Arquivo do mês: março 2014

Yoga injuries: who’s at fault?

Yoga Spy

urdhva-mukha-svanasana Ever been injured in a yoga class? Chances are, we’ve all felt a twinge in one class or another. So, who’s at fault? The teacher? The student? Or are occasional tweaks simply part of being active and exploring our limits?

Since William Broad began writing about yoga injuries in the New York Times, most fingers have been pointed at unqualified yoga teachers. Michaelle Edwards, founder of YogAlign, goes further, claiming that yoga injuries are prevalent because many poses are anatomically incompatible with the human body. This is a complex issue, too long for a blog post. A few thoughts for starters:

utthita-trikonasanaPain versus strong sensation

In February, a few weeks into winter session, a new student politely told me, “Last week my back hurt the day after class.”

What?! “How long did it hurt?” I asked her. “Did you feel pain during class?” I couldn’t imagine any intro poses injuring this healthy 20-year-old university student.

It turned out…

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MOBILIDADE NA ESTABILIDADE

MOBILIDADE NA ESTABILIDADE

Hanuman BKS

I.13 – tatra sthitau yatnaḥ abhyāsaḥ

Marcia Neves Pinto 

O mundo atual gira em uma velocidade na qual a maioria de nós deseja resultados rápidos e instantâneos, preferencialmente sem sofrimento ou trabalho árduo. Ademais, nossa civilização tem caminhado para a busca dos prazeres imediatos em lugar da felicidade duradoura.

Neste pondo é preciso dizer que o engajamento na disciplina do yoga não é para aqueles que são preguiçosos, sem entusiasmo, enfatuados, que buscam incessantemente o prazer pelo prazer. Yoga é para aqueles que buscam uma continuidade de mutações a fim de obter a transformação que culmina na estabilidade final, isto é, samādhi, a absorção última da energia individual na Energia Universal.

Mas este resultado somente é alcançável por meio de uma prática estável dos oito membros do yoga (aṣṭāṅga yoga): yama, nyama, āsana, prāṇāyama, pratyāhāra, dhāranā, dhyāna e samādhi (sūtra II.29). Āṅga em sânscrito significa membro, aṣṭa significa oito, daí o nome aṣṭanga yoga, deixando claro que yoga é a prática de todos os oito membros e não de apenas alguns deles, a prática do conjunto sendo o caminho para a estabilidade da mente. A prática dos sete primeiros membros dá causa ao oitavo, samādhi.

Yama canaliza os órgãos de ação e niyama disciplina os sentidos de percepção. Yama niyama destinam-se a prover uma base moral adequada para treinamento do yogi, são práticas morais e éticas, códigos de conduta, o que não-fazer e o que fazer. O principal objetivo desse código de ética é eliminar por completo todas as perturbações mentais e emocionais que caracterizam a vida de um ser humano comum, causadas, entre outros, pela raiva, desonestidade, sensualidade e possessividade. Sem a prática deyama niyama não é possível alcançar as alturas do espírito.

Āsana e prāṇāyāma deixam o corpo e a mente saudáveis física, fisiológica e psicológicamente. Āsana harmoniza o corpo, equilibrando seus cinco elementos: ar, água, fogo, terra e éter. Prāṇāyāma proporciona poder sobre as qualidades especiais dos elementos: som, tato, forma, sabor e odor.

Pratyāhāra é o controle das atividades mentais, a disciplina dos sentidos da percepção e órgãos da ação para que fiquem livres dos prazeres sensuais extravagantes, possibilitando que o praticante mantenha seu nível de energia e se mantenha passivo em seu próprio espaço.

Dhāranā guia a mente de forma que a atenção possa focar-se em um único ponto ou local. Pratyāhāra e dhārāna são o elo condutor do estudo de si-mesmo. Pratyāhāra é a zona de estabilização da inteligência e dhāranā é a viagem inversa dos órgãos de ação, dos sentidos de percepção, da mente e da inteligência em direção ao si-mesmo.

