Arquivo do mês: outubro 2018

Prática de Yoga durante a menstruação – Sinopse

Prática de Yoga durante a menstruação – Sinopse

Geeta S. Iyengar

Os estudantes sempre perguntam aos professores sobre os āsana-s a serem executados durante a menstruação. As mulheres são orientadas a descontinuar sua prática regular durante a menstruação, mesmo que não experimentem desconfortos. Este artigo fornece um relance sobre vários āsana-s, as modificações das posturas básicas e o que deve ou não ser feito pelas mulheres com problemas menstruais.

Esse artigo destina-se a guiar o praticante regular de yoga. Para detalhes sobre as posturas, aconselha-se que o leitor consulte as obras Luz sobre o Yoga, de B. K. S. Iyengar e Yoga, a Gem for Women, der Geeta Iyengar.

Āsana-s em pé I

  • Uttānāsana
  • Adho Muka Śvānāsana
  • Pāda Hastāsana
  • Pārśvottānāsana
  • Prasārita Padottanāsana

Nota: Em Uttānāsana, Adho Muka Śvānāsana e Prasārita Padottanāsana pode-se apoiar a cabeça em um banco, uma cadeira ou um bloco.

Efeitos dos āsana-s em pé

  • O cérebro se relaxa mais rapidamente; a extensão posterior da coluna rejuvenesce os rins. O esforço cardíaco diminui, porque o coração descansa abaixo do topo da coluna.
  • Aumentam a circulação sanguínea na região baixa do abdômen, melhorando a função dos ovários.

Beneficia especialmente aquelas com:

  • Hipomenorreia ou oligomenorreia
  • Poli menorreia
  • Pressão alta
  • Tensão no corpo
  • Dores na parte baixa das costas
  • Peso na cabeça

Não faça estes āsana-s se tiver dor de cabeça.

Āsana-s em pé II

  • Utthita Trikoṇāsana
  • Utthita Pārśva Koṇāsana
  • Vīrabhadrāsana II
  • Ardha Candrāsana

Nota: Em uma classe geral, normalmente as mulheres são impedidas de fazer as posturas em pé. Você pode tender a permanecer na postura por mais tempo, portanto podendo extenuar-se. Então, estas posturas devem ser tentadas somente se você não sentir-se fatigada durante a menstruação. Todas as posturas em pé devem ser feitas com o uso do suporte da parede.

Em Ardha Candrāsana, coloque a mão no bloco, em vez de colocar no chão.

Efeitos das posturas em pé:
  • Os órgãos pélvicos se estendem, aliviando as cólicas.
  • As virilhas livram-se da tensão.

Ardha Candrāsana estende todo o corpo.

Não faça estes āsana-s se:

  • Sentir-se exausta ou
  • Se estiver sangrando excessivamente.

Faça Ardha Candrāsana, especialmente, se:

  • Se tiver sangramento excessivo, já que a postura causa ressecamento, se for realizada repetidamente contra parede. Assegure-se de não permanecer muito tempo na postura a cada
  • Tiver cólicas abdominais ou tensão.
  • Tiver as virilhas ou a pelve rígidos.
  • Tiver fibrose, cisto ou endometriose.

 Āsana-s sentados I

  • Vīrāsana
  • Swastikāsana
  • Padmāsana
  • Badha Koṇāsana

Modificações dos āsana-s acima:

  • Todas as posturas podem ser feitas inicialmente da maneira clássica, com as mãos posicionadas em cima das pernas ou ao lado dos
  • Urdhva Hasta Vīrāsana, Swastikāsana, Padmāsana, Badha Koṇāsana: as posturas podem ser repetidas entrelaçando os dedos e estendendo os braços acima da cabeça. Certifique-se de que está estendendo o corpo desde as quinas laterais externas da
  • Uttanāsana, Vīrāsana, Swastikāsana, Badha Koṇāsana, você pode inclinar-se à frente e apoiar a testa numa cadeira ou
  • Pārśva – Vīrāsana, Swasticāsana, Padmāsana, Baddha Koṇāsana: erga a coluna e então, com uma expiração, gire a coluna para o lado esquerdo. Fique nesta posição por alguns segundos e então repita a postura para o lado
  • ParivrittaVīrāsana, Swastikāsana, Padmāsana, Koṇāsana: faça Pārśva Vīrāsana e então se estenda para frente. Apoie a cabeça em um cobertor ou na

Nota: se você não pode permanecer na postura por um tempo mais longo, pode sair da postura e então voltar a repeti-la.

Efeitos dos āsana-s sentados:

  • Removem a rigidez nas virilhas, joelhos e
  • Uttana, isto é, o āsana de extensão à frente, reduz as cólicas menstruais, as dores nas costas, a fadiga e tranquiliza o cérebro.
  • Pārśva, isto é, as posturas com torção lateral, reduzem as dores no abdômen, na área pélvica, na cintura e nas
  • Parivritta, isto é, as posturas em que se gira para um lado e inclina- se à frente, diminuem as náuseas e a depressão.

 Āsana-s supinados:

  • Supta Baddha Konāsana
  • Supta Vīrāsana
  • Matsyāsana
  • Setu Bandha Sarvāngāsana
  • Supta Swastikāsana
  • Supta Pādānguṣṭāsana II

Nota: não tencione o abdômen nestas posturas. Comece a sua prática com estas posturas se tiver fibrose, cistos ou anomalias da posição do útero[1].

