3º ENCONTRO COM PATAÑJALI YOGA SŪTRAS

Patanjali ouro NIYAMAS  Coordenação: Marcia Neves Pinto II.32 śauca santoṣa tapaḥ svādhyāya Īśvara praṇidhānāni niyamāḥ são os cinco niyamas, isto é, as regras que devemos observar, o que devemos fazer a fim de construirmos nosso caráter: śauca (limpeza/pureza), santoṣa (contentamento), tapaḥ (habilidade de suportar o desconforto), svādhyāya (estudo das escrituras, recitação dos mantras, autoestudo) e Īśvara praṇidhāna (entrega a Deus). “Yama e niyama ocupam-se com os hábitos do corpo e da mente. Patañjali nos afirma que certos hábitos precisam ser eliminados e outros, mantidos, de modo que o corpo e a mente possam funcionar de uma forma saudável. O que eliminar e o que manter é um assunto que cada um deve decidir por si mesmo. Para chegarmos à decisão certa, precisamos nos observar – tanto nossas tendências corporais como nossas reações mentais. A partir de tais observações, estaremos habilitados a decidir o que impede o funcionamento saudável do corpo e da mente e o que é conducente a uma vida saudável. Assim, yama e niyama devem ser aplicadas em função de nossas próprias observações. As quíntuplas yama e niyama fornecidas por Patañjali servem apenas como uma ampla pauta. Constituem uma estrutura geral que tenciona auxiliar o aspirante a desenvolver suas próprias abstinências e observâncias. Por exemplo, as exigências de nosso corpo podem indicar longas horas de repouso. Se assim for, não há mal algum em cumprir esta exigência. Em resumo, yama e niyama indicam regras para uma vida saudável, e cada aspirante deve decidir quais são as regras aplicáveis para seu próprio caso. (…) O que é, na verdade, pureza ou śauca? Ou, de outro modo, o que é que torna algo impuro? É óbvio que uma coisa permanece pura enquanto algo de fora não adere a ela. O mesmo acontece com a consciência, que se torna impura quando algo externo adere a ela. Portanto, a consciência, em sua natureza original, é sempre pura; a natureza adquirida que é impura. (…) A limpeza é a expressão elementar da pureza, e precisamos começar por ela. Todavia, não é suficiente. No processo contínuo da disciplina do yoga, precisamos estar vigilantes de como ficamos condicionados, como substâncias externas aderem à nossa consciência.”[1] “40. Pureza indica indiferença para com as reivindicações do eu e um retiro, de tempos em tempos, para a reclusão ou solidão. (…) É necessário que o aspirante retire-se em silêncio de tempos em tempos; porém, este silêncio não é simplesmente a cessação do ruído externo. Deve ser também uma cessação do ruído interno, ou seja, o ruído criado pela tagarelice da mente. (…) Unicamente quando não ouvimos as reivindicações da mente e do corpo é que podemos saber o que é a libertação da distração. A verdadeira pureza jaz nesta condição não distraída. O que acontece nesta condição de retiro é indicado no seguinte sūtra: (…) 41. Da purificação da mente surge a disposição, uni direção, controle dos sentidos e clareza de percepção. (…) A mente distraída obviamente está cansada, uma vez que não pode descansar mesmo que o lugar esteja fisicamente em silêncio. Todavia, aquele que pode ter momentos de quietude não distraída tem uma mente purificada, demonstrando disposição, uni direcionamento, controle dos sentidos e clareza de percepção. (…) Um homem distraído vê apenas a projeção de si mesmo.”[2] Santoṣa ou contentamento não implica em uma instrução para a resignação ou para enfeitarmos a realidade, mas em ver as coisas como elas são, não reagirmos, mas agirmos retamente com relação a elas. A prática da não reatividade é a tônica, aqui. “Ser psicologicamente autossuficiente é conhecer o segredo da felicidade. (…) Enquanto o homem pensar que sua felicidade reside fora de si, em acontecimentos exteriores, está destinado a ser infeliz, pois não pode controlar os acontecimentos externos. Ser autossuficiente psicologicamente é encontrar a felicidade interior.”