Como pode se ver, a origem da estabilidade está na mobilidade. Ninguém pode alcançar a estabilidade diretamente, a não ser lidando com a mobilidade. A mobilidade é dinâmica, a estabilidade sem a mobilidade levará à estagnação.

A palavra estabilidade, em sânscrito, é sthiratā ou sthairya. A palavrasthiratā expressa diferentes aspectos da estabilidade como constância, firmeza, estabelecimento. O antônimo de estabilidade é mobilidade. Mobilidade indica, em geral, movimento, ação e função. Neste contexto significa movimento, ou melhor, um movimento progressivo. Ambos, mobilidade e estabilidade, são essenciais para a progressão.

A mobilidade é energia cinética enquanto a estabilidade é energia estática. A mobilidade é o estímulo que inspira prosseguir, enquanto a estabilidade é a energia estática que mantém o equilíbrio ou a força interna para ter firmeza. Um praticante de yoga necessita de ambas as qualidades – mobilidade e estabilidade, a inspiração para prosseguir e a adesão para estabilizar-se.

Patañjali, em todos os pontos e níveis de sādhanā, nos dá bhāvanā, isto é, a sensação daquele estágio onde precisamos ter completa mobilidade e flexibilidade com esforços dinâmicos a fim de nos dirigirmos à estabilidade.

Logo no primeiro sūtra de Samādhi Pāda lemos: “atha yogānuśāsanam”.por meio do uso da palavra anuśāsanam, Patañjali está solicitando que tenhamos completa estabilidade, já que estamos lidando com uma disciplina. A palavra anu, quando usada como prefixo da palavra śāsanam,significa um por um, dando a ideia de repetir algo metodicamente. Em outras palavras, indica o fluxo da disciplina. E toda disciplina tem uma fundamentação estável. Quando Patañjali diz anuśāsanam, ele está nos informando da necessidade de termos disciplina para seguir a disciplina doyoga, com o que denota estabilidade.

A esta disciplina segue-se a estabilização da mente. Patañjali indica isso com a frase do segundo sūtrayoga citta vṛtti nirodaḥ (I.2). Isto significa que citta (consciência), está completamente preenchida e saturada porvṛttis (perturbações) e que esses vṛittis causam a instabilidade da consciência. É por causa desses vṛittis que trazem instabilidade que o yogaentra em cena para nos dar os instrumentos para refrea-los.

Esta consciência factual das oscilações da mente indicada por Patañjali é, em si mesma, a jornada da mobilidade para a estabilidade.” Todo o processo do yoga é o movimento para tornar citta nirvṛttika, isto é, livre de flutuações, modificações, perturbações.

Importa lembrar que a alma, o si-mesmo, ātmanpuruṣa ou self, é estável porque é imutável, mas que prakṛti (a natureza) é mutável e transformável. A mobilidade tem este significado e é isto que torna o yoga possível: a mobilidade para empreender mutações. Porém, devemos saber como trazer a mudança para essa transformação, de forma que ela sirva ao nosso propósito. Se pensarmos neste sentido, vamos saber que para alcançar a estabilidade se requer muita mobilidade.

E para alcançar a estabilidade, Patañjali nos deu o metódo:

I.12 – abhyāsa vairāgyābhyāṁ tannirodhaḥ

Abhyāsa significa prática, portanto, mobilidade e vairāgya significa desprendimento, ausência de desejo, portanto, estabilidade.

Finalmente, no sūtra I.13 Patañjali define que tipo de mobilidade é necessária: I.13 – tatra sthitau yatnaḥ abhyāsaḥ, isto é, o esforço contínuo (yatha) e estável (sthitau) na prática dos oito aspectos do yoga (II.29 –yama, nyama, āsana, prāṇāyama, pratyāhāra, dhāranā, dhyāna e samādhi). Este sūtra claramente indica a presença dos conceitos de estabilidade e mobilidade na senda do yoga.