Efeitos dos āsana-s supinados:
  • Reduzem o cansaço, a insônia e a letargia
  • Diminuem o inchaço no
  • Reduzem a inflamação nos órgãos

São especialmente benéficas para aquelas com:

  • Dismenorreia
  • Pressão baixa
  • Anemia
  • Diarreia

 Āsana-s de extensão para frente

  • Janu Śirṣāsana
  • Trianga Mukhaikapada Paschimottānāsana
  • Ardha Baddha Padma Paschimottānāsana
  • Marichyāsana
  • Paschimottānāsana

Nota: Apoie a testa no cobertor em todas estas posturas. Você pode descansar a cabeça numa cadeira, se for muito rígida. Permaneça na postura de forma relaxada e mude a posição apenas quando sentir o corpo se pesado ou os ísquio tibiais tornarem-se pesados.

As posturas podem ser praticadas várias vezes. Tente aumentar gradualmente a duração da permanência em cada postura.

Efeitos
  • Relaxa os órgãos abdominais
  • Reduz a retenção de líquidos e o inchaço corporal
  • Regulariza o nível de açúcar no sangue

São especialmente benéficos para aquelas com:

  • Oligomenorreia

Não faça Trianga Mukhaikapada Paschimottānāsana e Ardha Baddha Padma Paschimottānāsana se você sofre de:

  • Dismenorreia
  • Menorragia

 Āsana-s sentados II

  • Upavistha Koṇāsana
  • Uttana Upavistha Koṇāsana
  • Pārśva Upavistha Koṇāsana

Nota: estas posturas podem ser feitas pegando um suporte que você possa segurar avante, algumas caixas ou a grade à sua frente, de forma que você possa elevar a coluna e os órgãos abdominais.

Efeitos:
  • Alargam e relaxam a pélvis
  • Ampliam a vagina e reduzem qualquer obstrução ao fluxo menstrual
  • Tornam a região sacral côncava, reduzindo o peso no abdômen
  • Reduzem a irritação e as sensações de queimação em torno da área dos órgãos genitais

São especialmente benéficas para aquelas com:

  • Endometriose
  • Bloqueio nas trompas de Falópio
  • Inflamação pélvica

 Āsana-s de extensão para trás

  • Vipārita Daṇdāsana
  • Setu Bandha Sarvāngāsana

Não se extenue nestas posturas. Faça estas posturas com a ajuda de um suporte. Vipārita Dandāsana deve ser realizada na cadeira. Setu Bandha Sarvangāsana deve ser feita com suporte do bloco ou da cadeira.

Efeitos
  • Rejuvenescem os órgãos pélvicos
  • Aumentam a estabilidade emocional e a autoconfiança
  • Eliminam a depressão
  • Aliviam a insônia

 Prāṇāyāma

  • Śavāsana
  • Ujjayi I (inspiração normal – expiração profunda )
  • Ujjayi II (inspiração profunda – expiração normal)
  • Ujjayi III (inspiração profunda – expiração profunda)
  • Viloma I (inspiração com pausas)
  • Viloma II (expiração com pausas)

Nota: todos estes prāṇāyāmas devem ser tentados em Sāvāsana ou Supta Baddha Koṇāsana

Efeitos do prāṇāyāma

  • Aumenta a sensibilidade dos pulmões
  • Relaxa o cérebro e os nervos
  • Induz ao sono

Āsana-s que devem ser realizados ao término da menstruação

  • Śīrṣāsana
  • Pārśvaika Pada Śīrṣāsana
  • Upavistha Koṇāsana em Śīrṣāsana
  • Baddha Koṇāsana em Śīrṣāsana
  • Sarvāngāsana
  • Pārśvaika Pada Sarvāngāsana
  • Upavistha Koṇāsana em Sarvāngāsana
  • Supta Koṇāsana
Efeitos
  • Melhora a circulação para os órgãos abdominais
  • Restaura as funções das glândulas endócrinas
  • Ajuda o sistema nervoso a recobrar-se da fadiga e da tensão
  • Cria um estado de equilíbrio mental

São especialmente benéficos para aquelas com:

  • Amenorreia
  • Leucorreia

Āsana-s para o período pré-menstrual (TPM)

  • Meio Halāsana
  • Janu Śīrṣāsana
  • Viparīta Karani

Nota: a tensão pré-menstrual caracteriza-se por tensão, cansaço, irritabilidade e depressão, e ocorre cerca de dez dias antes de começar a menstruação.

Efeitos dos āsana-s feitas para tensão pré-menstrual
  • Estas posturas ajudam a relaxar

 

(Este artigo foi compilado do vídeo cassete de Mrs. Geeta Iyengar, “Yoga em ação- menstruação”) e foi publicado originalmente em inglês: Yoga practice during menstruation: a synopsis, Yoga Rahasya – Compilation of articles pertaining to Yoga Therapy published from 1994 to 2009, YOG, Mumbai, Índia, págs. 150/157.

Tradução: Paula Torres

Revisão: Marcia Neves Pinto

[1] N. R.: Tipos de anomalias de posição do útero:

Embora a localização do útero seja variável, normalmente encontra-se no centro da pequena bacia, com o fundo mais perto da púbis do que da coluna vertebral e virado para a frente, já que o seu eixo forma um ângulo quase recto com o eixo da vagina, enquanto que o corpo do útero apresenta uma ligeira curvatura para diante em relação ao colo uterino. Embora as ligeiras variações não alterem a fertilidade nem provoquem qualquer incómodo, os desvios ou deslocações significativas podem provocar problemas e, consequentemente, originar graves alterações. É possível distinguir vários tipos de anomalias, cada uma delas com o seu nome específico.

Entre as anomalias de posição, destacam-se a anteposição e a retroposição, quando o útero se encontra respectivamente mais à frente e mais atrás do que o habitual, e a sinistroposição e dextroposição, quando está deslocado para a esquerda ou para a direita.

