COMO INCORPORAR A PRÁTICA DOS NIYAMAS NA PRÁTICA DOS ĀSANAS[1]

NYAMAS

Marcia Neves Pinto

 

Nos Yoga Sūtras, Patañjali estabelece que, no caminho óctuplo do yoga, antes da prática dos āsanas e dos prāṇāyāmas, devemos nos estabelecer na prática dos yamas e na observância dos niyamas. Entretanto, a maioria dos praticantes da atualidade iniciam o caminho do yoga por meio da práticas dos āsanas, sem qualquer referência as demais sete estágios da árvore do yoga. Entretanto, incorporar a observância dos cinco niyamas à prática dos āsanas é indispensável, assim como dos cinco yamas, conforme já vimos.

Śauca, frequentemente traduzido como pureza/limpeza, deita suas raízes, em verdade, na manutenção da distinção das diferentes energias. Śauca garante e protege a qualidade de vibração da energia que nos cerca.

Há muitos modos de incorporar śauca à prática dos āsanas: guardar o material da prática de modo ordenado, as mantas com as bordas alinhadas apropriadamente, os mats corretamente enrolados, blocos ordenadamente empilhados, é um deles, prática que ajuda os praticantes a cultivar a atenção sobre o que os cerca. Outra é estar atento aos demais praticantes, professores ou alunos e seus tapetes, evitando pisar neles quando cruzam a sala para pegar materiais ou para se dirigirem às paredes. Não somente esta é uma atitude higiênica, mas também ensina a importância de manter a energia de sua própria prática separada da dos outros. Estas atitudes desenvolvem a essência do respeito por todas as coisas.

Quando mantemos nossos tapetes em linhas retas, ordenadamente, a energia flui à nossa volta de modo ordeiro e mantêm limpa a energia da sala de prática e um aspecto sinérgico toma lugar: a energia e o efeito do trabalho de um praticante ajuda o restante da classe a executar a postura. A energia do coletivo auxilia na execução da postura individual.

Entoar o mantra āuṁ no começo da aula cria a separação entre o foco externo no mundo da vida diária e o foco interno da prática do yoga. Entoar o mantra āuṁ novamente ao final da aula sela a energia da prática no praticante antes que ele deixe a sala de prática para retornar aos afazeres do cotidiano. Esta separação de energias é śauca.

Durante uma prática aula de āsanas, observe santoṣaou contentamento com os resultados obtidos, em vez de violentar seu corpo e sua mente com uma prática além do que permitido por seus limites naquele dia, para aquele āsana, sob pena de causar dano a si mesmo (ahiṃsa). Lembre-se que se não pode ir mais profundamente na execução de uma variação de uma postura, isso não significa que a postura esteja mal feita. Em vez disso, a postura está tão boa quanto pode ser hoje, mas ficará melhor amanhã se novamente for tentada. No Light on Yoga (B.K.S. Iyengar, Schocken), você não verá nenhuma postura na qual Guruji pareça tenso ou desapontado. Se observarmos nossas expressões faciais contorcendo em uma postura, esta é a hora de parar e restabelecer a calma e o contentamento. Somente com esse espírito é que devemos retomar a nossa prática da postura. A qualidade de contentamento conduz à paz da mente.

Tapaḥ, perseverança/esforço, ao contrário, deve ser introduzida em nossa prática sempre que percebermos que não estamos nos esforçando adequadamente. Demanda esforço inteligente produzir frutos em qualquer tipo de atividade ou empreendimento. Entretanto, é preciso contrabalançar tapaḥ (esforço) com santoṣa (contentamento) a fim de evitar ahiṃsa (dano).

A observância de svādhyāya ou auto estudo em uma prática de āsanas é, essencialmente, examinar-se. Devemos olhar para dentro de nós mesmos e buscar perceber o que está acontecendo com nossos corpos e mentes durante e depois da prática de cada postura, que mudanças ocorrem. Isto constrói autoconhecimento, a fundação de svādhyāya.

Desde a execução da primeira postura até a última, mesmo que esteja cercado de praticantes, pratique concentrado em si mesmo, não entre em competição com os demais, não se compare, nem cobice a postura do colega (aparigraha). O foco durante a prática deve voltar-se para dentro de si mesmo. Esta conduta não somente estimula o autoconhecimento, mas também previne lesões (ahiṃsa), na medida em que estamos mais conscientes do que estamos fazendo e dos sinais indicativos de que estamos alcançando nossos limites de uma prática segura.

A prática constante da reflexão nos torna conscientes das mudanças que o yoga provoca em nossos corpos, mentes e espíritos.

Uma outra forma de encorajar a observância de svādhyāya é ter em mente os ensinamentos constantes dos Yoga Sūtras de Patañjali.

A maioria de nós está concentrado em alcançar determinados resultados em nossa prática de āsanas. Entretanto, os resultados de nossas ações não nos pertencem e no mais das vezes nem sequer está sob nosso controle. Nisto reside a observância de Īśvara praṇidhāna. Deste modo, o que importa são nossa intenção e nosso esforço.

De certo modo, somos atores desempenhando nossos próprios papéis, de acordo com nosso próprio dharma, no grande palco da vida. Quando entendemos isso de verdade, nos tornamos menos obcecados conosco mesmos e com os frutos do que produzimos e, deste modo, melhor capacitados para praticar yoga com a intensidade e a calma necessários.

Boa prática! Namaskār!

 

[1] Este artigo é um excerto de Teaching the Yamas and Niyamas, de Aadil Palkhivala.

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