E o sūtra I.14 esclarece de que tipo de esforço se está falando: sa tu dīrghakāla nairantarya satkārāsevitaḥ dṛḍhabhūmiḥ, isto é, o processo contínuo e estável. Donde a prática (abhyāsa) precisa ser feita por um longo tempo, sem interrupções, com humildade e dedicação. Como praticantes de yoga temos que nos lembrar destas linhas em todos os momentos de nossas práticas, inclusive na prática dos āsanas: o āsanadeve ser estável.

Estabilidade em um āsana não significa simplesmente congelarmos as ações físicas. Patañjali alude à estabilidade em um āsana no sūtra II.46, dizendo: sthira sukham āsanam, isto é, āsana é a perfeita firmeza do corpo, estabilidade da inteligência e benevolência do espírito. Assim, independentemente de qual āsana estamos praticando, ele deve ser feito com firmeza, estabilidade e empenho físico; boa vontade da inteligência mental; consciência e satisfação da inteligência do coração. Isto é como umāsana deveria ser entendido, praticado e experimentado. A prática de umāsana deveria nos nutrir e iluminar.

E mais: a perfeição em um ásana é obtida quando o esforço para praticá-lo deixa de existir, isto é, quando a perseverança no esforço não é mais necessária, e o ser infinito é alcançado. A perseguição esforçada da perfeição não é mais necessária quando chegamos ao platô da estabilidade, a dizer, a mobilidade cessa porque alcançada a estabilidade na postura. Quando isso ocorre é porque o praticante atingiu um estado de equilíbrio, atenção, extensão, difusão e relaxamento simultâneos no corpo e na inteligência e estes se fundiram à alma.

A abordagem de vairāgya também se dá passo a passo com a estabilidade. Patañjali aponta cinco estágios de vairāgya, dizendo que, primeiro, trazemos o controle sobre os seus órgãos de ação e sentidos da percepção desengajando-os de ações sedutoras e atrativas, de modo que os sentidos da percepção se tornem sem desejos; então, tornamos a mente sem desejos, acalmando-a, retirando-a dos objetos ou pensamentos que nos seduzem. Finalmente, nossa consciência tem de livrar-se inteiramente do desejo, de forma que atinjamos o supremo desprendimento. Esses cinco estágios não se dão no curso de cinco dias, talvez possa levar vidas. Essa aproximação passo a passo é mobilidade, que deve ser feita com um entendimento estável. Isso significa que precisamos ter a inteligência estável dentro de nós, o que nos recorda todo o tempo que somos yoga sādhakas (estudantes de yoga) e que nossa meta é alcançar o desprendimento com por meio da prática.

Namaskār!

IYENGAR YOGA: O QUE É E ONDE PRATICÁ-LO NO BRASIL

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IYENGAR YOGA: O QUE É E ONDE PRATICÁ-LO NO BRASIL 

Marcia Neves Pinto

“Yoga é muito mais do que um exercício. O que eleva a prática de āsana do patamar de exercício para yoga é a ação inteligente e a infusão da consciência por todo o ser durante a prática das posturas. Quando refinamos o que poderia ser um movimento puramente mecânico com a ação inteligente, transformamos nossa prática em meditação dinâmica. Essa meditação ilumina com conhecimento as partes do nosso corpo que antes se encontravam na escuridão, na inconsciência.” (John Schumacher)

 

 

Iyengar Yoga é um método baseado nos ensinamentos do guru B. K. S. Iyengar, hoje com 95 anos de idade e 80 anos de ensino, enraizado no clássico Yoga Sūtras de Patañjali. Iyengar Yoga é uma das metodologias da prática de yoga com maior número de adeptos em todo o mundo, distinguindo-se por sua ênfase no alinhamento do corpo, da respiração, da mente e do espírito em cada postura (āsana) praticada. Essa precisão gera força e estamina, equilíbrio e flexibilidade, evita lesões e maximiza benefícios, provendo uma profunda sensação de bem estar.

