O QUARTO ESTÁGIO DO YOGA: PRĀṆĀYĀMAO QUARTO ESTÁGIO DO YOGA: PRĀṆĀYĀMA

A respiração é o rei da mente

 Marcia Neves Pinto 

Há cerca de 2.500 anos Patañjali escreveu os Yoga Sūtras, texto que contém 196 sūtras ou aforismos, que oferecem um método completo para o indivíduo se desenvolver e alcançar a união interior. Nos dois primeiros sūtras Patañjali afirma que quando a mente se aquieta, o eu repousa em sua morada. Mas quando a mente não está quieta, está divagando, está voltada para o exterior, o eu não consegue repousar em sua morada, isto é, o indivíduo não experimenta a essência de seu ser ou, em outras palavras, não está em contato com seu self.

Patañjali descreve vários métodos para aquietar as flutuações da mente, adaptando-os às diferentes capacidades e níveis de desenvolvimento dos indivíduos, de modo que todos quantos praticam yoga podem alcançar a integração entre corpo, mente e alma. Uma delas é prāṇāyāma. O mecanismo respiratório é, sem dúvida, o que está mais intimamente ligado às emoções. Observe o estado da respiração de uma pessoa com raiva – curta e rápida, com predominância inspiratória e torácica – em relação à de uma pessoa calma – respiração lenta e longa, com predominância abdominal e expiratória. E se é verdade que nosso estado emocional e mental determinam a qualidade de nossa respiração, também é verdade que o controle da nossa respiração determina a qualidade da nossa mente e nosso estado emocional.

Uma metáfora conhecida e retirada do Bhagavad Gīta descreve citta (mente, razão e ego) como uma carruagem puxada por vigorosos cavalos. Um deles é prāṇa (sopro vital), o outro é vāsanā (desejo). A carruagem vai na direção do animal mais forte. Quando a respiração prevalece, os desejos são controlados, os sentidos são refreados e a mente é acalmada. Quando o desejo prevalece, a respiração se descontrola, e a mente fica agitada e perturbada. Por isso, o yogī busca o domínio da ciência da respiração e, por meio de seu controle e regulação, ele controla a mente e aquieta seu constante movimento. Isso o capacitará a controlar os sentidos e assim atingir o estágio de pratyāhāra. Somente então a mente estará pronta para a concentração (dhyāna).

“Em termos filosóficos, a inspiração é o movimento executado pelo eu para entrar em contato com a periferia: a essência do ser se move com a respiração e atinge a camada mais profunda da pele – a derradeira fronteira do corpo. Esse é o processo evolutivo de exteriorização da alma. A expiração é a viagem de retorno; é o processo de involução, por meio do qual o corpo, as células e a inteligência se movem para dentro, para alcançar sua origem, o ātma, ou cerne do ser. Esse processo de evolução e involução que ocorrem em cada indivíduo é prāṇāyāma.

Nesse sentido, em cada ciclo de respiração, temos dois caminhos para atingir o entendimento da existência de Deus. Eles são conhecidos como pravṛtti-mārga, o caminho da criação, e nivṛtti-mārga, o caminho da renúncia. Pravrtti-mārga está na inspiração e nivṛtti-mārga, na expiração. Com base nessa filosofia, os iogues são treinados para alcançar o equilíbrio entre ambos os estados. Dessa forma, abhyasa, a prática, e vairāgya, a renúncia, são reunidos de modo coeso na prática do kūmbhaka, que geralmente é traduzido como retenção.

Kūmbhaka é a retenção da respiração, da inteligência e do eu. (…) No kūmbhaka, o si mesmo se torna um com o corpo, e o corpo se torna um com o si mesmo. É a divina união de corpo e mente, na inspiração, expiração e retenção.

Se você considerar a respiração na forma do sistema respiratório, é algo físico. Mas quando a ação da respiração sobre a mente é estudada e compreendida, torna-se espiritual. O prāṇāyāma é a ponte entre o físico e o espiritual. O prāṇāyāma é o ponto central do ioga.”[1]

Prāṇa significa energia. Energia cósmica, energia individual, energia sexual, energia intelectual (…). O prāṇa é universal. Permeia o indivíduo como também o universo, em todos os níveis. Tudo que vibra é prāṇa: calor, luz, gravidade, magnetismo, vigor, poder, vitalidade, vida, eletricidade, respiração, espírito – todos são formas de prāṇa.[2] E como já dito, prāṇa é energia, ayāma é a armazenagem e a distribuição dessa energia, que tem três aspectos: extensão vertical, extensão horizontal e extensão circunferencial.

