alinhamento, mas uma inquirição em curso sobre a natureza da existência, a arte da manutenção de equanimidade e o esvaziamento da mente de ideias, muitas vezes descrito como as oscilações do pensamento. O que começa como um ato de disciplina e atenção deve tornar-se um estudo da consciência; a observação de quem somos nós e do modo como as oscilações do pensamento nos prendem. Para iniciar esta etapa o professor deve ficar para trás, porquanto nenhuma força externa pode interagir nesse nível. BKS Iyengar diz “enquanto executa a postura, você deve se tornar total e completamente absorvido, com devoção, dedicação e atenção. Deve haver honestidade na abordagem e honestidade na apresentação. Ao realizar uma postura, você tem que descobrir se seu corpo aceitou o desafio da mente, ou se a mente aceitou o desafio do corpo. Você está trabalhando a partir do corpo para obter uma sensação concreta da postura ou fazendo a postura porque você leu nos livros que vai obter tal e qual efeito? Você está pego pela rede do que leu, buscando pela experiência posta no papel por outra pessoa, ou está trabalhando com a mente fresca para saber que tipo de nova luz é lançada por sua própria experiência sobre a postura enquanto a realiza?

Além dessa total honestidade, você precisa ter uma tremenda fé, coragem, determinação, consciência e absorção. Com essas qualidades em sua mente, em seu corpo e em seu coração, você fará bem a pose. O asana deve consagrar com esplendor e beleza todo o ser daquele que o executa. Esta é uma prática espiritual em forma física.”[4]

O asana conduz o sadhaka para a límpida luz da própria imperfeição — sua humanidade, se preferir. No que se refere a tentar o asana, invariavelmente revela o caráter do praticante e as suas próprias falhas.

Mathew Fox comenta que qualquer prática baseada em perfeição é inerentemente imperfeita e está fadada a falhar, pois é muito rígida.[5] O yoga é tudo, menos baseado na perfeição, estando intimamente envolvido com a imperfeição do indivíduo. Quando pratico, observo minhas falhas, fraquezas, hábitos e traços de caráter. Praticar é viver de muitas maneiras no pleno conhecimento de quem realmente somos, em vez de quem gostaríamos de ser. Nós nos estudamos. Nós estudamos nossa consciência.

Novamente diz Iyengar: “Estude cada aspecto de um asana. Pode ser triangular, redondo, em forma de arco-íris ou oval, em linha reta ou diagonal. Observe todos estes pontos, estude e haja dentro desse campo, de modo que o corpo possa representar o asana em sua pura glória. Como o diamante bem lapidado, a joia do corpo com suas articulações, ossos e assim por diante, deve ser lapidada para caber na fina moldura do asana. O corpo inteiro está envolvido neste processo com os sentidos, a mente, a inteligência, a consciência e o si-mesmo. Não se deve ajustar o asana para se encaixar na estrutura do corpo, mas moldar o corpo do modo requerido pelo o asana. Então o asana terá relevância física, fisiológica, psicológica, intelectual e espiritual.

Patañjali diz que quando um asana é executado corretamente, as dualidades entre o corpo e a mente, a mente e a alma, desaparecem. Isso é conhecido como reposicionamento, reflexão na ação. Quando os asanas são realizados desta forma, as células do corpo, que têm suas próprias memórias e inteligência, se mantém saudáveis. Quando a saúde das células é mantida através da prática precisa dos asanas, o corpo fisiológico se torna saudável e a mente é trazida para perto da alma. Este é o efeito dos asanas. Eles devem ser executados de forma a conduzir a mente da sua fixação no corpo em direção à luz da alma, assim o praticante pode residir na morada da alma.”[6]

 

Artigo publicado em Iyengar Yoga Resources, October 2001/Versão online: www.iyengar-yoga.com

 

[1] Gostaríamos de agradecer a Alan Goode por enviar seu artigo para a Iyengar Yoga Resources. Alan é um professor de Iyengar Yoga,  vive e ensina em Blue Mountain, Austrália. Ele pode ser contatado pelo email: goode@pnc.com.au. Copyright © 2001 Alan Goode. Nenhuma parte desta publicação pode ser de qualquer forma reproduzida sem o consentimento prévio e expresso dos editores.

[2] Foto do arquivo de Roadtobliss.

[3] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, pág. 55.

[4] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, p. 55.

[5] Matthew Fox, Original Blessings

[6] BKS Iyengar, A Árvore do Yoga, p. 55.

Yoga e o complexo corpo-mente – sobre os efeitos psicofísicos da prática do yoga

YOGA E O COMPLEXO CORPO-MENTE

Artigo de Eyal Shifroni

Tradução: Marcia Neves Pinto

(Artigo originalmente publicado em 18 de janeiro de 2016, no blog do autor: http://eyalshifroni.com/yoga-and-the-mind-body-complex-on-the-psychophysical-effects-of-yoga-practice/, que antecede o lançamento de seu novo livro: http://eyalshifroni.com/the-psychophysical-lab-book-preview/)

 

Yoga e menstruação

Geeta S. Iyengar responde a perguntas sobre

Yoga e menstruação

Tradução Geisa França – Revisão: Marcia Neves Pinto

 

Quais asanas e pranayamas podem ser praticados de maneira segura durante a menstruação?

A partir do primeiro dia até o final da menstruação, deve ater-se à prática dos asanas que ajudam as mulheres a manterem-se saudáveis e que não criam obstrução ao fluxo menstrual. Estes asanas têm de ser selecionados para que não a deixem sem energia ou causem qualquer distúrbio hormonal.