Āsana e prāṇāyama eram dublês de exercícios antes de B. K. S Iyengar ingressar no campo do yoga. À exceção dos livros e sistema de B. K. S Iyengar, nenhum outro livro ou sistema pode provar e convencer que āsanas são espirituais em sua abordagem e espirituais em sua finalidade. Ademais, os livros afirmam que yoga é ciência, mas somente B. K. S Iyengar o sistematizou como uma ciência. E nesse sistema, que chamamos de Iyengar Yoga, há três aspectos únicos que podem distingui-lo de todos os outros sistemas:

1. Tecnicalidades: são os aspectos técnicos dos āsanas, por meio dos quais o praticante tem acesso ao corpo que está além do corpo esquelético e muscular periférico, com o propósito de atingir a consciência por meio da prática dos āsanas, deste modo obtendo seus benefícios psicológicos e mentais. Todas essas coisas estão diretamente conectadas e dizem respeito a citta vṛtti nirodhaḥ – a cultivar, restringir, sublimar a mente.

2. Sequenciamento: em todos os outros sistemas qualquer āsana pode ser feito antes ou depois de qualquer outro āsana. Entretanto, a prática dos āsanas sem um método de sequenciamento pode ser muito contra producente quando os āsanas são feitos com envolvimento e complexidade, podendo subverter o desenvolvimento psicomental do āsana precedente. Em nossas complexas práticas cultivamos a mente e, portanto, temos de tomar cuidado com o que deve se seguir a um āsana em particular ou a um particular conjunto de āsanas. O sequenciamento auxilia na obtenção de maior penetração, na exploração e descoberta de mesmo. Ainda mais importante, ajuda a desenvolver um estado psicomental sereno, sublime, claro, a coletar e acumular os benefícios dos āsanas. É por isso que, após o final de uma prática ou de uma aula, obtemos um estado mental que é o resultado da execução de uma sequencia inteira de āsanas e não de apenas um āsana.

3. Tempo: é o aspecto da cronometragem que ajuda a construir, desenvolver e concretizar os efeitos dos āsanas. O aspecto da cronometragem serve à criação de uma determinada circulação de energia dentro de nós que é peculiar àquele āsana. Isso é muito importante para a evolução da consciência ou para a alteração do estado da mente. A medida de tempo, de permanência em um āsana, não é estabelecida aleatoriamente, mas é a extensão de tempo no qual a postura é realizada metabolicamente, celularmente, com todas as interações internas. É o metabolismo e não o cronômetro que dita a extensão do tempo de permanência.

Esses três aspectos estão tão integrados que não funcionam de uma maneira isolada. A integração desses três aspectos é a quarta característica diferenciadora do sistema Iyengar.

Porém, uma das razões para a adesão maciça ao método é o fato de Iyengar ter desenvolvido acessórios próprios para a prática de yoga (cadeiras, cintos, cordas, blocos, etc), de modo a tornar acessível para toda e qualquer pessoa, independentemente de idade e condição física, o estudo, a prática e a possibilidade de beneficiar-se das posturas e técnicas respiratórias de yoga, o que revolucionou seu ensino.

Os professores do método Iyengar têm de treinar por anos, passar por um curso de formação de professores com três anos de duração em que aprendem, não somente a praticar os āsanas, prāṇāyāmas e os diversos estágios que antecedem a meditação mas também a ensiná-los, sendo obrigatório o estudo de anatomia, o conhecimento dos Yoga Sūtras de Patañjali e do Bhagavad Gītā, bem como o estudo profundo das três obras de B. K. S. Iyengar que formam o tripé de conhecimento de seus ensinamentos: Light on Yoga, Light on Prāṇāyāma e Light on the Yoga Sūtras of Patañjali, dentre muitas outras de sua autoria.

Depois disso, os candidatos a professores têm de ser aprovados em um rigoroso exame teórico e prático a fim de obter a certificação como professor. Ultrapassada esta etapa, devem participar de seminários semestrais com professores seniores estrangeiros para atualização e aprimoramento de conhecimento e, se possível, ir estudar em Pune, Índia, no instituto de B. K. S. Iyengar, uma vez que o mestre criador do método ainda é vivo e continua empenhando-se em aperfeiçoá-lo.