Existem igualmente as várias anomalias da inclinação do útero, em que as mais evidentes são a anteversão e a retroversão, quando o eixo do útero se encontra deslocado para a frente ou para trás em relação ao eixo da vagina.

Entre as anomalias da flexão do útero, as mais significativas são a anteflexão e a retroflexão, quando o corpo do útero se encontra curvado para a frente e para trás respectivamente em relação ao colo uterino. (https://www.medipedia.pt/home/home.php?module=artigoEnc&id=682)

 

O QUE É IYENGAR YOGA – Gabriella Giubilaro

O QUE É IYENGAR YOGA

Gabriella Giubilaro

 

O que é? O Iyengar Yoga leva o nome de B.K.S. Iyengar, um mestre do yoga contemporâneo.

A importância do alinhamento: o Iyengar Yoga é especialmente famoso pela importância atribuída à correção do alinhamento. O alinhamento dos ossos e articulações conduz ao equilíbrio melhor com menor esforço muscular. Desta maneira, obtemos maior estabilidade nos asanas com menor esforço. O alinhamento correto melhora a circulação, cria espaço interno (literalmente, nas articulações) e proporciona um fluxo de energia equilibrado por todo o corpo, acarretando em saúde e bem-estar. A atenção aos alinhamentos em yoga é muito mais que fazer uma lista dos pontos a serem lembrados enquanto executamos os asanas. Refere-se ao desenvolvimento da consciência corporal que se reflete em todos os aspectos da vida.

A consciência corporal: quando fazem ajustes, os alunos iniciantes perturbam outras partes do corpo. Por exemplo, os iniciantes frequentemente giram a cabeça quando querem girar a coluna. Praticantes maduros desenvolvem uma consciência corporal que se expressa de dois modos. Primeiro, por meio da compreensão de como tudo está conectado, são capazes de fazer qualquer ajuste sem perturbar o resto do corpo. Segundo, são capazes de manter uma correção feita pelo professor na memória corporal. A consciência corporal fornece os instrumentos para abrir as áreas do corpo que estão bloqueadas. Esta é uma das razões pelas quais o Iyengar Yoga tem sido tão bem sucedido na promoção do bem estar.

Conexões: por meio de seus ensinamentos, B.K.S. Iyengar mostrou-nos como entender as conexões entre as diferentes partes do corpo. Ele ensinou-nos que a coluna vertebral beneficia-se do trabalho das pernas e dos braços. Este princípio é tão fundamental que se aplica a todos os asanas. Por exemplo, tanto nas posturas em pé quanto nas extensões para trás, é a ação dos pés e das pernas que estende a coluna. Em vez de trabalhar diretamente em uma parte do corpo — o que muitas vezes não é eficaz — em vez disso precisamos entender as conexões. Iyengar ensinou-nos que os asanas do yoga não são apenas um conjunto de posturas desenvolvidas há muito tempo, mas envolve a exploração, mas ao contrário envolvem a exploração, a descoberta e o domínio das conexões obtidas por meio da prática.

Ação X Movimento: quando praticamos Iyengar Yoga, descobrimos a diferença entre ação e movimento. No começo, como iniciantes, nossa atenção é capaz de observar apenas o corpo periféricoe os movimentos externos. A isto chamamos de movimento físico. Com o refinamento, começamos vagorosamente a comprender uma maneira diferente de praticar. Aprendemos a usar todos os sentidos da percepção para sentir não apenas o que está acontecendo no corpo periférico, mas também o que está ocorrendo dentro do nosso corpo. Pois é aí que chegamos ao ponto descrito por Iyengar como “quando a mente atua como uma ponte entre os movimentos musculares e os órgãos de percepção e introduz o intelecto, conectando-o com todas as partes do corpo”. Aprendemos a distinguir e a analisar o que sentimos dentro dos nossos corpos. Isto é o que é chamado de ação. Existe ação quando criamos um alongamento interno, um movimento que é imperceptível para um observador externo, mas que trás inteligência e sabedoria às nossas posturas.

Personalizando os asanas: Iyengar adquiriu muita sabedoria a patir do yoga, por meio da prática contínua e da capacidade de penetração cada vez mais profunda para dentro de si mesmo. Com base na compreensão do seu próprio corpo, ele ensinou aos seus alunos como penetrar em todos os níveis do corpo: o físico, o orgânico e o mental. Ele ensina a importância de personalizar a prática dos asanas por meio da escolha cuidadosa de quais asanas praticarmos, em qual sequência organizá-los e como praticá-los (ativa ou passivamente, com ou sem suportes). Esta personalização da prática de asanas permite-nos ir de encontro às necessidades pessoais, de acordo com as mudanças fisiológicas, psicológicas e do estado de saúde.

Suportes: outro aspecto do Iyengar Yoga é o uso de diferentes suportes, incluindo blocos, mantas, cintos e bancos. Se uma pessoa se beneficiaria de um asana — nos níveis físico, orgânico ou mental — mas não pode desempenhá-lo por causa da falta de capacidade ou de força, pode usar-se um suporte para apoio. Com suportes, até a pessoa inválida ou muito doente pode beneficiar-se dos asanas. Os suportes possibilitam que todos os alunos permaneçam nas posturas por mais tempo. A permanência em uma postura por um tempo muito, primeiramente afeta o corpo físico. Permanecendo nas posturas por mais tempo, os benefícios penetram mais profundamente nos níveis orgânico e mental.

