A INVOCAÇÃO A PATAÑJALI

Geeta Iyengar
Tradução de Marcia Neves Pinto
Agora vou falar-lhes sobre a invocação a Patañjali, seu significado e simbolismo. A invocação começa com aum. Aum é o primeiro som primordial, um adi nada, um som melodioso, sonoro sublime. As três sílabas A, U, M representam toda a gama de sons e de criação. Eles
representam sonhar acordado e os estados de consciência do sono. O crescente simboliza estado transcendental. Aum é pranava, que significa o exaltado, insuperável louvor ao princípio Supremo, à divindade. De acordo com Patañjali, ele simboliza Ísvara, a divindade tasya vacakah pranavah.
Sendo a fonte de todas as energias, aum é proferido como um começo auspicioso. Nenhuma atividade sagrada será completa, profunda e perfeita sem que se efetive a graça Suprema e aum é a principal invocação para buscar essa graça.
Como a música é uma das melhores mídias para expressar entimentos, amor e devoção, mídia se inicia com aum. A invocação que primeiro cantamos é:
Yogenacittasyapadena vacam
Malam sarirasyacavaidyakena
Yopakarottamprvarammuninam
Patanjalimpranjaliranato’smi
Significado: saúdo ao mais nobre dos sábios, Patañjali, que nos deu o yoga para a serenidade da mente, a gramática para a pureza do discurso e a medicina para a perfeição do corpo.
A segunda parte descreve a estátua de Patañjali:
Abahupurusakaram
Sankhacakrasidharinam
Sahasrasirasamsvetam
PranamamiPatanjalim
Significado: saúdo a Patañjali, cuja parte superior do corpo tem forma humana, cujos braços seguram uma concha, um disco e uma espada, e que é coroado por uma cobra de mil cabeças.
Oh!,encarnação de Adisesa, minhas humildes saudações a ti.
Os autores desta invocação são desconhecidos. Não era costume naquele tempo mencionar nome de alguém como autor ou escritor. No entanto, alguns livros tradicionais mencionam que abahu purusakaram foi escrito pelo rei Bhojadeva em 1.100 D.C., autor de Rajamartanda Vrttium comentário sobre os Yoga Sutras.
Cada aspecto da estátua de Patañjali carrega um significado, como os sutras são intrincadamente redigidos. Quando se contempla a estátua do sábio Patañjali, vê-se três e meia espirais abaixo do umbigo. As três espirais indicam o pranava aum, um símbolo místico que transmite o conceito de Deus como criador, organizador e destruidor. Ele o represeta como onipresente, onipotente onisciente. Aum é composto de três sílabas, A, U e M com um crescente e um ponto na parte
superior.
As três espirais completas simbolizam as sílabas e a meia espiral, o crescente. Elas também representam os três gunas de prakrti, denominados sattva, rajas e tamas, e a aspiração por alcançar o estado de trigunatita, que é um estado transcendente. O sábio Patañjali convida nossa atenção para os três tipos de aflições, denominadas adhyatmika, adhibhautika adhidaivika, que devem ser conquistadaspor meio do caminho do yoga. As três espirais indicam que ele é um mestre do yoga, gramática e ayurveda. A meia espiral indica o atingimento do estado de kaivalya.
A concha na mão esquerda significa o estado de alerta, atenção e prontidão para encarar os obstáculos que são inevitáveis na prática do yoga. Antigamente, a concha explodiu como um aviso para a prepararação para enfrentar catástrofes ou calamidades, como é feito hoje em dia com as sirenes. É também um símbolo de jñana.
O disco na mão direita significa o esforço supremo para a destruição da ignorância e é um símbolo de proteção. A espada, escondida na cintura, indica a eliminação do ego, do orgulho ou do sentimento do “Eu”, que é o principal obstáculo que cobreo ser puro. É uma espada de jñana para derrotar ajñana. Estas três armas também indicam a contenção das flutuações mentais, remoção de obstáculos e a erradicação de aflições através da prática de yoga.