As extensões de pé para a frente (uttistha paschima pratana sthiti), como Uttanasana, Adho Mukha Svanasana, Prasarita Padottanasana e Parsvottanasana — de preferência com a cabeça apoiada — são de auxílio durante a menstruação. Com a finalidade de suavizar o abdômen, deve-se, primeiro, fazer com as costas côncavas, antes de ir para a postura final. Mas aquelas que sofrem de dores no corpo, dores lombares , queda no nível  de energia ou quedas súbitas do nível de açúcar no sangue, devem evitar estas posturas.

Ardha Chandrasana e Utthita Hasta Padangusthasana II ajudam a regular o sangramento excessivo, dores nas costas e cólicas abdominais. Aquelas que sofrem com dores ciáticas ou de deslocamentos discais, devem incluir estes dois asanas em sua lista.

Os asanas supinados (supta sthiti) — como Supta Virasana, Supta Baddhakonasana, Supta Svastikasana, Matseyasana e Supta Pagangushtasana II, (feitos com suporte de cintos, almofadões e mantas), relaxam os músculos e nervos que estão em constante estresse, tensão e irritação. Estes asanas ajudam a relaxar e a acalmar o latejamento constante.

Aquelas que sofrem de falta de ar, peso no peito, retenção de líquidos, sangramento intenso, cólicas abdominais, irritação e impulsão mentais, acham estes asanas muito eficazes para reduzir e eliminar estes problemas.

As extensões simples para frente (pashima pratana shitti) — como Adho Mukha Virasana, Adho Mukha Svastikasana, Janu Sirsasana, Triang Mukhaikapada em Paschimottatanasana, Ardha Baddha Padma em Paschimottanasana, Marichyasana, Parsva Upavisthakonasana e Adho Mukha Upavisthakonasana — executadas de modo restaurativo, regulam o excesso de sangramento, aliviam o abdômen e fazem com que as palpitantes células do cérebro repousem. Estes asanas auxiliam àquelas que sofrem de dores de cabeça, dores nas costas, fluxo menstrual intenso, cólicas abdominais e fadiga.

Os asanas sentados (upavistha sthitti) — como Svastikasana, Virasana, Padmasana, Baddhakonasana, Upavisthakonasana, Gomukasana, Mulabandhasana etc. — ajudam a remover a tensão e o estresse. É também o momento em que se pode  lidar com os joelhos, isquiotibiais, virilhas, tornozelos e dedos dos pés, a fim de lubrificá-los, estendê-los e flexioná-loss, de modo que as articulações relaxem e sejam eliminados o inchaço e a dor.

Durante a menstruação, é o momento para as mulheres que têm dores causadas por artrite, trabalharem os  ombros, cotovelos e punhos praticando Parsva Baddha Hastasana, Paschima Namaskarasana  e Gomukasana (posição dos braços), e a série de Cordas 1 para os ombros, etc. Então, aquelas que sofrem de dores de artrite e reumatismo, e edema nas articulações  , podem dedicar tempo suficiente para trabalhar estas áreas, lenta e gradualmente soltando e aliviando estas articulações sem agressividade.

Aquelas que não puderem fazer Virasana e Padmasana podem colocar energia (sem agressividade) para trabalhar sobre os joelhos, na medida em que haverá tempo suficiente, pois não estará apressada para terminar a rotina prática diária.

A fim de ter um bom repouso orgânico e nervoso, deve ser feito Viparita Dandasana e Setubandha Sarvangasana (purva pratana sthitti), que ajudam a energizar e estimular o cérebro, o peito, os pulmões e o coração e a manter o equilíbrio hormonal no sistema glandular.

Podem ser feitos Savasana, Ujjayi e Viloma pranayama em Savasana. Se a menstruação é normal, sem provocar nenhuma dor, dores de cabeça, irritação, ansiedade, sufocamento ou depressão, podem ser feitos os pranayamas  Ujjayi e Viloma em uma postura sentada.

Dentre todos estes asanas, apenas para manter a saúde durante a menstruação, de rotina deve-se praticar os asanas supinados, extensões para frente, Viparita Dandasana, Setubandha Sarvangasana e pranayama em Savasana, como um curto programa, embora  leve normalmente 1:h30 a 2:00h.

Quais asanas e pranayamas devem ser evitados?

Devem ser evitadas posturas invertidas (viparita sthitti) como Adho Mukha Vriksasana; de equilíbrio sobre os braços como Bakasana (bhujatalan sthitti; extensões para trás (purva pratana sthitti) como Urdhva Dhanurasana e Kapotasana; que causem obstruções no corpo (grantha sthitti) como Yoganidrasana, Eka Pada Sirsasana, e contração abdominal (udara akunchana sthitti) como Navasana e Jathara Parivatasana.

Devem evitar-se os pranayamas em asanas sentados. Se forem feitos mesmo assim, não o devem ser por mais de quinze minutos. Evite Antara e Bahaya Kumbhakas, Uddiyana e Mula Bandhas, Bhastrika, Kapalabhati e Mahamudra.

Por que não devemos praticar invertidas (viparita sthitti) durante a menstruação?

Se fizermos inversões durante a menstruação, o fluxo sanguíneo se interromperá. Aquelas que tentarem fazer, por entusiasmo ou indiferença, perceberão que o fluxo cessa abruptamente. Isso certamente não é bom para a saúde, pois pode acarretar no aparecimento de miomas, cistos, endometriose e câncer, danificando o sistema.

De acordo com a ayurveda, o que deve ser excretado deve ser expelido, e não retido ou mantido. Você não pode reter urina, fezes, catarro, muco, etc, dentro de si, porquanto são substâncias que devem ser descartadas. Chamam-se mala —- os resíduos que precisam ser excretados. Se eles são mantidos dentro de si, convidam todas as doenças.