A sabedoria do yoga: nós, que tivemos a sorte de estudar regularmente com B.K.S. Iyengar, experimentamos diretamente, não somente suas palavras, mas também sua energia, as quais nos guiaram na penetração mais profunda em nossos asanas e em nossos próprios corpos. Cada um de nós aprendeu a dar o nosso melhor, a experimentar nossos próprios limites e a tocar no desconhecido, algo dificíl de se fazer sozinho. Aprendemos, não somente a guiar os alunos com explicações verbais e demonstrações, mas também a ensiná-los e corrigi-los com o toque, assim, capacitando-os para experimentar algo que levariam anos para atingir sem a nossa ajuda.

Um professor vivo: Yogacharya B.K.S. Iyengar conta atualmente 80 anos[1] de idade, mas não perdeu nada de sua energia quando está praticando ou ensinando. O refinamento de sua inteligência continua a expandir-se. Em suas palavras: “Hoje eu não estico o meu corpo, o que eu costumava fazer nos meus trinta, cinquenta anos, todos estes anos, agora estendo minha inteligência no meu corpo, para expandí-la, de forma que é a inteligência que estende o meu corpo.”

Tradução: Sílvia Stocche e Marcia Neves Pinto

Texto originalmente publicado em:

http://www.bluespruceyoga.com/iyengargiubilaro.html

[1] Esta era a idade de Guruji na ocasião do artigo, 2000. Ele faleceu em 20/08/2014, com a idade de 94 anos.

Terapêutica em Iyengar Yoga: “Seu trabalho é colocar o aluno no caminho do yoga”

Terapêutica em Iyengar Yoga:

“Seu trabalho é colocar o aluno no caminho do yoga

 

Stephanie Quirk

Tradução: Marcia Neves Pinto 

A entrevista a seguir com Stephanie Quirk foi publicada pela primeira vez em
Yoga Samachar, springsummer-2011, revista da The American Iyengar Yoga Association. (https://www.stephaniequirk.com.au/therapeutics-iyengar-yoga-job-put-student-path-yoga/)

É tentador listar aqui todas as coisas maravilhosas que o yoga terapêutico pode fazer — o que pode curar, acalmar e aliviar — e eu sei que há muito interesse nisso. Isso mostra o interesse das pessoas no assunto. O yoga terapêutico é muitas vezes visto e compreendido apenas no estrato das doenças físicas. Porém, pensei em conduzir esta conversa de uma forma que, espero, seja mais interessante, apontando que em Iyengar Yoga a terapia, na verdade, nos beneficia a todos — professores, alunos ou pacientes.

Geralmente vê-se uma aula terapêutica como uma aula destinada às pessoas que não podem ou não devem frequentar uma aula geral. Estas pessoas vêm com várias doenças, complicações e incapacidades, sendo-lhes recomendada a classe medicinal, em lugar da aula regular. Ela não é vista como “yoga verdadeiro”, mas algo que é oferecido para as limitações dessas pessoas. Na verdade, as pessoas que frequentam as aulas terapêuticas[1] estão sendo apresentadas ao yoga da maneira que todos nós deveríamos segui-lo.

Desde o começo a prática delas de yoga cumpre os objetivos do yoga (veja os Yoga Sutras I.2, 3, 4 e 5 e I l.l). Para elas é imperativo que assim seja, a fim de reduzir as aflições e fazer cessar a distorção dos movimentos na consciência. (por consciência quero dizer a manifestação completa da consciência: os órgãos da ação, os sentidos da percepção, os elementos e os tanmatras, a mente, a inteligência, o senso do Eu e os movimentos internos da sensibilidade.) Em uma aula de yoga terapêutica, tudo isso é desenvolvido por meio da implementação da contenção, da retificação, da extensão, do equilíbrio, do alinhamento do corpo e da mente e da integração. Todas essas qualidades estão presentes no sadhana (prática) apresentado ao paciente. Como todos os praticantes, tendo dado os primeiros passos no caminho do yoga, ele ou ela ainda tem uma longuíssima jornada a empreender, mas tem a sorte de estar posicionado no caminho.

A outra pessoa envolvida no processo é o professor de yoga. Percebi a imensa importância que a terapêutica desempenha em Iyengar Yoga durante a formação de professores. Eu estou treinando-os não para serem instrutores, embora instruí-los de forma hábil e eficaz seja um ótimo trabalho, mas treinando-os para orientar os estudantes e os pacientes no caminho, a fim de despertá-los para seu conteúdo interior: a respiração, os órgãos, a energia e a mente. Para despertá-los através da correta abordagem crítica dos yogasanas e do pranayama. Tudo tem que funcionar ou o resultado terá impacto imediato sobre o paciente já enfraquecido e perturbado.

Por meio de upaya-kausalam — os meios hábeis da técnica libertadora — na situação terapêutica, juntos, o aluno e o professor, aproximam-se cada vez mais do verdadeiro objeto do yoga, cada um aprendendo e beneficiando-se do outro. Por causa da necessidade do paciente avançar habilmente para corrigir os fatores internos perturbadores e da habilidade de orientação do professor, ambos se aproximam da prática verdadeira.

Esta experiência compartilhada é um belo resultado da abordagem terapêutica em Iyengar Yoga. Em qualquer aula terapêutica as pessoas precisam trabalhar juntas. É um trabalho duro; muitas vezes são necessários assistentes. É uma atividade comunitária. Encorajo os professores a praticarem juntos novamente o que cobri em meus seminários, a fim de aprenderem. Muitas vezes os professores reportam-me o quanto apreciaram isto; eles descobrem que cada um deles se recorda de um aspecto diferente do trabalho. Revisá-lo juntos dá-lhes uma visão mais ampla sobre o que o “paciente/aluno” está experimentando. Isto é reunir-se para aprender e está fora do modelo usual de ensino de yoga.