O prāṇāyāma é o elo de ligação entre o organismo fisiológico do homem e sua dimensão espiritual. Se conseguirmos controlar a respiração, poderemos controlar a mente e vice-versa. O sūtra II.50 do Yoga Sūtras de Patañjali explica que a inspiração (pūraka), a expiração (rechaka) e a retenção (kūṁbhaka) da respiração têm de ser tornadas exatas, isto é, a respiração tem de ser regulada e tornar-se precisa no tempo, no espaço e em número. A extensão da inspiração, expiração e retenção deve ser a mesma; inspiração e expiração devem ser prolongadas, suaves e ininterruptas. A retenção ou suspensão da respiração pode se dar na inspiração ou na expiração, sem perturbar o corpo.

“O prāṇāyāma está na fronteira entre os mundos material e espiritual, e o diafragma é o ponto de encontro dos planos fisiológico e espiritual de seu corpo. Se, quando você segura a respiração, sua mente se desconcentra depois de um certo tempo, isso não é kūṁbhaka. (…) Kūṁbhaka não é segurar o fôlego, é reter energia. Kūṁbhaka é realizar a própria essência do ser (…).

O Haṭha Yoga Pradīpika diz que você, conscientemente, chega a experimentar esse estado de união com o eu por meio de prāṇāyāmas. Quando você é uno em seu íntimo, torna-se rei entre os homens.” [3].

“Se a mente estiver divagando, faça uma expiração lenta e suave, mantendo-a por alguns instantes. Deixe sua consciência fluir com a respiração. Então as flutuações cessarão. Você alcança a união da mente, e a dualidade até então presente desaparece. Agora sua mente está apta a meditar.

Quando você inspira, o eu entra em contato com o corpo. Por isso, a inspiração é a evolução da alma através do corpo, é o hálito cósmico espiritual entrando em contato com a respiração individual.

Do ponto de vista da saúde física, a expiração é a remoção das toxinas existentes no sistema. Do psicológico, aquieta a mente. Do espiritual, é a respiração individual entrando em contato com o hálito cósmico exterior para que se unam.

A expiração é a rendição do nosso ego. Não é a expulsão de ar, mas a expulsão do ego em forma de ar. Na expiração, você se torna humilde, na inspiração vem o orgulho. (…) Aprender o prāṇāyāma é aprender e entender o movimento do apego ao desapego, do desapego ao apego.”[4]

Prāṇāyāma é portanto a ciência da respiração; o eixo em torno do qual gira a roda da vida. Segundo afirma B. K. S. Iyengar, em Light on Yoga, “a vida do yogī não é medida pela quantidade de dias e sim pelo número de respirações. Portanto, ele segue um padrão rítmico apropriado de respiração lenta e profunda. Esse ritmo fortalece o sistema respiratório, acalma o sistema nervoso e abranda a ansiedade. À medida que os desejos e a ansiedade diminuem, a mente fica livre e torna-se um veículo adequado para a concentração.”

Śankarāchārya explica que o esvaziamento da mente de toda ilusão é a verdadeira expiração (rechaka), que a realização de que ‘Eu sou Ātman (espírito)’ é a verdadeira inspiração (pūraka). E a manutenção firme da mente nesta convicção é a verdadeira retenção (kuṁbhaka). Este é o verdadeiro prāṇāyāma”, conclui.

A cada inspiração, os seres vivos pronunciam inconscientemente a prece “So’ham” (Saḥ = ele; aham = eu, ou seja, Ele, o Espírito Imortal, sou eu). Da mesma maneira, a cada expiração toda criatura recita “haṁsaḥ” (eu sou Ele). O yogī realiza plenamente o significado deste ajapa mantra e assim se liberta de todos os grilhões que aprisionam sua alma.

O prāṇa no corpo do indivíduo é parte do alento cósmico do Espírito Universal. Pela prática do prāṇāyāma, faz-se uma tentativa de harmonizar o alento individual com o alento cósmico.

 

[1] B. K. S. Iyengar, A Árvore do Ioga, p. 100/101.

[2] B. K. S. Iyengar, A Árvore do Ioga, p. 179.

[3] B. K. S. Iyengar, A Árvore do Ioga, p. 186.

[4]B. K. S. Iyengar, A Árvore do Ioga, p. 187.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s