ESFORÇO SEM ESFORÇO

ESFORÇO SEM ESFORÇO

 (e quanto esforço se requer para realmente consegui-lo…)

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Marcia Neves Pinto

 

Na prática dos āsanas é preciso ter a estabilidade de tadāsana e a passividade de savāsana. – Prashant Iyengar.

Um conceito a que B. K. S. Iyengar frequentemente se referia quando discutia a prática era esforço sem esforço. A primeira vez em que ouvi esta frase, realmente me impactou, haja vista a quantidade de esforço que eu empregava para tentar executar um sem número de posturas em pé, as primeiras que aprendemos no método Iyengar.

O conceito está contido nos Yoga Sutras de Patañjali:

Sutra II.47

प्रयत्नशैथिल्यानन्त्यसमापत्तिभ्याम्॥४७॥

prayatnashaithilyaanantyasamaapattibhyaam

A postura se torna perfeita quando cessa o esforço e por meio da meditação sobre O Infinito. 

Entendi a frase como esforço sem força, isto é, a prática equilibrada das ações e não ações, o emprego do esforço necessário para executar todas as ações necessárias para alcançar uma postura inteligente, ao mesmo tempo em que todo esse esforço deve cessar para colher os resultados físicos, fisiológicos, mentais e emocionais da execução. A prática deliberada, repetida e consciente das posturas, mas sem exaurimento ou agressividade. A frase capta a suavidade/tranquilidade com que nossa prática deveria ocorrer, mas sem sugerir que ela deveria ser “fácil”, indolente, tamásica.

Na minha prática pessoal persisto na busca de um nível saudável do que imagino poderia ser chamado de esforço sem esforço. Mais no começo de minha prática, frequentemente ouvi meus professores me dizerem que estava exagerando as ações. Entretanto, quando tentava ser menos intensa, tinha a nítida impressão de que faltava a ação correta. Como alcançar o equilíbrio?

Nesta fase tento me manter comprometida com minha prática, sigo as instruções de cada postura, examino minhas ações com o crivo da verdade (satya) e procuro eliminar a agressividade, a violência (himsa), a força bruta. Basicamente isto me leva a distinguir entre esforço e exaurimento, entre dores musculares, dores positivas porque auxiliam no estabelecimento da força e da estabilidade e dores negativas, que são aquelas que colocam a saúde do meu corpo e a estabilidade da minha mente em estado de ameaça.

Atualmente é mais raro um professor me dizer que estou exagerando na intensidade das minhas ações: acho que estou começando a entender o que é executar uma postura sem sobrecarregar meu corpo e minha mente… Ainda há um longo caminho pela frente, mas agora a sensação de paz que segue cada prática é uma constante e não termino minha prática exausta: cansada, sim, mas com aquele contentamento (santosa) típico da tarefa cumprida satisfatoriamente, mesmo que tenha falhado na execução de alguma ou algumas posturas. Amanhã tento de novo, e de novo, e de novo, até conseguir. A disciplina (tapas) e o auto estudo (svadyaya) se encarregarão disto. A prática regular (abhyasa) e desprendida dos resultados (vairaghya) são os melhores instrumentos.

Mas muito esforço foi necessário para chegar a este ponto em que a ausência de esforço começa a aparecer. Observar alguns professores sênior (Karin O’Bannon, Raya Uma Datta e o próprio B. K. S. Iyengar) praticando com toda serenidade e contentamento estampados no rosto apesar da dificuldade inerente à execução de um determinado asana, contribuiu muito para meu processo de aprendizado.

Existem muitos asanas em que ainda emprego muito esforço porque meu corpo simplesmente parece recusar-se a cooperar, mas procuro evitar brigar comigo mesma. Virabhadrasana I, Parsvottanasana e Parivrtta Trikonasana, por exemplo, provavelmente serão posturas inalcançáveis para mim. Meu calcanhar da perna de trás se recusa totalmente a ir para o chão. Falta a cada ano menos um pouquinho, mas o avanço é penosamente lento, o que às vezes me faz pensar em simplesmente desistir…

Mas o avanço em outros asanas depende tanto desta mesma conquista, que fica impossível não retornar ao meu tapetinho para tentar de novo. E de outros modos. E com outros acessórios. E neste passo é que a provável luta se transforma em uma divertida brincadeira, um desafio à minha inteligência e disciplina e faz com que eu volte seguidamente para superar a mim mesma, superar as minhas próprias dificuldades. É um exercício de humildade, de aceitação sem resignação, de consolidação, integração e penetração do conhecimento, do autoconhecimento.

Devemos ter humildade para reconhecer em que ponto de maturidade estamos na nossa prática e ir progredindo etapa por etapa na evolução do āsana, até o ponto em que mantemos íntegras sua estrutura e ações. O āsana não precisa ser perfeito, mas precisa ser ótimo: o melhor que você pode fazer, mantendo a integridade de sua estrutura e ações. – María de Jesús Lorrio

E deste modo penso que me aproximo do objetivo final do yoga, o autoconhecimento promovendo a integração de todas as minhas infinitas partes com as infinitas partes do Universo que parece estar à minha volta, mas que sou eu mesma, ainda que ainda esteja muito distante de executar bem uma única postura: yoga não é uma prática puramente física e pode nos tornar seres humanos melhores.

Namastê!

 

 

 

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