A maioria dos professores aprende com outro professor e, em seguida, começa a ensinar. Muito frequentemente, no ocidente, o novo professor deixa seu professor para embarcar em uma carreira docente, afastando-se da riqueza do aprendizado. Aqui, estudando terapêutica, os professores retornam mais uma vez para aprender. Eles aprendem um com o outro e compartilham informações, observações e experiências. Este compartilhamento ocorre porque o estudo terapêutico não é conduzido com o professor isolado em uma plataforma. Todos têm que trabalhar juntos. Não há algo como “em isolamento” no ensino e na aprendizagem terapêutica, mesmo em níveis muito elevados. Em vez disso, é um processo de dar aos outros, incansavelmente, como podemos ver com nosso próprio Guru.

Stephanie Quirk: O yoga terapêutico vem muitas vezes disfarçado de terapia alternativa para a saúde, segundo o modelo médico. É aclamado pelas moléstias e doenças que pode curar. O professor pode cair no erro de se esconder atrás do papel do clínico. Essa maneira de ver tende a fazer com que os professores se limitem a buscar listas de suportes e sequências. Isso equivale a querer uma receita para curar uma doença. Mas para o professor, isso não funciona. Professores não são médicos; eles são praticantes de yoga. Muitas vezes tenho que lembrá-los de olhar para seus próprios anos de estudo como praticantes de yoga.

A terapêutica não é uma especialidade separada. Não há yoga aqui e “terapêutica” ali. Terapêutica não é outro método clínico — essas ideias são, na verdade, inimigas próximas para o professor. Muitas tentam fazer com que a terapêutica caiba nesses modelos, mas na verdade, é a abordagem do yoga que mais se adapta ao yoga. Eu tento fazer com que os professores olhem para sua própria prática de yoga, e tomem a direção desde dentro do yoga.

Para começar, os professores precisam parar e pensar no significado do sutra II.16 — heyam duhkham anagatham, qual a sua mensagem e o que está explicitando para eles! Esse sutra implica em uma reviravolta radical de todas as ações e comportamentos de uma pessoa, tanto dentro quanto fora do momento da prática. Se o sofrimento pode ou deve ser evitado, o que tem que mudar na maneira como as coisas são agora? Para ser sincera, assumir verdadeiramente apenas este único e aparentemente simples yoga sutra requer coragem, fé, determinação e uma abordagem aberta e positiva, pronta para a adaptação, aprendizado e absorção. Tudo tem que mudar. E isso é muito verdadeiro para o paciente que está sofrendo.

Então temos abhyasa e vairagya. Nenhum método de saúde alternativo tem isso. O seu trabalho como professor de yoga não é ser o médico, a enfermeira ou o psiquiatra de alguém. Seu trabalho é colocar o paciente/aluno no caminho do yoga. Eles devem tornar-se seguidores e praticantes, se pretendem erradicar todos os vestígios do que, finalmente, os perturba (dosha). Assumir abhyasa (prática) e vairagya (desprendimento) está no cerne de tudo o que alguém tem que fazer. Eles são os pedestais irredutíveis sobre os quais se baseia o yoga e o que realmente separa o caminho do yoga de outras terapias alternativas de saúde.

Outro aspecto que define a terapêutica como Iyengar Yoga é “a técnica e a precisão, ou a técnica aplicada com precisão”. Juntamente com a técnica apropriada para o estado do paciente, temos que encontrar no asana a precisão específica para esse estado. Encontrar essa precisão também significa descobrir o que está faltando no asana. Devemos rastrear o que é óbvio, visível e factível, bem como o que está oculto e adormecido. Nós devemos observar onde há vivacidade e onde há embotamento. Temos que conhecer o asana e, observando o paciente apresentar o asana, descobrir: É o asana integrativo ou desintegrativo? Como isso afeta, em geral, todas as camadas (kosas) e como atinge o distúrbio, especificamente? São conceitos abstratos, mas podem ser abordados pelas técnicas que aprendemos, com precisão e sutileza cada vez mais refinados.

Quando conseguirmos isso, estaremos fazendo o que Guruji tentou apresentar-nos como “Iyengar Yoga“, simultaneamente multidimensional e abrangente. Isso é holístico, não apenas musculoesquelético e fisiológico, mas yógico. Através dessa experiência, o aluno encontra sua própria experiência e sua conexão com a sensação de bem-estar.

Richard Jones: Como o treinamento rigoroso do Iyengar Yoga prepara os professores para a terapia?

SQ: No Iyengar Yoga temos um aparentemente longo processo de estudo. Muitos outros sistemas concedem certificados após um curso de final de semana, mas nós temos anos e anos de estudo, absorção e integração à nossa frente antes que nossa observação e ensino tornem-se maduros. Nenhuma acumulação de informações, nenhuma proficiência no entrelaçamento de um membro aqui ou ali em posturas avançadas pode trazer esta maturidade. Há que ser um estudante para sempre. O próprio Guruji frequentemente diz[2] que ele é apenas um aprendiz (embora não um principiante). Recentemente ele fez uma declaração muito pertinente sobre este tópico: “Eu rastreio as falhas; então, para mim, o que estou fazendo não é importante, é o que eu não estou fazendo que é importante.”

Sua declaração simples e única resume toda a abordagem necessária para progredir na própria arte, bem como na arte de ajudar os outros. Essa abordagem de rastreamento de falhas no Iyengar Yoga, de trazer o asana e o pranayama para um estado de excelência refinado, é um processo muito longo. Cultivamos a nossa capacidade de refinar ainda mais por meio da atenção e da correção cuidadosas.

