Entrevista com Christian Pisano: “O asana é apenas uma onda no oceano do Yoga.”

Entrevista com Christian Pisano:

“O asana é apenas uma onda no oceano do Yoga.”

Christian Pisano pratica Iyengar Yoga há muitos anos e ainda continua estudando em Pune. Ele dirige o Iyengar Yoga Institute em Nice, na França. Esta é uma entrevista de Consuelo Serrano para YogaenRed.

Tradução: Marcia Neves Pinto 

Christian Pisano pratica Iyengar Yoga há trinta anos e é uma das três únicas pessoas no mundo que receberam um Certificado Sênior Avançado de BKS Iyengar. Ele viveu em Pune, na Índia, por vários anos de sua juventude e dedicou-se a explorar a arte sagrada do yoga sob a orientação de seu guru, BKS Iyengar. Durante esse período, ele também se aprofundou no estudo de várias filosofias e aprendeu sânscrito.

Pergunta: Você começou a praticar há trinta anos. Como a prática de yoga evoluiu desde então?

Eu não posso falar sobre a evolução do yoga em geral. A prática, entendida como a prática postural, é apenas uma onda no oceano do yoga. Eu poderia acrescentar que a maioria das práticas posturais de yoga, hoje, não é mais do que uma invenção, uma adaptação contemporânea.

Trinta anos não são nada quando falamos sobre a evolução de uma arte que leva em consideração os ciclos cósmicos. E podemos falar sobre evolução quando consideramos que o yoga foi revelado? Isto é, apareceu espontaneamente ao mesmo tempo em que os diferentes ciclos cósmicos apareceram. É uma maneira de dizer que é parte integrante da potencialidade da Consciência. Tomará, então, diferentes formas e expressões de acordo com os diferentes ciclos do espaço-tempo. De fato, as mudanças observadas ao longo dos séculos são indescritíveis.

Eu poderia falar mais facilmente sobre a evolução da minha prática. Mas isto também seria problemático: a prática é apenas a expressão orgânica sensorial, emocional, mental e respiratória de um ponto X no espaço-tempo que é atribuído a um indivíduo.

Essencialmente, existe o espaço aberto da Consciência que se atualiza nas diferentes atividades. Claro, o leitor será capaz de dizer que houve mudanças, é evidente. Essas mudanças são pontos de vista simples (que a Consciência faz de si mesma) de um indivíduo que é, ele mesmo, a expressão do jogo da Consciência. Como afirmado no Siva Sutras, “O Eu é a cena” (rango antaratma[1]).

 

P: Foi durante a sua terceira viagem à Índia que você conheceu BKS Iyengar. Que lembranças você guarda do mestre e da sua estada em Pune?

Lembro-me da complacência de um sonho em que tudo era possível. Aqueles sonhos que nos embalam na infância e se alimentam da magia do mundo. Esse sonho que quando percebido é o sopro da nossa vida.

Vou dizer-lhe do que me lembro dos anos da minha juventude na Índia, onde conheci vários magos. Eles eram magos ou mestres? Um deles foi meu mestre de yoga, BKS Iyengar, que transbordava fogo, paixão e devoção à sua arte. Por trás de seus olhos de fogo e de suas sobrancelhas emaranhadas se via a pergunta maliciosa: do que você tem medo? Que risco você corre, já que não é o corpo-mente? Seu grito em direção ao Absoluto permanecerá em meu coração até meu último suspiro.

Isso realmente aconteceu? Eu não sei … Apesar disso, nos confins do meu ser há apenas a certeza desse sonho.

 

P: Você é professor de Yoga Iyengar e ensina um rigoroso programa de treinamento de professores em sua escola em Nice. Como o ensino de yoga no Ocidente está mudando? Quais são as qualidades de um bom professor?

De que rigor se está falando? De uma disciplina imposta, da série infinita que nossas sociedades, baseadas no medo, em seu sistema educacional não param de bradar, trilhar ou reinventar, e de lidar perfeitamente com o pau e a cenoura. Um rigor que cultiva a competição, a comparação e a não cooperação entre os indivíduos. Um rigor com o qual nos é prometido que, trabalhando arduamente os diplomas, a obediência e o pertencimento a um sistema, nos fará esquecermos da profunda ferida de nossas carências que não podem ser satisfeitas por nada.

Claro que tudo isso é expresso através de programas. Todos os programas existem para privar-nos de nosso próprio poder criativo, de nossas próprias habilidades para discernir e entender o processo pelo qual estamos passando. Sempre explico aos meus alunos que, se eu der a eles programas de prática, eles entenderão que o programa não é viável e, então, é inútil. O mapa nunca é o território.

