ENCONTROS COM PATAÑJALI YOGA SŪTRA: AVIDHYĀ

Patanjali ouro

AVIDHYĀ

Coordenação: Marcia Neves Pinto 

É interessante observar que nenhuma das outras cinco darśanas (filosofias) trata tão minuciosamente dos kleśas (aflições). A razão é que somente o yoga se preocupa em fornecer os instrumentos para se alcançar a liberdade última, precisando, portanto, esmiuçar tudo o quanto pode atrapalhar nesta jornada.

Vimos que a palavra sânscrita kleśa significa dor, aflição ou miséria, mas que gradualmente adquiriu o significado de causa da dor, da aflição ou da miséria. A filosofia dos kleśas é uma análise da causa subjacente e fundamental da miséria e do sofrimento humanos, bem como do modo pela qual esta causa pode ser eliminada eficazmente.

É importante que se compreenda que a filosofia dos kleśas, bem como a do próprio yoga, resulta de experiências científicas realizadas pelos ṛṣis (sábios), guiadas pelo espírito da pesquisa filosófica.

Pelo resumo apresentado na tabela extraída do livro de I. K. Taimni[1], vê-se que todo o tema foi tratado de maneira sistemática:

FILOSOFIA DOS KLEŚAS
PERGUNTAS ASSUNTO SŪTRAS
Que são kleśas? Enumeração e definições. II.3 a 9
Como são destruídos? Métodos. II.10 e 11
Por que devem ser destruídos? Porque nos envolvem num ciclo infinito de nascimentos e mortes e sofrimento. II.12 a 15
Pode seu resultado (sofrimento) ser destruído? Sim, aqueles que ainda estão no futuro. II.16
Qual a causa fundamental dessa miséria? União e identificação do conhecedor com o conhecido. II.17
Qual a natureza do conhecido? Interação da alma individual com os sentidos, os órgãos da ação e a mente e com as três qualidades da natureza: rajas, tamas e sattva. II.18 e 19
Qual a natureza do conhecedor? O conhecedor é pura consciência. II.20 a 22
Por que este conhecedor e conhecido têm estado unidos? Para a evolução dos poderes da natureza e para a auto realização da alma. II.23
Como se uniram o conhecedor e o conhecido? Por meio do véu da ilusão causado pela ignorância. II.24
Como podem ser separados o conhecedor e o conhecido? Destruindo-se o véu da ignorância. II.25
Como pode ser destruída a ignorância? Por meio do percebimento da alma de sua própria natureza. II.26 e 27
Como o discernimento para a percepção da própria natureza pode ser adquirido? Por meio da prática de yoga. II.28

Lê-se no Yoga Sūtras de Patañjali: II.3 – avidyā asmitā rāga dveṣa abhiniveśaḥ kleśaḥ: as cinco aflições que perturbam o equilíbrio da consciência são ignorância ou falta de sabedoria, ego, orgulho do ego ou senso do “Eu”, apego ao prazer, aversão ao sofrimento, medo da morte e apego à vida. E como o método de Patañjali é colocar os itens em ordem decrescente de importância em uma lista, temos que o primeiro e mais importante kleśa, porqueé o campo onde brotam todos os demais kleśas que são, na verdade, quatro categorias do primeiro, é avidhyā (ignorância). Avidhyā é a raiz dos kleśas – apego, ego, aversão e apego à vida – e determina o nascimento, o espectro de vida e suas experiências. Avidhyā é a soma total das impressões latentes criadas pelo processo de pensamento kliṣṭa vṛtti. Avidhyā é temporária, impura e causa dor ou sofrimento. Assim, quando a ignorância é destruída, os demais kleśastambém o são.

Iyengar[2] ensina que as aflições se dão em três níveis – intelectual, emocional e instintivo, pertencendo āvidyae asmitāao campo da inteligência, rāgae dveṣaao emocional e abhiniveśaao instintivo, uma vez que se conecta com o cérebro posterior ou inconsciente, retendo as impressões subliminares passadas ou saṁskāra.