B. K. S. Iyengar trouxe o yoga para o ocidente com seus ensinamentos pioneiros na década de 60, dando início ao crescimento maciço da popularidade do yoga. Em virtude disso, a Times Magazine declarou que B. K. S. Iyengar é uma das 100 pessoas mais influentes e poderosas do mundo.

No Brasil ainda estamos em um movimento de expansão da prática e do ensino de Iyengar Yoga, método ainda novo por aqui. Mas se você se interessou e quiser experimentar a prática, consulte a página da Associação Brasileira de Iyengar Yoga – http://www.iyengar.com.br/ e procure um professor perto de você. Em Porto Alegre você encontra as duas únicas professoras certificadas pela Associação Brasileira de Iyengar Yoga no Yoga Soul (http://www.yogasoul.com.br/) , situado na Rua Barão de Santo Ângelo, 384, telefone (51) 93099530, Moinhos de Vento, nos seguintes horários:

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MEDITAÇÃO EM ŚAVĀSANA

MEDITAÇÃO EM ŚAVĀSANA

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Marcia Neves Pinto

 

Em sua obra prima, Light on Yoga, B. K. S. Iyengar dedica um longo texto a śavāsana e descreve seus efeitos utilizando o verso 32 do primeiro capítulo do Haṭha Yoga Pradīpikā que diz: “Deitar-se em todo o comprimento com as costas sobre o chão, como um cadáver, se denomina śavāsana, remove a fadiga causada por outros āsanas e induz a calma na mente.” e o verso II do segundo capítulo do Geraṇḍa Saṁhitā: “Deitar nivelado no chão (sobre as costas) como um cadáver é denominado mṛtāsana. Esta postura destrói a fadiga e aquieta a agitação da mente.”

E prossegue Iyengar:

‘A mente é o senhor dos Indriyas (órgãos dos sentidos); o prāṇā (sopro da vida) é o senhor da mente.’ ‘Quando a mente está meditativa é chamada mokṣa (emancipação final, liberação da alma); quando prāṇāe manas (a mente) foram absorvidos, resulta uma alegria indefinível.’ (versos 29 e 30, capítulo IV, Haṭha Yoga Pradīpikā)

“Dependemos dos nervos para domar o prāṇā. A respiração tranquila, suave e profunda sem nenhum movimento brusco do corpo alivia os nervos e acalma mente. O estresse da civilização moderna causa a extenuação dos nervos. Śavāsana é o melhor antídoto.”

No inverno de 1991 Allan Wallace foi do Sri Lanka até Pune fazer aulas no centro de yoga de B. K. S. Iyengar (RIMYI). Alan Wallace é estudioso, praticante e professor de meditação. Um dos poucos mestres budistas que ensinam śavāsana como uma postura legítima para a meditação. Dr. Wallace, compartilhando sua experiência de ser aluno de BKS Iyengar, conta que estava impressionado pela extraordinária precisão, insight, conhecimento e absoluta autoconfiança do mestre do yoga.

Ele o ouviu com muito cuidado e praticou assiduamente horas por 5 horas por dia, com aulas de 1 hora e meia dia de duração. De acordo com ele, um dos maiores presentes que recebeu de Iyengar, além de toda a variedade de āsanas que lhe foram ensinados, foi a importância de śavāsana, a postura do cadáver:

“(…) ele ensinou śavāsana com toda a precisão, com toda a seriedade com que ensinou até mesmo os āsanas mais avançados e mais difíceis. (…)

A postura física não é difícil: você se deita numa linha reta, com os braços a 30º do tronco, palmas das mãos para cima, cabeça sobre um cobertor. (…) Mas śavāsana não é apenas um descanso para o corpo. É também uma disciplina meditativa, bem na fronteira entre a prática de āsanas e a prática da meditação. E ele ensinava o que fazer com a mente naquela posição:

‘Você deve trazer sua mente diretamente para o momento presente e colocá-la em śavāsana. Você estabelece a mente no corpo, quieta, sem reagir, sem cogitar, sem esperar, sem temer, sem lembrar, sem planejar. Não há mais nada a fazer, exceto estar agora em śavāsana.