Durante a menstruação, é preciso diminuir o esforço físico, incluindo caminhar, dançar ou fazer trabalho doméstico pesado. O corpo exige descanso e relaxamento, e é preciso fornecer isso.

As invertidas têm suas próprias características. Essa categoria de asanas interrompe o fluxo menstrual e, quando realizada durante a gravidez, mantém o feto seguro e saudável. Para aquelas que sofrem com abortos espontâneos frequentes, estes asanas são benéficos. É permitido iniciar a prática de invertidas após doze dias de fluxo, se tiver período prolongado por mais de quinze dias. As invertidas estancarão o sangramento. Obviamente, é preciso conhecer a causa por trás de tais fluxos prolongados e intensos, e tratar da doença com outros asanas durante o período não menstrual. No entanto, que o fluxo pode ser regulado, é um fato. Se uma mulher fica menstruada durante a ovulação, as invertidas são administradas como remédio.

Após o ciclo menstrual inicie a prática de asanas com as inversões, na medida em que são altamente curativas, no que diz respeito ao sistema reprodutivo. Elas rapidamente provocam o equilíbrio hormonal.

Neste contexto, até onde os efeitos das invertidas são conhecidos, não se deve duvidar de omití-las durante a menstruação. Ainda assim, se devido à obstinação e rigidez, alguém se forçar a fazê-las, pode ter que pagar muito caro mais tarde, se não, imediatamente. O fluxo deve parar completamente antes que se possa retomar a prática de invertidas. A questão não é de três ou quatro dias. Assim que o fluxo parar, comece com a prática de invertidas. Não vá de repente para as posturas em pé, flexões para trás, equilíbrio, etc. Lembre-se de que você acabou de dar à luz a um bebê não nascido, já que a menstruação é chamada de funeral do bebê não nascido.

Geeta S. Iyengar

Pune, fevereiro de 2003.

 

 

SIGNIFICADO DO PUJA E DAS PRECES A GANESHA

SIGNIFICADO DO PUJA E DAS PRECES A GANESHA

Geeta lyengar na Convenção de Sydney, 2003 – puja antecedente ao começo das aulas

Tradução Marcia Neves Pinto

Agora vou fazer o puja. Sempre que começamos um trabalho auspicioso, todos nós, devotos do yoga, devemos rogar a Deus. É nosso dever oferecer preces às deidades que nos mostram o auspicioso caminho a trilhar. Sem a benção do Supremo, nenhum trabalho deve ser feito. Sem a graça do Senhor nada frutificará. Tanto o sucesso quanto o fracasso são presentes do Senhor.

Antes das preces, gostaria de fazer uma introdução ao que estamos fazendo. Normalmente, quando temos que cultuar as divindades, nossas mentes se dirigem à religião, e a palavra “religião” nos faz dar um passo para trás. Porém, como estudantes de yoga, olhemos para isto de uma maneira mais inteligente, fazendo a inteligência penetrar de modo que a sabedoria possa surgir e guiar, descobrindo o que, exatamente, estamos fazendo. Quando descobrimos que algo está na escuridão e não pode ser visto, sabemos perfeitamente que precisamos de luz para vê-lo. Se o caminho está escuro, podemos usar uma tocha ou uma vela, mas a luz será necessária para que a escuridão se torne iluminada. Esta luz nos guia e remove a escuridão, conduzindo-nos adiante.

Puja significa cultuar. As divindades que estamos cultuando são significantes. De fato, é um ritual pequeno, mas bastante significante. Para receber graça, temos que ofertar. Mesmo que a oferenda se dê em forma de lembrança e recordação, a graça estará presente. Estamos cultuando os Senhores Ganesha, Vishnu, Hanuman, Patañjali e Guru. O Senhor é tão compassivo que mesmo que não saibamos o significado, se lembrarmos seu nome, ele abençoará. Mas quando oramos para Ele conhecendo o significado, nossa devoção aumenta e, obviamente, seu amor cresce. Deste modo, saibamos o significado das preces.

Assim, as preces ao Senhor Ganesha são as primeiras ofertadas.

Gana significa a tropa dos seres humanos. Também significa as classes de seres animados e inanimados, mas uma palavra mais acurada seria civis. Todos pertencemos a um lugar em particular. Eu posso vir de Pune, vocês estão em Sydney, outra pessoa pode ser de outro país, mas somos todos pertencentes à população civil daquele país, àquela área em especial, ao planeta Terra. Em outras palavras, isto fala de nós como civis, como seres humanos que estão se tornando ligeiramente polidos para estar em áreas urbanas. Este foi o modo como o mundo progrediu até o estado atual, conosco, agora, nos autodenominando completamente organizados. O Senhor Ganesha é chamado como o Senhor dos Civis, a cabeça da tropa existente na Terra. E “isha” é Deus: por isto ele é chamado Ganesha. Ele também é denominado Ganapati, aquele que governa todo o universo. Por isto as preces são dirigidas primeiramente a Ganesha, Ganapati. Ganapati é muladhara, o suporte básico de nossa existência.

O significado das preces que vamos entoar deve ser conhecido. Vakratunda-mahākāya. Essas duas palavras indicam como o Senhor se afigura. Assim como quando dizemos que somos seres humanos, com um par de olhos e de pernas, uma cabeça, um tronco, em síntese, é como nos denominamos como seres humanos. Aqui, Ganesha é projetado com estas duas palavras: vakratunda – com uma longa tromba curvada, e mahākāya, que significa enorme, até onde se refere ao corpo. Estas duas palavras indicam como é o Senhor Ganesha.