Rastreando as falhas na prática, o professor mergulha mais e mais profundamente nas técnicas dos asanas e dos pranayamas. Empregamos essas técnicas na nossa própria prática, em prol do conhecimento que elas trazem. Gradualmente esses meios são usados com maior precisão, na medida em que provocam percepções sobre aquilo que cobre ou oculta a verdade ou a visão do si-mesmo. Começa logo no início, embora de forma rudimentar. Desta forma, alunos iniciantes e professores podem estar sendo treinados para a terapêutica por um grande número de anos.

Um bordão comum frequentemente aplicado por quem está fora do Iyengar Yoga é “alinhamento”. No entanto, esta palavra pode tornar-se superficial; pode começar a significar apenas aferição e posicionamento externos. Talvez uma diretriz melhor seja “a-linha-mente”: o professor deve observar se todos os revestimentos ou camadas do si-mesmo estão alinhados. A mente está equitativamente posicionada durante a postura? Há a sensação de que a pele está tocando uniformemente todas as partes, ou há algumas partes não tocadas e não penetradas? Este é o lugar no qual o alinhamento progride em direção ao a-linha-mente. O professor pode avaliar com maior precisão: está exatamente na linha, por igual? É dual ou não dual? Há algum local ou lugar desconhecido? Aqui a investigação do professor precisa mover-se da desproporcionalidade em direção à proporcionalidade, da disparidade para a paridade, a fim de anular o duelo entre as oscilações do complexo mente-corpo-respiração.

As técnicas em que somos treinados são aquelas de aferição ou de posicionamento, contato ou toque, rastreamento, expansão, alongamento e extensão. Elas são as técnicas de estabilização, fundação (ou “descendência”) e ascendência. Elas estão proporcionando maior leveza ou mais peso. Equilíbrio e posicionamento. Arejamento, ventilação e umidificação. Mobilizando e imobilizando, e a lista prossegue. Muito frequentemente o professor conhece o quadro externo correto de um asana, mas a menos que estude o conteúdo do quadro, o que está acontecendo é território desconhecido, virtualmente. É por isso que muitas perguntas sobre o que fazer em situações terapêuticas ainda são dirigidas aos Iyengars.

Notei que o sucesso de uma abordagem terapêutica parece depender da própria visão do paciente. Não importando o estado em que se encontrem, em algum momento eles devem buscar e obter a compreensão do processo do yoga e apropriar-se dele (carpe diem). Este é um passo vital. O aluno deve ter uma visão do caminho maior que está seguindo. O professor precisa ajudar o aluno a desenvolver a aspiração de seguir este caminho, para além da sua situação de sofrimento imediata.

Assim, o professor também deve cultivar a sua própria inspiração, a sua conexão com os objetivos do yoga. Caso contrário, ele deixará de avançar. Quando determinamos nosso verdadeiro “eu” para além do ego que se baseia nas posses e nas necessidades, obteremos a clareza e a lucidez da mente e do coração para atuar verdadeiramente como se heyam duhkham anagatham seja, de fato, possível?

Em sua abordagem multidimensional, porém abrangente, as qualidades verdadeiramente notáveis do Iyengar Yoga tornam-se visíveis.

RJ: Você pode compartilhar algumas das suas experiências nas aulas terapêuticas no R.I.M.Y.I.?

SQ: Na verdade não posso reproduzir para os professores o que aprendi ao longo de todos esses anos subindo as escadas [do R.I.M.Y.I.]. Não posso dar-lhes a experiência obtida prestando assistência nas aulas terapêuticas. Uma coisa que os professores não entendem é que tudo o que necessitam para ensinar em aulas terapêuticas é, na verdade, o que eles vieram estudando desde o início. Eles têm praticado os asanas durante anos. Frequentemente eles parecem estar à espera que lhes seja mostrado algo que não sabem. Para mim é muito divertido ensinar-lhes os asanas que praticaram repetidamente, mas nos quais não mergulharam realmente, para encontrar suas características e propriedades interiores. Vejo-me com dificuldade para descrever a vibrante força emocional e a força moral empregadas pelos Iyengars nas aulas terapêuticas. As pessoas acham perturbadora, às vezes. Os Iyengars são lendários por sua ferocidade e paixão. Eu passei a apreciar, cada vez mais, sua força e a presença emocional que eles trazem para a classe. Certamente seus anos de experiência e de conhecimento não podem ser igualados, mas é a sua conexão pessoal que lhe dá algo mais profundo do que qualquer experiência clínica. Seu envolvimento transpõe o fosso existente entre eles e o aluno que estão tentando ajudar.

RJ: Qual conselho você daria aos professores sobre terapêutica?

SQ: Vocês têm um grande recurso em suas mãos: Vocês precisam estudar e aprender uns com os outros. Os professores de uma devem reunir-se para estudar e praticar o que lhes é apresentado em seminários para que, primeiramente, entendam em seus próprios corpos. Geetaji disse, em Portland, que todos teríamos que passar pelo menos um ano digerindo o que ela ensinou lá. Não tenha medo, não se preocupe com o fato de outros métodos não dedicarem o tempo que alocamos para estudar. Infelizmente este é um sinal de como o mundo vê o yoga — como um passatempo, uma atividade secundária. Ele não lhe dá credibilidade. É o mesmo com relação a muitas disciplinas que têm sua origem nas tradições espirituais orientais. O mundo materialista de hoje não dará credibilidade a algo que é tão criativo como a abordagem do yoga para a saúde.

RJ: E quanto a precauções e orientações?