Se você quer meditar, sentar ereto em padmāsana ou em alguma outra postura de meditação formal, sentado com as pernas cruzadas, está tudo muito bem. Mas primeiro domine śavāsana; porque se você não domina śavāsana, você não está pronto para meditação.’

“Śavāsana é uma forma de meditação, uma forma de cultivar a atenção plena, a consciência, a calma e a imobilidade. Não é cair no sono. É, definitivamente, um processo de cultivar a mente numa postura em que você pode colocar o corpo profundamente relaxado, sem desconforto, sem luta para manter-se na posição correta.

Essa é uma boa base para a meditação e os grandes mestres da tradição do yoga descobriram isso há séculos na Índia rural. (…) Com seu corpo profundamente relaxado, sua mente profundamente tranquila, você pode avançar e começar a meditar. Mas sem essa plataforma dada por śavāsana, você trará para a sua prática todo esse lixo da modernidade, atravancando sua prática de meditação. Então, eu sou um dos poucos professores de meditação que enfatiza fortemente isso. E, na verdade, você encontra nos ensinamentos do Buda sobre meditar sentado, deitado, em pé e caminhando, todas posturas legítimas para meditação.

Ao envelhecermos, pode ser que não tenhamos mais a habilidade de sentarmos numa postura apropriada para meditar por longos períodos. E então: paramos de meditar? Então, já agora, na plenitude da vida, aprender a meditar corretamente na posição de supino já estará nos preparando para podermos meditar bem eficazmente, mesmo em ocasiões em que estivermos doentes ou acamados.”

(link para a entrevista dada por Allan Wallace: http://www.youtube.com/watch?v=N4WMLJnGbOM)

 

O QUE É AṢṬĀṆGA YOGA

O QUE É AṢṬĀṆGA YOGA

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Marcia Neves Pinto

 

Ainda na obra Árvore do Ioga[1], parte II, B. K. S. Iyengar ensina:

“Todos os oito membros do ioga têm seu lugar na prática do āsana. O primeiro é yama, comparado às raízes da árvore porque é a fundação a partir da qual cresce todo o resto.”

Yama contém os princípios de ahiṁsā (não violência), satya (verdade), asteya (isenção da avareza), brahmacharya (controle do prazer sensual) e aparigraha (não ambição).

A prática da não violência em um āsana significa a integração dos lados direito e esquerdo do corpo, o equilíbrio. Quando direito e esquerdo estão em harmonia, existe a verdade, que é o segundo princípio de yama. Você está na verdade porque não está escapando à realização do āsana no lado mais fraco.

Brahmacharya significa que a alma se move com seu ato. Quando existe união da alma com o movimento, isso é brahmacharya, contenção.

E na medida em que damos total atenção à realização equilibrada dos lados direito e esquerdo do corpo no āsana, não há apego ou avareza, pois quando a alma se move com inteligência no corpo, não há o que possuir, não há o que se buscar. Dá-se a libertação da cobiça porque a motivação para tal desaparece. E quando a motivação se vai, o mesmo acontece com as posses e, assim, o desejo de adquirir chega ao fim.

Quando os princípios de yama estão presentes na execução de um āsana, a isso se chama disciplina ética na execução de um āsana.

São também cinco os princípios de nyama. O primeiro deles é śauca, que significa higiene. Num āsana a limpeza se dá pela execução harmônica dele, os dois lados em sintonia são limpos adequadamente e irrigados pelo sangue, que transporta a energia biológica conhecida como prāṇā.

Quando estamos executando os āsanas, levamos o sangue a cada uma de nossas células, liberando a energia oculta de nosso corpo e trazendo luz, que vivenciamos na forma de santoṣa, o contentamento, que é o segundo princípio de niyama.