O capuz acima da cabeça é uma garantia da proteção de Adisesa, rei das serpentes. Esta proteção permanece para o praticante sempre, desde que ele se renda ao Senhor, que é representado pelo atmanjali mudra, as mãos postas em namaskara. O Bhagavatam narra a história do nascimento do senhor Krsna. Uma vez que Vasudeva foi alertada pelos Deuses celestes que seu oitavo filho, Krsna, será morto por Kamsa, ele o conduz de Mathura a Gokul para protegê-lo do demônio Kamsa. O rio Yamuna se inunda porque chovia cântaros. Nesse momento oportuno, Adisesa protegeu Vasudeva e o infante Krsna segurando o capuz acima deles como um guarda-chuva e
fez surgir um caminho, bem no meio do rio, para que Vasudeva pudesse cruzá-lo facilmente.
O senhor Patañjali indica com seu capuz que é nosso protetor, desde que destruamos com a espada do yoga os malefícios ocultos dentro de nós, purificando-nos por meio do sadhana do yoga.
A cobra de mil cabeças, sahasra sirasam svetam, indica que Patañjali nos guia de mil maneiras, mostrando-nos vários métodos de prática e a abordagem para encontrar a Alma dentro de nós mesmos.
A imagem de Patañjali mostra-o como metade homem e metade-serpente. A forma humana indica a individualidade do homem, uma vez que ele é dotado de inteligência para usar seus próprios esforços para atingir a meta. A forma da serpente sugere o movimento e a continuidade de sadhana, que não pode terminar até que o objetivo seja alcançado.
Patañjali nos indica mover-nos como uma serpente, intensa, silenciosa e rapidamente no caminho do yoga e ser um tivrasamvegin, o tipo final de aluno.
Se você tiver entendido o significado, ofereça suas preces com mente suplicante, de modo que você saiba o que o sábio Patañjali quer dizer com tajjapah tadarthabhavanam, que significa recitar as orações, consciente, devotada e repetidamente.
Falemos agora de algumas das qualidades de Patañjali, de acordo com suas obras. Patañjali é uma personalidade imortal, versátil, um mestre de conhecimentos diversos com qualidades divinas. Ele é um dharmin, virtuoso e piedoso em suas ações, um tapasvin, bhaktin, sannyasin e
devoto praticante. É um artista, hábil dançarino, cientista, matemático, astrônomo, erudito, físico,
psicólogo, biólogo, neurologista, cirurgião, médico qualificado e um educador por excelência. É uma encarnação das gloriosas qualidades desraddha, virya e vairagya. É um especialista no tempo cronológico e psicológico, bem como na ciência da gravidade. Ele transcende
purusarthas, ou seja, dharma, artha, kama e moksa, bem como prakriti. Tem memória insuperável e é bem versado na natureza e suas funções. E ainda assim, permanece um ser puro, um perfeito siddhan, uma Alma realizada. Todas essas qualidades impregnam a vida de Patañjali.
Isto não é um exagero. Os siddhis mencionados no Vibhuti Pada dizem respeito a vários aspectos da existência, do cosmos, do corpo, da mente e carregam a marca de sua autêntica e profunda experiência. Deixe-me concluir esta viagem imortal, queridos sadhakas, com um anjali, uma oferta sublime. A em nós mesmos deveria crescer com a compreensão. Quando o ego começa a dissolver-se, os olhos começam a ver a grandeza dos ensinamentos inspirados por um dos
pensadores mais originais que existiu. Nós somos mortais e Patañjali é imortal.
Assim como um rio não retém sua individualidadequando se une com o mar, que por meio de nossas práticas nos unamos ao rio de luz do yoga, que nos foi transmitido por Sri Patañjali.
Hari om tatsat
*Agradecimento especial ao BKS Iyengar Yoga Institute Amsterdam. Artigo re-postado em 4/2/2018 em https://plus.google.com/+bksiyengaryogashala/posts/ZYYQNc9fdkf

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