Pontua Bryant[3] que esses cinco impedimentos, que estão localizados na mente, acionam e perpetuam saṃsāra, isto é, o ciclo de nascimento e morte, e relembra que Patañjali, no sūtraI.5, afirmou que os vṛttis podem ser de dois tipos: kliṣṭa, isto é, produzidos por esses kleśas, ou akliṣṭa, o que indica que pode haver vrttisque não são produzidos pelos kleśas, ou seja, que não são fruto da ignorância, apego, ego, aversão ou apego à vida. Deste modo, poder-se-ia dizer que yoga não é o afastamento do mundo, mas a vinculação iluminada ao mundo, isto é, a ação talhada a partir de akliṣṭa-vṛttis.

No sūtra seguinte Patañjali nos dá duas informações importantes; a primeira é que os kleśas estão inter-relacionados e a segunda, que está em ressonância com todo o pensamento indiano, é  que avidyā, ignorância, é a fundação de todos os outros kleśas – apego, ego, aversão e apego à vida, kṣetra, o campo eles que eles crescem, e por isso a causa máxima de saṃsāra:

II.4 – avidyā ks̥etram uttares̥am prasupta tanuvicchinna udārāśām: a falta de conhecimento é a fonte de todas as dores e sofrimentos se dormente, atenuada, interrompida ou plenamente ativa. Isto é, avidyā, ignorância espiritual, é a fonte de todos os outros obstáculos: arrogância, desejo, aversão e sede de viver, não importando esteja dormente, atenuada, escondida ou plenamente ativa.

Assim, quando a ignorância é destruída, os demais kleśastambém o são.

Taimni[4] esclarece que “a palavra avidhyā não é usada no seu sentido comum de ignorância ou falta de conhecimento, mas no seu sentido filosófico mais elevado. A fim de captar este significado da palavra, é preciso recordar o processo inicial por meio do qual, de acordo com a filosofia do yoga, a Realidade subjacente na manifestação torna-se envolvida na matéria. Consciência e matéria são separadas e completamente diferentes em sua natureza essencial, mas por motivos que serão estudados nos sūtras seguintes, têm que ser unidas. Como pode ātma, que é eternamente livre e autossuficiente, ser levado a assumir as limitações que estão envolvidas na associação com a matéria? Despojando-o do conhecimento, ou melhor, do percebimento de sua natureza eterna e autossuficiente. Esta privação do conhecimento de sua verdadeira natureza, que o envolve no ciclo evolutivo, é produzida por um poder transcendental, inerente à Realidade Última, poder este que é chamado māyā, ou a Grande Ilusão. (…)

Como resultado da ilusão em que a consciência se envolve, ela começa a identificar-se com a matéria, com a qual se associa. Tal identificação torna-se cada vez mais plena, à medida que a consciência descende mais na matéria, até que seja atingido o ponto de inversão e começa a escalada na direção oposta. O processo inverso da evolução, em que a consciência aos poucos se desembaraça, por assim dizer, da matéria, resulta em uma conscientização progressiva de sua verdadeira natureza, e termina em uma completa Auto-Realização em Kaivalya. Recebe o nome de avidhyā esta falta fundamental de conhecimento quanto à sua real natureza que começa com o ciclo evolutivo, é produzida pelo poder de māyā e termina com a conquista da Liberação em Kaivalya. (…) Esta ausência de percebimento de nossa verdadeira natureza resulta na inabilidade de distinguir entre o eterno, puro e bem-aventurado Eu espiritual, do não-eterno, impuro e doloroso não-Eu. (…)

A ideia central a ser apreendida é que ātma, em sua pureza, é completamente consciente de sua verdadeira natureza. A progressiva involução na matéria priva-o progressivamente desse Autoconhecimento, e é à privação deste que se chama avidhyā.

Vyasa[5] define o estado dormente, prasupta, como aquele quando os kleśas existem na mente no estado potencial de sementes. Śankara (cf. Bryant[6]) diz que apenas o apego, o ego, a aversão e o apego à vida podem estar em estado dormente, nunca a ignorância porque, sendo ela a fonte de todos os demais, está sempre manifestada, nunca dormente. Adiciona Vijnanabhiksu (cf. Bryant[7]) que um kleśa pode ficar dormente por longos períodos de tempo, mesmo encarnações, antes de ser reativado pelo fato da pessoa encontrar uma situação que o deflagre.