[3] Os últimos três niyamas compõem kriyā yoga, são os mais importantes de serem observados e enfatizam a autodisciplina: II.1 – tapaḥ svādhyāya Īśvara praṇidhānāni kriyāyogaḥ, significa, segundo Iyengar, que o zelo ardente na prática, o auto estudo e o estudo das escrituras, bem como a entrega a Deus, são as ações do yoga: karma (ação), jñana (estudo)e bhakti (devoção) marga, os três grandes caminhos apontados no Gītā, cujas fontes são a vida, a sabedoria e a rendição do ego, respectivamente. Vijñānabhikṣu (cf. Edwin Bryant[4]) aponta que tapaḥ, svādhyāya e Īśvara praṇidhāna foram selecionados por Patañjali como os ingredientes mais importantes, uma vez que os colocou sob as rubricas de kriya e também de niyama. A disciplina para purificar os três aspectos do homem – corpo, fala e mente – constitui kriya-yoga, o caminho para a perfeição: nosso corpo se purifica através da autodisciplina (tapaḥ), nossas palavras pelo auto estudo (svādhyāya) e nossa mente através do amor e entrega a Deus (Īśvara praṇidhana). Há muitos significados para tapas nos Vedas. A raiz “tap” significa aquecer. Nos Yoga Sūtras aparece no contexto de sukhatyagam, isto é, abrir mão do prazer, suportar o desconforto que surge enquanto criamos o ciclo de oposição ao ciclo de pensamentos e impressões latentes. Neste contexto, desconforto significa a resistência mental para superar o ciclo pretérito de vṛtti↔saṁskāra, ao controle de comida ingerida, à introdução da prática de āsanas, prāṇāyāma e meditação na rotina diária. Tapaḥ não significa suportar dor ou sofrimento, mas antes se refere a ultrapassar a resistência mental a aderir à prática apropriada, quebrando os antigos padrões de vontade. Tapaḥ é o meio para cortar as raízes (vide Bhagavad Gītā, cap. 17, v. 14 a 16) que sustentam o ciclo de ignorância (avidyā) e a ação resultante (karma). Bryant observaque tapaḥ significa o controle dos sentidos tanto na qualidade quanto na quantidade, defendendo que não há yoga sem a prática de tapaḥ, autodisciplina, austeridade. A tendência da mente de perseguir a gratificação dos sentidos somente pode ser quebrada pela autodisciplina. Tapaḥ, ou austeridade ou a habilidade de suportar o desconforto ou, ainda, simplicidade, significa que uma vida simples é austera. Austeridade não significa mortificação nem negação, nem a levar uma vida de severas privações, significa que: “Uma mente inocente nunca se envolve em qualquer relacionamento de uso. (…) Uma mente inocente ou simples não se ocupa de acumular. Um homem espiritual aborda a vida de modo simples, pois ele não cai nos enredamentos do apego e da repulsão. Aquele que aspira trilhar a senda do yoga deve recuperar ‘o estado de criança’ – o estado de inocência e simplicidade. Apenas o homem inocente pode agir retamente, pois só ele é capaz de responder total e adequadamente aos desafios da vida. (…) O homem espiritual abandona-se, e é por este motivo que pode ir ao encontro dos desafios da vida com a totalidade de seu ser.”[5] Svādhyāya é o segundo componente de kriyā-yoga. A palavra é composta de “svā” que significa centro, “adhy” que significa perto e “āyana” que significa ir, portanto, svādhyāya significa ir em direção ao seu próprio centro ou Self ou auto estudo como meio de se chegar ao próprio Self ou, ainda, o estudo das escrituras que conduzem à liberdade (mokṣa) como os Upaniṣads, Bhagavad Gītā e os Yoga Sūtras, não incluindo as escrituras religiosas simples porque estas podem conduzir à prisão dos dogmas e rituais mais externos do que internos, não nos conduzindo em direção ao próprio Self. Svādhyāya indica auto estudo, ou seja, o estudo de si mesmo. Assim como o Bhagavad Gītā menciona kṣetra e kṣetrajña, o Campo e o Conhecedor do Campo, analogamente, svādhyāya exprime o estudo que pode ser feito das escrituras e também de nós mesmos”[6], isto é, é tanto o conhecimento, aquilo que pode ser coletado fora de nós – quanto à sabedoria, aquilo que surge do estudo de nós mesmos: o conhecimento do conhecedor. Svādhyāya neste sentido significa a observação de nós mesmos, pois apenas assim o estudo do conhecedor ou aquele que percebe que pode ser feito. (…) Certamente é o conhecimento de si mesmo que é parā vidyā, conhecimento superior ou sabedoria. O autoconhecimento é o próprio âmago da sabedoria e é isso que Patañjali se refere quando fala de svādhyāya.”