SQ: Sim, eu menciono os cuidados — não tanto sobre o que fazer e o que não fazer com relação à determinada doença, nem as contraindicações como em um manual de farmacologia — mas mais no sentido de proteger o professor de cometer um erro. Um erro prejudicial é uma tragédia para o professor. É estilhaçador. Quando estiver trabalhando diretamente sobre o asana do paciente, o professor precisa pensar sobre se o paciente é capaz ou não de absorver ou de tolerar a postura. Não faz sentido levá-los para uma postura que é demasiadamente forte, que está demasiadamente fora do seu alcance. O inverso também é verdadeiro. É um equívoco comum considerar que a terapia se trata de “descansar” ou de praticar posturas restaurativas. Podem existir fadiga ou problemas circulatórios ou desequilíbrios mentais que têm de ser liberados no início de uma sessão de āsana; porém, permitir que os sistemas circulatório, nervoso e mental do paciente afundem na apatia pode criar mais problemas.

Para ajudar os professores a evitar lesionar os estudantes, dou-lhes algumas orientações simples. A primeira é perguntar — repetindo frequentemente — “Como se sente agora?” Os professores devem observar a cor do paciente e sua respiração; devem observar especialmente o pescoço e o abdômen para verificar sinais de desequilíbrio e tensão. Devem tocar e verificar se há algum tremor interno. Muito frequentemente, o professor pode ser hábil no ajuste e na colocação de suportes, mas pode deixar de observar a transformação obtida a partir deles. Ao ajustar, “ouça” através de suas mãos para verificar a resistência ou a aceitação do movimento.

Hoje há tanta informação disponível; compare isso com anos atrás, onde a informação era escassa. Agora vocês têm que abordar o aprendizado de uma forma diferente. Preparem-se para criar o seu próprio aprendizado, cometer erros e aprender novamente. A aprendizagem tem que incluir o insucesso, porque ele é instrutivo. Vocês têm que “fazer”, brincar, investigar. Para ingressar no espaço real e encontrar o seu manejo, a sua visão. É por isso que tenho tantas sessões nas quais os professores trabalham juntos e um no outro, para dar-lhes uma oportunidade de encontrar seus olhos, para encontrar a sua mão no assunto. Eles não se limitam a me observar trabalhando e fazer anotações. Fazem por si mesmos. Há muitos livros bons disponíveis (de novo, toda essa informação!), mas os professores ainda perguntam o que fazer. Eles têm que “obter seu manejo”. Eles têm que desenvolver habilidade, compaixão e sabedoria (kausalam, karuna, e prajna). As técnicas e a informação estarão lá, mas mais importante é existir a imersão com todo coração na matéria. Só então essas qualidades surgirão.

Stephanie Quirk tem observado e trabalhado com os Iyengars no R.I.M.Y.I. desde 1994, auxiliando em todas as aulas, incluindo as terapêuticas e as para mulheres. Nos últimos anos, ela vem conduzindo seminários de treinamento abrangentes sobre terapêutica em seis partes, compartilhando seu conhecimento e experiência com professores de Iyengar Yoga no mundo todo.

[1] N.T.: no original em inglês está escrito medical classes. Entretanto, atualmente em R.IM.I.Y. tais aulas são denominadas remedial classes, cuja tradução pode ser “aulas terapêuticas” – 2. adjective [usually ADJECTIVE noun]. Remedial activities are intended to improve a person’s health when they are ill. [formal] He is already walking normally and doing remedial exercises. Synonyms: therapeutic, healing, curing, curative, fonte: https://www.collinsdictionary.com/dictionary/english/remedial). No Brasil consagramos o uso da designação aulas terapêuticas, razão pela qual, a fim de evitar mal entendidos, usamos a designação conhecida no Brasil e atualmente empregada em Puna.

(http://bksiyengar.com/modules/Institut/RIMYI/RIMYI%20TT_2012.pdf

[2] A entrevista foi publicada pela primeira vez em 2011, ocasião em que Guruji ainda estava vivo.

IYENGAR POR PATRICIA WALDEN: UM GÊNIO EM AÇÃO

IYENGAR POR PATRICIA WALDEN
UM GÊNIO EM AÇÃO

Patricia Walden

Tradução: Marcia Neves Pinto

Nada poderia ter me preparado para BKS Iyengar. Com seu amor pelo yoga, ele era o príncipe da paixão e o rei do carisma. Em minha primeira aula, ele explodiu: “Se você mantiver as axilas abertas, não ficará deprimido!” E pela sensação de abertura e elevação no meu peito, eu sabia exatamente o que ele queria dizer.

Havia fogo na sua presença, um fogo que acendeu a luz do yoga em mim e transformou a minha vida. Ele era direto e claro, com uma ferocidade de espírito que denotava que poderia enfrentar qualquer desafio.

Isso há mais de 25 anos. Desde então, passei a ver BKS Iyengar como um classicista moderno, mergulhado na tradição, versado nos Vedas e fluente em Patañjali. Aos 80 anos, ele continua a praticar intensamente: 35 minutos de apoio sobre a cabeça, 108 repetições de retroflexões (ciclos de tadasana, descendo para trás em urdhva dhanurasana e depois subindo para tadasana), 10 minutos de viparita dandasana e longas, introvertidas, extensões para frente. Como ele diz, “quando era jovem, brinquei. Agora, fiquei.”

Nos primeiros anos, seu ensino refletiu sua prática. Fazíamos muitas, muitas posturas, inclusive avançadas, em cada aula. Ele derramava instruções sobre nós com uma intensidade torrencial. Seu foco estava na ação – ações que fundiam o corpo e a mente: “Faça com que a mente sinta o estiramento. Dspertem a mente do dedo mindinho do pé.” Nós saíamos da aula exaustos e alegres, encharcados até os ossos pela torrente de seus ensinamentos, pensando se conseguiríamos chegar aos nossos quartos de hotel.