Quando os kleśas estão continuamente interrompidos – surgindo e sumindo – são ditos intermitentes, vicchinna. Kleśaintermitente difere de dormente na medida em que permanece inativo por períodos mais curtos de tempo, embora existente: por exemplo, quando o apego está presente, a aversão está ausente e vice-versa.

Quando, de acordo com Bryant citando Vyasa, alguém conscientemente cultiva um estado mental que é o oposto do kleśa, ele se torna fraco, tanu, o que se pode alcançar através da prática da kriyā-yoga (I.2). A prática de cultivar seus opostos e ponderar suas consequências, que pode ser encontrada em II.34, também enfraquece os kleśas. Desta forma, o conhecimento correto dispersa o seu oposto, o kleśada ignorância.

Como se pode ver no sūtra II.5 – anitya aśuci duḥkha anātmasu nitya śuci sukha ātma khyātiḥ avidyā, para Patañjali, confundir o transiente por permanente, o impuro por puro, o sofrimento por prazer e aquilo que não é o eu pelo eu, são todos considerados falta de conhecimento espiritual, significando total incompreensão, isto é, avidyā. Avidhyā não é conhecimento correto (pramāṇa) nem conhecimento incorreto (apramāṇa): é o conhecimento incorreto que aparenta ser correto; é o sentimento ou a percepção de um sujeito ou objeto por outro diferente.

É tomar o permanente (a Terra, o Sol, a Lua ou as estrelas) como impermanente e o permanente (a alma) pelo impermanente, de modo que avidhyā é a expressão de abhiniveśa – apego à vida ou medo da morte; e também de rāga – apego – quando tomamos o impuro pelo puro; e também de dveṣa – aversão – quando tomamos a dor pelo prazer; e também de asmitā – Eu-existo – quando tomamos aquilo que não é o Si-mesmo pelo Si-mesmo.

Bryant[8] observa que neste sūtra Patañjali dá uma importante definição de ignorância, a causa principal das amarras, dizendo que significa confundir a natureza da alma com aquela do corpo. O corpo é aqui descrito como sofrido, impuro e temporário, diversamente de puruṣa (alma individual), alegre, puro e eterno, constatando-se a exata oposição entre os dois e, em decorrência, a exata oposição entre o conhecimento convencional e o conhecimento verdadeiro.

Então, embora se possa pensar que o corpo, a mente e mesmo as posses de alguém são o eu verdadeiro desta pessoa, de fato não são e confundi-los é ignorância. Patañjali, adotando esse pensamento, está aludindo à visão defendida nos Upaniṣads de que o verdadeiro eu, ātman, é sukha, alegre e que a alegria experimentada em Brahman/ātman/puruṣa é não somente um estado de alegria, mas um número incontáveis vezes maior do que qualquer prazer experimentado correlacionado com prakṛti, o mundo da matéria.

Namāskar!

 

[1] A ciência do Yoga, 4ª edição, 2006, Editora Teosófica, Brasília – DF.

[2] B. K. S. Iyengar, Light on the Yoga Sūtras de Patañjali, Harper Collins Publishers, London, England, 1993.

[3] Edwin F. Bryant, The Yoga Sūtras of Patañjali, 2009, North Point Press, New York, USA.

[4] A ciência do Yoga, 4ª edição, 2006, Editora Teosófica, Brasília – DF, pág. 119/120.

[5] Edwin F. Bryant, The Yoga Sūtras of Patañjali, 2009, North Point Press, New York, USA.

[6] Edwin F. Bryant, The Yoga Sūtras of Patañjali, 2009, North Point Press, New York, USA.

[7] Edwin F. Bryant, The Yoga Sūtras of Patañjali, 2009, North Point Press, New York, USA.

[8] Edwin Bryant, The Yoga Sūtras of Patañjali, 2009, North Point Press, New York, USA.

Anúncios

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s