Aqueles que visitaram a Índia devem ter visto que o Senhor Ganesha tem a cabeça de elefante e é sempre projetado com uma enorme barriga: isto é como o Senhor Ganesha aparenta ser. O deus elefante com a cabeça de elefante indica o progresso do cérebro, até onde podemos nos referir aos seres humanos, dotados de um cérebro grande. Todos conhecemos a capacidade do cérebro humano, no que diz respeito à evolução, e isto é indicado pela cabeça de Ganesha: para mostrar a grandeza do elefante, que tem uma tremenda energia, uma tremenda força. Mahākāya – corpo enorme, indicando que ele é aquele que purifica e limpa os seres humanos, levando seus pecados e fazendo seu caminho muito claro.

Sūryakoti samaprabha. Vemos o sol no céu: conhecemos sua energia solar, sua luminosidade, etc, e aqui o Senhor Ganesha é comparado a milhões de sóis. Vemos o sol e conhecemos sua força e potência e, por causa deste deus solar, também temos equilíbrio nesta Terra, relativamente à ecologia e meio-ambiente. Considera-se o Senhor Ganesha como aquele que possui a luminosidade destes milhões de sóis: ele é tão luminoso quanto se mantivéssemos milhões de sóis. Sūryakoti samaprabha é a sua luz.

Nirvighnam kurume deva. Vighnam significa obstáculos. Nirvighnam significa remover os obstáculos. Deste modo, estamos saudando o Senhor desta maneira, como eu disse, vakratunda mahākāya sūryakoti. O deus se assemelha a isto – cabeça enorme, cérebro enorme e com toda aquela luminosidade. Tornando nosso caminho claro por meio da remoção de todos os obstáculos – nirvighnam. Que não existam obstáculos em nosso caminho. De que modo? Śubhakāryesu sarvadā. Śubha significa auspicioso. Karya se refere à ação. Sempre que estivermos executando ações auspiciosas, ou kārmas promissores, Ganapati removerá os obstáculos. Ele não removerá os obstáculos se estivermos indo no caminho errado ou executando ações incorretas. Por isso rogamos, sempre que executamos um trabalho auspicioso: para que torne nosso caminho claro. Uma vez que todos viemos aqui para praticar yoga, desde que estamos em um caminho auspicioso, estamos rogando para que este Senhor torne nosso caminho claro, removendo todos os obstáculos. Este é o motivo pelo qual nossa primeira prece se dirija à Ganapati, Senhor de todos os seres.

Tradução Marcia Neves Pinto, em dedicação a todos os companheiros de caminhada no caminho do yoga, sob a orientação de Rosana Seligmann: que todos tenhamos Ganesha iluminando nossos caminhos e conquistas na senda do yoga.