No território, que é o processo do indivíduo através do corpo-mente, há uma qualidade orgânica que é essencial e de valor inestimável. Um programa nunca pode levar isso em conta. Ou você se dá conta que ele muda constantemente e então não é mais um programa.

A aplicação (viniyoga) das técnicas ou do programa de acordo com o indivíduo e sua constituição é, portanto, essencial. É por isso que o yoga era ensinado, tradicionalmente, de pessoa para pessoa.

O rigor e os programas são as facetas das formações que formatam. Treinamento, por definição, é sempre formatação. É fabricado e moldado de acordo com uma padronização de técnicas e tempo. Um período de tempo é imposto. Como é possível, quando todos nós temos ritmos diferentes? Você deve ter terminado em um lapso de tempo e tudo é sancionado com um exame. A padronização das técnicas é realizada através de um currículo que constitui um modelo de prática com um tempo imposto. De fato, o que se faz é sujeitar todos os candidatos às mesmas condições, sem levar em consideração sexo, idade, circunstâncias, etc.

A dimensão de um ritmo orgânico em que todos respeitam seu terreno e se tornam conscientes de suas próprias capacidades é completamente ignorada nessa perspectiva. Teria que começar com uma “quebra do rigor”, um “des-programamento”, uma “de-formação”, onde se “des-aprenda” muito mais que se acumule informação.

Estou muito satisfeito com a decisão tomada pelo RIMYI (Instituto de Yoga Memorial Ramamani Iyengar) de cessar completamente o treinamento como atualmente proposto e retornar a uma forma muito mais tradicional de transmissão.

Quanto às qualidades de um bom professor, para que servem as listas de qualidades? Elas não nos ajudam em nada. Muitas vezes, elas não podem ser aplicadas ou não estão diretamente relacionadas ao que é vivido no dia-a-dia. Isso significaria que eu sei ou acho que sei o que é um bom professor ou que vivo de acordo com um ideal que não alcancei e que quero alcançar. Em ambos os casos, eu falaria de duas situações que não têm relação com o que eu vivo diariamente, visceralmente, sem a imagem que quero dar, do que deveria ou não ser um professor de yoga.

 

P: Sua inclinação filosófica o levou ao Shivaísmo não-dualista da Caxemira. Você poderia explicar a essência deste sistema?

A expressão do Shivaísmo não-dual da Caxemira é a designação contemporânea e recente de uma forma de Shivaísmo ensinada e elaborada pelos mestres da Caxemira a partir de textos escritos em sânscrito. A maioria foi escrita entre a segunda metade dos séculos IX e XIII da nossa era.

Nesta perspectiva, a única coisa que é reconhecida é a Consciência e sua inclusividade. Nada é separado ou diferenciado desta Consciência. Já somos o que procuramos, mesmo que ainda não tenhamos reconhecido. O fracasso em reconhecê-lo é também uma expressão da Consciência. Esta Consciência não está ainda para ser alcançada, mas já foi alcançada e realizada e expressa livremente em todas as expressões da existência, em todas as percepções, quaisquer que sejam.

“Seja como você é, sem qualquer preocupação, já que o objetivo já foi alcançado. Isso é exatamente discriminação. Quem mais se não Ele ensinaria o que e para quem?” (Mahartha-manjari, Mahesvarananda 64).

O estado em que me encontro seja qual for o estado de contração ou expansão, de prazer ou sofrimento, de lucidez ou confusão, já tem o grande prêmio da presença. Não poderia se expressar ou aparecer sem a luz da nossa própria Consciência, da nossa Presença. Então, não há nada para adicionar ou subtrair, nada que possa me aproximar ou afastar, nada a procurar ou evitar. Nada que possa facilitar ou impedir.

“Como o indivíduo é idêntico a tudo, já que ele é a fonte de tudo, a partir do momento em que ele toma consciência disso – em relação ao corpo, à palavra, aos sentidos, ao pensamento, às ações -, já não existe outro estado que diferente que não seja (o de) Shiva. É sempre o Sujeito que goza e que se manifesta a si mesmo em qualquer lugar, na forma daquele que está desfrutando.”(Spanda Karika 28-29)

 

P: Em junho, você vem a Madri para apresentar seu último livro, , La contemplación del héroe. Quais foram seus objetivos ao escrevê-lo? O que você pretende transmitir aos seus leitores?

O que pode ser transmitido? O essencial do que somos não pode ser transmitido. A única coisa que podemos compartilhar é o nosso espanto diante de nossas tentativas e estratégias repetidas tentando dar sentido e significado à maravilhosa e terrível dança de Shiva, que é a nossa própria dança. Dança que nunca pode ser entendida e que explico no primeiro capítulo, Confesiones de ignorancia, que é muito curto. Eu adoraria, se no final da leitura, o leitor fechasse o livro explodindo em gargalhadas por ter percebido a piada cósmica de tudo isso.