Como o passar dos anos, ele adicionou novas dimensões ao seu ensino. Fazemos um menor número de posturas por aula, mas ele nos conduz mais profundamente em cada uma. Demonstrando as nuances da prática, ele nos encoraja e persuade a verificar e a compreender. Ele exorta-nos a explorar, a descobrir onde estamos entorpecidos ou trabalhando em excesso, a nos ajustarmos, a fim de que a consciência possa agraciar o corpo uniformemente por toda parte. E, acima de tudo, ele realça que o propósito da prática está em aproximar-se da alma por meio do equilíbrio entre a ação e a reflexão. Nas suas próprias palavras: “Temos posar e repousar”.

Com a mente de uma cientista e a alma de um poeta, ele gastou milhares de horas usando seu corpo como um laboratório, experimentando, explorando, observando e criando. Lembro-me de uma vez tê-lo observado praticando antes de ministrar uma aula. Eu estava surpresa em ver o corpo dele torcido em um alinhamento atipicamente pobre; mas depois, na aula, percebi que ele tinha estado trabalhando sobre os problemas de seus alunos em seu próprio corpo. Uma vez ele me disse que aprendeu o próprio método explorando não apenas o que estava certo, mas também o que estava errado; e que ele esperava que seus alunos pudessem aprender com a sua experiência.

Nas aulas terapêuticas, ele é uma força da natureza criativa e terapêutica, um gênio em ação. Ele atravessa o instituto durante duas horas inteiras, observando e reagindo na velocidade da luz: um curador moderno apaixonado por seu trabalho.

É extraordinário e desafiador ter Guruji como professor: aprender com ele, ano após ano e experimentar sua genialidade, generosidade e orientação. Sua paixão pela excelência e o interesse incessante no yoga são contagiosos; e essas qualidades, juntamente com sua coragem e força de vontade, inspiram a minha vida, a minha prática e o meu ensino.

Quando eu comecei o yoga, a prática era difícil para mim. Tomou-me um tremendo esforço e disciplina. Em contraste, era paradoxal ver Guruji praticar: ele parecia livre e despido de esforço, mesmo enquanto praticava as posturas mais desafiadoras. Inspirada por seu exemplo e instrução, permaneci esforçando-me. O que se seguiu surpreendeu-me: através da disciplina, me apaixonei pela prática. Uma liberdade interior floresceu.

Trago essa lição para os meus alunos: se ficarmos no caminho que escolhemos e desenvolvermos a disciplina para ultrapassar as dificuldades, nossos esforços nos transformarão.

Escrever esta homenagem a BKS Iyengar desafiou-me a examinar o meu coração e a minha vida, a fim de identificar o que valorizo mais nele e nos seus ensinamentos. E aqui está:

O maior presente que um professor/guru pode dar a um estudante é o interesse genuíno: tal interesse genuíno pode transformar e moldar incomensuravelmente a vida do aluno. [grifo do original]

Guruji é o meu elo de ligação com a tradição. Ele me mostra o que é possível com a prática e representa para mim um exemplo vivo do sutra I.14 (sa tu dirghakala nairantarya satkara asevitah drdhabhumih): “ Obtém-se sucesso no yoga quando ele é praticado com devoção, de modo initerrupto, por um longo período de tempo.”

Recordo-me de uma das primeiras lições que aprendi com dele: “Quando confrontado com a dificuldade, tome uma atitude, não importa quão pequena.” Qualquer coisa é possível se você agir (e refletir) com amor e devoção.

Com seu estilo desafiador, Guruji ensinou-me a enfrentar as dificuldades com os olhos bem abertos, a refinar-me por meio da paixão e da disciplina, e de sentir-me segura em seu método. Como resultado, sinto alegria em minha prática e liberdade no meu amor pelo ensino.

(este artigo foi publicado em 28/08/2007 em https://www.yogajournal.com/lifestyle/genius-in-action)

Abhijata e um longo sirsasana:

Abhijata e um longo sirsasana:

“Coloquei meu relógio na minha frente, peguei os cintos e amarrei minhas pernas unidas, de forma que a permanência se tornasse mais fácil, esse era o meu plano.” Iyengar estava por perto, praticando com os olhos fechados, “assim, era mais fácil para mim. Após cerca de dez minutos, minhas mãos começaram a suar. Eu tinha comichões no rosto, nas costas, em lugares que eu nem sabia que existiam, todas as áreas começaram a coçar. Mas eu disse: hoje eu tenho que permanecer, aconteça o que acontecer. Doze minutos, treze minutos depois, estava suando, tremendo. De alguma forma o relógio chegou aos dezessete minutos e, então, no décimo sétimo minuto digo a mim mesma: deixe-me completar outros três minutos. Então, no momento em que o relógio marcava o vigésimo minuto, desci e me coloquei em Adho Mukha Virasana.

Naquele momento, Guruji apareceu e disse:

— Venha cá, menina preguiçosa, o que você está fazendo?

E eu respondi com muito orgulho:

— Fiz uma conquista! — disse. — Hoje não fui preguiçosa. Fiquei em sirsasana por 20 minutos.

Ele disse:

— Certo. O que você fez?

— Guruji, fiquei em sirsasana por 20 minutos — respondi.

E ele repetiu:

— O que você fez?

Eu absolutamente não entendi a pergunta. Eu disse:

— Permaneci em sirsasana, equilibrei-me sobre minha cabeça, durante vinte minutos.

E ele retrucou:

— No momento em que você entrou [na postura] sobre sua cabeça, abusou da posição de sirsasana, o que você fez durante os vinte minutos?

Eu estava perplexa! Não fiz nada durante os vinte minutos; estava esperando pelo vigésimo minuto.

E ele pontuou:

— Que perda de tempo…”

(publicado em 28/08/2018, em inglês, por Iyengar Yogamandala South Delhi)

Tradução: Marcia Neves Pinto