A INVOCAÇÃO A PATAÑJALI

Geeta Iyengar
Tradução de Marcia Neves Pinto
Agora vou falar-lhes sobre a invocação a Patañjali, seu significado e simbolismo. A invocação começa com aum. Aum é o primeiro som primordial, um adi nada, um som melodioso, sonoro sublime. As três sílabas A, U, M representam toda a gama de sons e de criação. Eles
representam sonhar acordado e os estados de consciência do sono. O crescente simboliza estado transcendental. Aum é pranava, que significa o exaltado, insuperável louvor ao princípio Supremo, à divindade. De acordo com Patañjali, ele simboliza Ísvara, a divindade tasya vacakah pranavah.
Sendo a fonte de todas as energias, aum é proferido como um começo auspicioso. Nenhuma atividade sagrada será completa, profunda e perfeita sem que se efetive a graça Suprema e aum é a principal invocação para buscar essa graça.
Como a música é uma das melhores mídias para expressar entimentos, amor e devoção, mídia se inicia com aum. A invocação que primeiro cantamos é:
Yogenacittasyapadena vacam
Malam sarirasyacavaidyakena
Yopakarottamprvarammuninam
Patanjalimpranjaliranato’smi
Significado: saúdo ao mais nobre dos sábios, Patañjali, que nos deu o yoga para a serenidade da mente, a gramática para a pureza do discurso e a medicina para a perfeição do corpo.
A segunda parte descreve a estátua de Patañjali:
Abahupurusakaram
Sankhacakrasidharinam
Sahasrasirasamsvetam
PranamamiPatanjalim
Significado: saúdo a Patañjali, cuja parte superior do corpo tem forma humana, cujos braços seguram uma concha, um disco e uma espada, e que é coroado por uma cobra de mil cabeças.
Oh!,encarnação de Adisesa, minhas humildes saudações a ti.
Os autores desta invocação são desconhecidos. Não era costume naquele tempo mencionar nome de alguém como autor ou escritor. No entanto, alguns livros tradicionais mencionam que abahu purusakaram foi escrito pelo rei Bhojadeva em 1.100 D.C., autor de Rajamartanda Vrttium comentário sobre os Yoga Sutras.
Cada aspecto da estátua de Patañjali carrega um significado, como os sutras são intrincadamente redigidos. Quando se contempla a estátua do sábio Patañjali, vê-se três e meia espirais abaixo do umbigo. As três espirais indicam o pranava aum, um símbolo místico que transmite o conceito de Deus como criador, organizador e destruidor. Ele o represeta como onipresente, onipotente onisciente. Aum é composto de três sílabas, A, U e M com um crescente e um ponto na parte
superior.
As três espirais completas simbolizam as sílabas e a meia espiral, o crescente. Elas também representam os três gunas de prakrti, denominados sattva, rajas e tamas, e a aspiração por alcançar o estado de trigunatita, que é um estado transcendente. O sábio Patañjali convida nossa atenção para os três tipos de aflições, denominadas adhyatmika, adhibhautika adhidaivika, que devem ser conquistadaspor meio do caminho do yoga. As três espirais indicam que ele é um mestre do yoga, gramática e ayurveda. A meia espiral indica o atingimento do estado de kaivalya.
A concha na mão esquerda significa o estado de alerta, atenção e prontidão para encarar os obstáculos que são inevitáveis na prática do yoga. Antigamente, a concha explodiu como um aviso para a prepararação para enfrentar catástrofes ou calamidades, como é feito hoje em dia com as sirenes. É também um símbolo de jñana.
O disco na mão direita significa o esforço supremo para a destruição da ignorância e é um símbolo de proteção. A espada, escondida na cintura, indica a eliminação do ego, do orgulho ou do sentimento do “Eu”, que é o principal obstáculo que cobreo ser puro. É uma espada de jñana para derrotar ajñana. Estas três armas também indicam a contenção das flutuações mentais, remoção de obstáculos e a erradicação de aflições através da prática de yoga.
O capuz acima da cabeça é uma garantia da proteção de Adisesa, rei das serpentes. Esta proteção permanece para o praticante sempre, desde que ele se renda ao Senhor, que é representado pelo atmanjali mudra, as mãos postas em namaskara. O Bhagavatam narra a história do nascimento do senhor Krsna. Uma vez que Vasudeva foi alertada pelos Deuses celestes que seu oitavo filho, Krsna, será morto por Kamsa, ele o conduz de Mathura a Gokul para protegê-lo do demônio Kamsa. O rio Yamuna se inunda porque chovia cântaros. Nesse momento oportuno, Adisesa protegeu Vasudeva e o infante Krsna segurando o capuz acima deles como um guarda-chuva e
fez surgir um caminho, bem no meio do rio, para que Vasudeva pudesse cruzá-lo facilmente.
O senhor Patañjali indica com seu capuz que é nosso protetor, desde que destruamos com a espada do yoga os malefícios ocultos dentro de nós, purificando-nos por meio do sadhana do yoga.
A cobra de mil cabeças, sahasra sirasam svetam, indica que Patañjali nos guia de mil maneiras, mostrando-nos vários métodos de prática e a abordagem para encontrar a Alma dentro de nós mesmos.
A imagem de Patañjali mostra-o como metade homem e metade-serpente. A forma humana indica a individualidade do homem, uma vez que ele é dotado de inteligência para usar seus próprios esforços para atingir a meta. A forma da serpente sugere o movimento e a continuidade de sadhana, que não pode terminar até que o objetivo seja alcançado.
Patañjali nos indica mover-nos como uma serpente, intensa, silenciosa e rapidamente no caminho do yoga e ser um tivrasamvegin, o tipo final de aluno.
Se você tiver entendido o significado, ofereça suas preces com mente suplicante, de modo que você saiba o que o sábio Patañjali quer dizer com tajjapah tadarthabhavanam, que significa recitar as orações, consciente, devotada e repetidamente.
Falemos agora de algumas das qualidades de Patañjali, de acordo com suas obras. Patañjali é uma personalidade imortal, versátil, um mestre de conhecimentos diversos com qualidades divinas. Ele é um dharmin, virtuoso e piedoso em suas ações, um tapasvin, bhaktin, sannyasin e
devoto praticante. É um artista, hábil dançarino, cientista, matemático, astrônomo, erudito, físico,
psicólogo, biólogo, neurologista, cirurgião, médico qualificado e um educador por excelência. É uma encarnação das gloriosas qualidades desraddha, virya e vairagya. É um especialista no tempo cronológico e psicológico, bem como na ciência da gravidade. Ele transcende
purusarthas, ou seja, dharma, artha, kama e moksa, bem como prakriti. Tem memória insuperável e é bem versado na natureza e suas funções. E ainda assim, permanece um ser puro, um perfeito siddhan, uma Alma realizada. Todas essas qualidades impregnam a vida de Patañjali.
Isto não é um exagero. Os siddhis mencionados no Vibhuti Pada dizem respeito a vários aspectos da existência, do cosmos, do corpo, da mente e carregam a marca de sua autêntica e profunda experiência. Deixe-me concluir esta viagem imortal, queridos sadhakas, com um anjali, uma oferta sublime. A em nós mesmos deveria crescer com a compreensão. Quando o ego começa a dissolver-se, os olhos começam a ver a grandeza dos ensinamentos inspirados por um dos
pensadores mais originais que existiu. Nós somos mortais e Patañjali é imortal.
Assim como um rio não retém sua individualidadequando se une com o mar, que por meio de nossas práticas nos unamos ao rio de luz do yoga, que nos foi transmitido por Sri Patañjali.
Hari om tatsat
*Agradecimento especial ao BKS Iyengar Yoga Institute Amsterdam. Artigo re-postado em 4/2/2018 em https://plus.google.com/+bksiyengaryogashala/posts/ZYYQNc9fdkf

SOBRE O LOGO DO CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE BKS IYENGAR

SOBRE O LOGO DO CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE BKS IYENGAR

Tradução: Marcia Neves Pinto

“Yoga é para todos”, foi a premissa que conduziu B.K.S. Iyengar no compromisso com a jornada do yoga para si mesmo, e tornou o yoga accessível a qualquer pessoa que o tenha procurado. Guruji B. K. S. Iyengar manteve-se graciosamente como um farol para todos aqueles que se encaminharam para o yoga. O ano de 2018 testemunhará o centenário de nascimento deste grande ser humano.

Maharshi Patañjali postula que ashuddhikshaya (destruição das impurezas) e vivekakhyati (senso de discriminação) são obtidos por meio de anushthana (prática devotada) de yoga.

Juntamente com estas duas, Guruji irradiava mais dois aspectos: (1) o  amor incondicional pela criação e tudo contido nela, e (2) gratidão a tudo o que lhe era ofertado. Neste sentido, Guruji teceu, sem esforço, a gratidão como efeito do yoga.