[7] Vyāsa define Īśvara praṇidhāna como a dedicação de todas as ações a Deus e a renúncia a todos os frutos desejados. Vijñānabhikṣu nota que a submissão a Īśvara mencionada neste sūtra é diferente da interação com Īśvaraanotada em I.28, porque lá o contexto é de ter Deus como objeto de meditação, enquanto aqui a devoção a Īśvara tem a conotação de renunciar aos desejos do ego e oferecer as ações a Deus. A implicação disto é que a concentração interna em Deus é para os yogis mais avançados. Para os mais iniciantes, a prática é mais externa ou focada nas ações. Entretanto, é interessante observar que a devoção a Deus não é uma opção em kriya-yogacomo o era na escolha do objeto de meditação, marcando a orientação teística de Patañjali. Os comentaristas consideram essa dedicação dos frutos da ação a Īśvara como uma referência implícita a karma-yogacentrada em bhakti exposta no Gītā por Kṛṣṇa: “você tem o direito de cumprir seus deveres, mas não aos seus frutos; não se considere como o executor das suas atividades e não se apegue à inatividade.” (II.47). De acordo com as leis do karma, toda ação, boa ou má, quando executada com base no interesse próprio, ou mais precisamente, sob a influência da ignorância – confundindo o eu com o corpo ou a mente (II.5) – planta uma semente de reação, que nesta ou em futura vida irá eventualmente gerar frutos, bons ou maus, de acordo com a ação original (II.12). E muito embora a frequência com que se traduz Īśvara praṇidhāna como submissão a Deus, Rohit Mehta pondera: “Precisamos, contudo, nos lembrar de que Patañjali não menciona em parte alguma um Deus pessoal ou antropomórfico. Na verdade, na primeira seção dos Yoga Sūtras, Patañjali refere-se a Deus como um Princípio Eterno Atemporal. Portanto, Īśvara praṇidhāna mais exatamente significaria uma reta orientação para o Real ou Atemporal. O que é de fundamental importância na vida espiritual é a reta orientação. É o voltar-se de nossa consciência para a reta direção. (…) É com isso que estão ligadas as cinco observâncias. A reta orientação é possível quando há auto-observação, de modo que saibamos o que estamos fazendo e porque estamos agindo de uma maneira particular. Mas a auto-observação é possível apenas quando a consciência torna-se simples e inocente. Mais uma vez, o estado simples e inocente de consciência surge quando há contentamento, ou a visão das coisas como elas são. E este contentamento exige total pureza, de modo que nada de fora possa aderir a ele. Assim, śauca ou pureza, santoṣa ou contentamenti, tapaḥ ou simplicidade, svādhyāya ou auto-estudo e Īśvara praṇidhana ou reta orientação estão interrelacionados. A quíntupla observância, ou niyama, não sugere a observância de cinco coisas diferentes. O objetivo de niyama é levar o aspirante espiritual à reta orientação, de modo que possa avançar no caminho do yoga.” Slide1    [1] Rohit Mehta, Yoga – a arte da integração, Editora Teosófica, Brasília, DF, 1995, p. 110. [2] Rohit Mehta, obra citada, p. 128/129. [3] Rohit Mehta, obra citada, p. 130. [4][4] Edwin F. Bryant, The Yoga Sutras of Patañjali, North Point Press, New York, 1ª ed., 2009. [5] Rohit Mehta, obra citada, p. 111. [6] Rohit Mehta, obra citada, p. 111. [7] Rohit Mehta, obra citada, p. 112.

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