 

P: Interessa-me sua definição de herói, que você coloca entre o animal social, condicionado por seu ambiente, e o ser divino, sem qualquer condição. Conte-nos sobre esse conceito de herói tântrico e como o yoga pode ajudar-nos a encontrar nosso próprio herói.

O modelo de nossas sociedades e o sistema de ensino, geralmente transmitido por nossos pais, é baseado em medo, vergonha e culpa. A maioria das organizações sociais reforça esse condicionamento, o do indivíduo separado do mundo, o de um universo que seria estranho e perigoso. O animal social se crê uma entidade separada do resto através de uma história pessoal e que, graças aos seus esforços e trabalho árduo, terá um lugar nesta sociedade ou no paraíso.

“Aquele que vê o que percebe como sendo ele mesmo (a existência objetiva é apenas a expressão da nossa subjetividade) é um professor (pati), enquanto aquele que se considera diferente do que percebe, é um pashu (um ser acorrentado).” (Utpaladeva Isvarapratyabijnakarika, Livro III, capítulo 2, verso 3).

O Vira (herói) não tem nada a ver com o herói de Hollywood que mesmo nas situações mais assustadoras mantém sua melhor imagem, sempre apresentável e politicamente correta. O Vira também não tem nada a ver com o guerreiro espiritual que realiza a luta contra os moinhos de vento. Tudo o que se apresentado a ele e o estado em que ele se encontra, qualquer que seja, é unicamente a expressão da Consciência. Tudo é alimento para ele. Ele não quer transcender ou idealizar o estado em que se encontra. Para ele, a realidade em si é a prática autêntica e última.

“Eu sempre pratico os três lembretes. São como lagos que limpam o coração. Primeiro, lembro-me de que sou uma forma de Consciência infinita. Então observo os gloriosos fenômenos do universo como a expressão do universo, a expressão da minha própria Consciência. E no final eu vejo os diferentes estados de Consciência como se se tratasse de mim mesmo, do meu próprio ser.” Lalla.

“Tudo o que é percebido, tudo o que existe, é precipitadamente jogado no fogo que ruge no estômago de nossa própria consciência, abandonando, assim, toda diferenciação; alimentando-o com diferentes tipos de combustíveis que a realidade nos oferece a cada momento. Uma vez que a forma de todas as coisas e objetos tenha sido dissolvida com esta digestão violenta, somente a energia pura da Consciência permanece”. (Abhinavagupta, Tantraloka).

“Chamamos de sacrifício a tudo que o herói (vira) assume através do pensamento, fala ou corpo, qualquer que seja a atividade capaz de revelar o essencial.” (Abhinavagupta, Tantraloka).

Nada pode ajudar, nada pode impedir. Como Abhinavagupta diz no Tantraloka: “A consciência não é um produto da atividade; os rituais, a prática do yoga, não podem servir como um caminho. A atividade só existe através da pré-existência da Consciência.”

Acreditar que o yoga ou qualquer outra coisa poderia ajudar a descobrir, a encontrar nosso próprio herói, seria simplesmente uma estratégia como qualquer outra que me projeta em direção ao futuro e que me diz que tal como sou agora há algo que não funciona. Que teria que praticar, meditar, purificar, ir mais longe, ceder, soltar, acordar. É apenas um catálogo de decadência e perdas desesperadas com um futuro inexistente.

Por acaso somos um corpo-mente que de vez em quando experimenta o infinito, ou somos a Consciência infinita que experimenta as contrações, as limitações do corpo-mente?

É inútil tentar revelar a capacidade de nossa própria Consciência, a capacidade heróica de esquecer-se e limitar-se, pelo prazer do jogo, através de uma história pessoal, com tudo o que isso implica.

 

(https://www.yogaenred.com/2018/05/24/entrevista-con-christian-pisano-asana-solo-es-una-ola-en-el-oceano-del-yoga/)

 

[1] N. T. Shiva Sutra 3.10 rango’ntaratma

Ranga é o palco, o local onde a alma universal pode encenar inúmeros papéis. Antaratma é a alma interior que tomou a forma do corpo sutil (puryashtaka). O corpo sutil carrega os traços residuais de nossas boas e más ações de uma vida para a outra. [Jaideva Singh] Cada um de nós é a composição perfeita de cada um de nossos pensamentos, ações e obras em todas as vidas anteriores.

A alma interior age em três estados: desperto, sonho e sono profundo. A consciência destes três estados é importante no Shivaísmo da Caxemira, porque temos que nos tornar conscientes de todos os três.

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