Ao longo de toda a sua vida, Guruji teceu uma dupla abordagem de sadhana – aceitar a exuberante criação como parte de si-mesmo e, simultaneamente, render-se à criação. Ele deu muito mais do que recebeu – esta era a sua natureza.

As palmas das mãos de Guruji unidas em namaskar denotam seu carinho por seus semelhantes e sua gratidão pela vida, em si mesma.

Os zeros da centena aparecem na forma do infinito, sugerindo que nos movemos da figura finita do “100” para o infinito. Os ensinamentos eternamente contemporâneos de Guruji nos incitam nesta direção.

USHA DEVI: “NINGUÉM QUER SER ESTUDANTE, TODO MUNDO SÓ QUER SER PROFESSOR.”

Usha Devi: “Ninguém quer ser estudante, todo mundo só quer ser professor.”

Tradução: MARCIA NEVES PINTO

Usha Devi é uma lenda viva em Rishikesh. Uma mulher suíça que vive na Índia há 40 anos e sofreu dois acidentes terríveis – em 1998 e 2003 – que quase destruíram suas pernas. Após 23 cirurgias, havia pouca esperança de que pudesse voltar a andar novamente, mas a orientação de seu Guru B. K. S. Iyengar, a força de vontade e trabalho árduo de Usha Devi resultaram em um milagre. Ela está andando, fazendo asanas, e ensinando em Rishikesh a centenas de estudantes que vão ao seu encontro todos os anos para aprender sobre seus  próprios corpos e avançar para um nível de compreensão e controle físico que nunca pensaram ser possível. Usha Devi tem a reputação de ser uma professora rigorosa e exigente, com um incrível conhecimento da mecânica do corpo humano. Ela exige muito de seus alunos, algumas vezes levando-os a experimentar seus limites, mas ela sabe como fazê-lo de uma forma segura. Os alunos têm grande confiança e respeito por ela, porque ela é um exemplo vivo do poder de cura de Iyengar yoga. Sabendo o valor do trabalho duro e da determinação, ela pode fazer seus alunos atingirem seu pleno potencial.

Usha Devi compartilhou conosco seus insights sobre o significado da prática de yoga e da situação atual do yoga em Rishikesh.

TopYogis: Usha Ji, você é um dos nomes mais reconhecidos e respeitados na cena do yoga em Rishikesh. Por que você não ministra cursos de formação de professores?

Usha Devi: Porque eu sou contra isso. Eu acho que é completamente errado. Nós nunca pedimos ao Guruji para nos tornarmos professores. Por que aprendi yoga com Guruji?  Porque para mim era o meu sadhana. Foi puro sadhana. E eu pratiquei sete anos com Guruji, até que ele me disse: “Agora você tem que começar a ensinar”. E eu lhe disse: “Guruji, eu não estou aprendendo yoga para me tornar professora, é apenas para o meu sadhana”. E ele disse: “Você tem o conhecimento, agora deve começar a ensinar e passá-lo adiante”.

Sabe, agora ninguém quer aprender, todo mundo só quer ser professor, ninguém quer ser um bom aluno. Então, eu nunca entraria nisso (o negócio da formação de professores). Eu acho que é uma coisa errada. E você vê o que está acontecendo aqui? Porque todos estes professores de yoga não estão recebendo alunos regularmente, estão se encaminhando somente para o treinamento de professores. E eles ganham muito dinheiro. E, em alguns lugares, você não tem nem mesmo que estar presente: você apenas paga e recebe um certificado.

TopYogis: Usha Ji, você acha que um mês é suficiente para se tornar um professor de yoga?

Usha Devi: De jeito nenhum! Veja, estamos aprendendo há anos e anos e todo ano ainda  vou para Pune para aprender. Todo ano vou por três meses, três meses e meio, para aprender mais e mais e, ainda assim, sinto que não sei nada. Eu sei tão pouco. E mesmo Ekta, minha aluna, começou a conduzir a classe para iniciantes há dois anos, e senti que está pronta para ir para Pune. E ela também está lá aprendendo, por um mês, dois meses, este ano ela esteve lá por três meses.

TopYogis: Então, é um processo sem fim.

Usha Devi: Não, de modo algum. Como poderia ser?

Eu acho que você precisa aprender continuamente em todas as profissões. O que quer que você faça. Tudo está se movendo tão rápido, então você tem que se manter em movimento, aprendendo, é a minha opinião. Em toda profissão você tem que aprender. E quem está aprendendo aqui? Veja, todas essas escolas de yoga aqui surgiram como cogumelos e eu não sei de onde tiraram sua certificação. Eles aprendem um pouco aqui, ali e ensinam, e muita besteira está acontecendo.

TopYogis: Usha Ji, qual você acha que é o propósito da prática de yoga?

Usha Devi: Para mim, é o meu sadhana

TopYogis: Então todo mundo tem um objetivo diferente?

Usha Devi: Claro. Você vai ver, quando perguntar. Lógico, muitos vão apenas querer ser professor (risos). Mas, para mim, é a minha prática. Eu estou vivendo em um ashram, também. Eu sacrifiquei minha vida pela vida do ashram. Então, para mim, talvez, o propósito seja completamente diferente (do que para outras pessoas). Mas, normalmente, eu diria que que atualmente as pessoas praticam yoga, se o fazem de modo um pouco sério, apenas para serem saudáveis, felizes e saudáveis, emocionalmente, mentalmente e fisicamente.

TopYogis: Agora, na sua experiência, as pessoas têm que seguir a abordagem de Iyengar para terem uma prática de yoga equilibrada e segura?

Usha Devi: Eu não gosto quando você diz “elas TÊM que” (sorrisos). Sabe o que me atraiu quando conheci Guruji? Você podia verdadeiramente sentir que ele tem muita experiência. Ele tinha tanta gente, e eu vi durante todos esses anos como ele podia ajudar tantas pessoas. Como ele me colocou sobre as minhas pernas novamente. E eu acho que não havia mais ninguém que pudesse fazer isso. Eu acho que ele tem realmente muita experiência e, para mim, ele era um Guru-Mestre. O que aprendemos com Guruji é a ajudar os alunos a não se machucarem.

Porque você vê, o nosso corpo não é um corpo de yoga, não mesmo. Quando você pensa como os yogis viviam no passado e em como estamos vivendo… Estamos vindo de países tão diferentes, sentados em uma cadeira, sentados em um carro, totalmente distantes do modo antigo, sob tanto estresse, por isso o nosso corpo é diferente sob muitos aspectos. E Guruji entendeu isto. Pessoalmente, às vezes me sinto como se estivesse em um hospital.

TopYogis: Você vê prevalência de lesões específicas?

Usha Devi: Principalmente, joelhos e ombros. E também, meninas não menstruando, e problemas lombares.

TopYogis: Seus estudantes lhe dizem que algumas práticas ou asanas tendem a provocar mais lesões do que outros?

Usha Devi: Não é o asana em si, mas a maneira como eles o fazem. Às vezes, os praticantes vêm aqui com algumas lesões e sua prática é restrita, do que eles não gostam. E também, por vezes, somos rigorosos com eles, eles não querem isso, e voltam para a sua prática anterior. E então, depois de algum tempo, eles vêm novamente. E o que estou fazendo agora, se alguém tem um problema – é claro, eu cuido na classe – é dizer-lhe o que fazer e o que não fazer, mas às vezes eles não escutam. E se eles realmente precisam de ajuda, peço-lhes para vir para a prática (prática pessoal diária, na parte da manhã, na sala de yoga). E então vou ajudar. Se alguém não vem para a prática e só vai aqui e ali, eu não vou ajudar. Por que eu deveria desperdiçar minha energia? E para aquelas pessoas que vêm para a prática pessoal, prestamos auxílio, eu e meus alunos que têm conhecimento de problemas particulares.

TopYogis: Iyengar yoga e sua abordagem, em particular, são famosas em Rishikesh por sua eficiência para lidar com lesões. Então, muitas pessoas nos disseram que vieram para a sua classe com lesões e, em seguida, com o trabalho e a prática persistentes, se curaram.

Usha Devi: Sim, eles se curam, mas não sei como e porquê eles voltam para suas práticas anteriores (risos). Lembro-me de Paramahamsa Yogananda, que curou pessoas que tinham certos problemas, e a primeira coisa que ele pedia era para serem vegetarianos. Elas desistiam da carne, realmente se curavam e, uma vez resolvido o problema, começavam a comer carne novamente. Então, aqui é mais ou menos assim.

TopYogis: Então, yoga não é uma solução a curto prazo, uma cura rápida, é um estilo de vida.

Usha Devi: Claro. Quero dizer, de alguma forma você tem que mudar sua abordagem e compreensão. Às vezes temos pessoas que seguem o caminho do yoga e depois param. Porque é um esforço. E eu acho que isto é uma tolice – você vê na TV como as pessoas falam que foram curadas com yoga como se fosse uma solução isolada. Eu acho que você tem que ser realmente um praticante.

TopYogis: Usha Ji, qual é a sua prática pessoal? Você certamente tem uma prática diária.

Usha Devi: (Risos). Eu deveria ter. Às vezes, há muitas coisas. Porque eu estou vivendo em um ashram, e há um certo trabalho que tem que ser feito, não posso simplesmente dizer: “Não, eu vou fazer a minha prática agora”. Mas eu realmente tento. E depois, claro, às vezes, quando eu não estou aqui (no ashram), eu pratico de manhã cedo em casa.

TopYogis: E o que seria se você tivesse, por exemplo, apenas 15 minutos para a sua prática? O elemento mais importante?

Usha Devi: Normalmente, eu não pratico apenas por quinze minutos. Pelo menos uma hora, mesmo duas. Eu faço minhas orações, então faço algum pranayama. Caso contrário, eu não saio de casa.

TopYogis: Então, o que você diria a uma pessoa que pedisse conselhos sobre uma prática diária de 15 minutos?

Usha Devi: O que você faria em quinze minutos?

Estudante de Usha: Se eu tivesse apenas quinze minutos, gostaria de fazer outra coisa.

Usha Devi: Como ir caminhar.

Estudante de Usha: Às vezes eu apenas me alongo, mas eu não chamaria isso de uma prática, é apenas alongamento.

Usha Devi: Eu acho que mesmo em uma hora é difícil fazer caber sua prática. É o mínimo… Porque ela toma tempo também, sabe?

TopYogis: Certamente, para integrar qualquer coisa.

Usha Devi: Sabe, todas as manhãs, quando você se levanta, você se sente em condições  diferentes. Às vezes você sente preguiçoso, às vezes leva uma hora para remover esta resistência e começar a prática, para descobrir o que você realmente precisa.

TopYogis: Usha Ji, qual é a sua abordagem para o apoio sobre a cabeça? No Ocidente há professores que não praticam o apoio sobre a cabeça e o não ensinam.

Usha Devi: Nas classes gerais, eu não ensino o apoio sobre a cabeça. E nos cursos intensivos, eu o ensino. Ele tem que ser feito corretamente, caso contrário, pode causar uma série de problemas: problemas nos olhos e todo o tipo de problemas. É por isso que eu entendo porque até mesmo os médicos, às vezes, condenam sirsasana. De acordo com Guruji, no curso preliminar, iniciantes têm que aprender sarvangasana – suporte sobre os ombros, primeiro. Isso tem que ocorrer, eles têm que se preparar. E depois, lentamente, devagar, com compreensão, eles podem fazer sirsasana. Mas eu o ensino, realmente, muito pouco.

TopYogis: Sim. Precisa preparação.

Usha Devi: Claro, muita preparação. Eu acabo de ter um grupo chinês aqui, e lhes pedi para fazer o seu sirsasana. Tive que parar tudo e dizer: ”Não, isso está completamente errado”. E devagar os ensinei como fazê-lo corretamente, da maneira como Guruji nos ensinou.

TopYogis: Você poderia dar algum conselho para as pessoas que vêm para Rishikesh pela primeira vez em busca de sua prática de yoga? Eles podem estar um pouco perdidos. O que você lhes aconselharia?

Usha Devi: Veja, Guruji nos disse: “Quando você procura por um professor, primeiro descubra se ele está praticando”. Se ele está praticando diariamente, então você pode experimentá-lo. E depois, claro, você deve desafiar o professor, fazendo perguntas.

TopYogis: Você foi desafiada?

Usha Devi: Sim, as pessoas me fazem perguntas. E, claro, eles vêm com problemas. Evidentemente, todo mundo tem que descobrir por si mesmo onde ir e o que fazer mas, para mim, sinto que Iyengar yoga é seguro, é realmente seguro. Claro, isso depende do que as pessoas querem.

Mahesh, estudante de Usha Devi: Há pessoas que carregam em si o fator medo. Apreensivos sobre o que é yoga, eles não sabem. Para remover o fator medo, a melhor coisa é tentar Iyengar.

Usha Devi: E tudo é tão claro, sabe. E se você realmente seguir, nada pode dar errado.

Mahesh, estudante de Usha Devi: Se algo der errado, não é porque Iyengar yoga está errado, você deve ter entendido alguma coisa mal.

Usha Devi: Você pode estar com um professor não qualificado. Iyengar yoga é realmente seguro. Isto é o que eu vejo com meus alunos.

TopYogis: Muito obrigado pelo seu tempo, é maravilhoso!

Alunos falam sobre Usha Devi

“Com Usha Ji, o corpo tanto aprende a ser forte, como flexível. Então, depende do tipo de corpo. Meu corpo tende para a flexibilidade sem força, de modo que ganhei consciência disso. Eu diria que um dos principais benefícios para mim foi desenvolver a força e a resistência para ser realmente capaz de suportar a postura corretamente, em vez de apenas ir para a postura da maneira que pode ser prejudicial.”

Charlie

“Eu sou bastante flexível, por isso é fácil para mim empurrar meu corpo para qualquer tipo de forma que precise fazer, mas eu não tinha absolutamente nenhuma consciência do que estava fazendo. Então, Usha realmente me ajudou a aprender a ter consciência, o que penso ser o principal. E aí posso trazer essa consciência para a minha respiração e para o meu estado mental. Desta forma, esta prática realmente me ajudou muito “.

Maria

“No estilo Iyengar existe a habilidade de desenvolver a faculdade da mente de estar atenta. Mas não somente a consciência, mas o alinhamento também. E, assim, desenvolvemos uma faculdade da mente: a habilidade de entender o que está acontecendo no corpo e a habilidade de para corrigir o corpo. Iyengar yoga lhe dá a possibilidade de compreender o que está fazendo, não apenas intelectualmente, mas experimentalmente. É esse tipo de entendimento que a prática com Usha Devi desenvolve em nossa mente. Internalização dos conceitos que ela explica “.

Angelo

“Usha Ji foi um dos primeiros alunos de Guruji Iyengar. Então, o que ela aprendeu foi diretamente com o guru.

O melhor no ensino de Usha Ji é que ela, como professora, é muito focada e se assegura que o aluno também esteja focado. Ela tenta muito se certificar de que estamos como nosso corpo alinhado, e a precisão é muito importante para ela. E quando fazemos o que ela instrui, nós mesmos tentamos pensar internamente, e assegurar-nos de que estamos entregando a ela o que é esperando de nós. E o que acontece é que, por isso, não nosso corpo físico, mas também nossa mente, ficam alinhados. Você tenta se concentrar em seu corpo e, automaticamente, está no estado de dhyana.”

Mahesh

“Usha Devi é capaz de empurrá-lo para o seu limite máximo, sem feri-lo. Ela entende quando você está sendo preguiçoso, quando a sua natureza tamásica se assenta, e ela empurra você para além disso. Usha é capaz de ver profundamente dentro dos estudantes, ver o seu potencial, e empurrá-los para o que quer que esse potencial seja. Usha é o melhor professor que eu já experimentei, e eu tive muitos professores de Iyengar seniores. Digo isto porque ela me fez ver meu potencial. Você precisa entender que Iyengar ensinou em um espectro tão amplo, para tantos alunos, em tantos lugares diferentes, em tantas épocas, que talvez haja dez ou quinze professores atualmente no mundo que realmente podem transmitir seus ensinamentos. E Usha Ji é um destes poucos “.

Eddy

Para ler as versões completas de entrevistas com Usha Devi, vá para sua página no TopYogis. Se você praticou com ela, pode compartilhar sua experiência lá.

Nesta página, você também pode entrar em contato Usha Devi e verificar a localização de sua escola.

Entrevista publicada pelo blog Top Yogis em 23/01/2018

(/blog/interview-yogi/usha-devi-nobody-wants-be-student-everybody-just-wants-be-teacher)