Mas além dele há um nível mais elevado de contentamento e um de execução de āsanas, expresso nos outros três níveis de niyama: tapas, svādhyāya e Īśvara-praṇidhana.

Tapas é o desejo ardente de purificar cada célula de nosso corpo e de nossos sentidos. E é nesse espírito que um āsana deve ser executado, por isso Patañjali denomina a prática de yoga de karma-yoga, yoga da ação, porque o desejo ardente de manter todas as nossas partes limpas exige-nos uma ação nesse sentido.

Svādhyāya quer dizer estudo do eu, no sentido de conhecer cada um dos três níveis e de cada uma das cinco camadas do ser humano. Isso é conhecido como jñāna-yoga, yoga do discernimento espiritual.

Īśvara-praṇidhana é bhakti-yoga, yoga da devoção. Quando, por meio da prática, se alcança um estado mais elevado de inteligência e essa identidade madura faz com que se perca a identidade do ser, tornamo-nos unos com o Espírito Universal ou com as Leis do Universo e isto é Isvara-praḍidhana:a entrega de nossos atos e de nossas vontades ao universo, que é o último dos cinco princípios de niyama.

Em suma, o efeito dos āsanas é manter a pele, as células, os nervos, as artérias e veias, os sistemas respiratório e circulatório, digestivo e excretor, a mente, a inteligência e a consciência, todos limpos e nítidos. Isso engloba todos os princípios de yama e niyama, que são as raízes e o tronco da árvore do yoga.

A atitude correta na realização de um āsana é de estar totalmente absorvido, com devoção, dedicação e atenção voltados para a postura. Deve haver honestidade na abordagem e na apresentação. Além de ser honesto consigo mesmo, é preciso ter muita fé, coragem, determinação, consciência e absorção para fazer bem uma postura. O āsana deve revestir a totalidade do ser do praticante com esplendor e beleza. Essa é a prática espiritual em sua forma física.

Āsana quer dizer postura, que é a arte de posicionar o corpo todo com uma certa atitude física, mental e espiritual. As posturas têm dois aspectos: a permanência e o repouso. A permanência implica ação (…). Repousar significa refletir sobre a postura. A postura é repensada e reajustada , para que os vários membros e segmentos corporais sejam posicionados em seus devidos lugares na ordem certa, e a sensação seja de descanso e apaziguamento, enquanto a mente experimenta a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras, das células.(…)

Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, entramos em estado de contemplação ou meditação, conhecido como āsana. As dualidades entre corpo e mente, mente e alma, são vencidas ou destruídas.

A estrutura do āsana não pode mudar, pois cada āsana é uma arte em si. O praticante deve estudar cada āsana aritmética e geometricamente, para que sua verdadeira forma seja evidenciada e expressa na sua apresentação. A distribuição do peso do corpo deve ser equilibrada pelos músculos, ossos, mente e inteligência. Resistência e movimento devem estar em harmonia.”

Patañjali diz que, quando um āsana é realizado corretamente, as dualidades entre corpo e mente, mente e alma, desaparecem. Isso é conhecido como repouso na permanência, reflexão durante a ação. Quando os āsanas são executados dessa maneira, as células do corpo, que têm sua própria memória e inteligência, mantêm-se sadias, em consequência mantendo o corpo fisiológico (praṇamaya-kośa) sadio, possibilitando que a mente se aproxime da alma. Esse é o efeito dos āsanas.

 “Como as folhas que arejam a árvore e fornecem nutrição para que seu crescimento seja saudável, também o prāṇāyāma alimenta e areja as células, os nervos, os órgãos, a inteligência e a consciência do sistema humano. Quando estamos realizando um āsana, só podemos estender plenamente o corpo se sincronizarmos a respiração com o movimento. Prāṇa é energia. Ayama é criação, distribuição e manutenção. Prāṇāyāma é a ciência da respiração, que leva à criação, distribuição e manutenção da energia vital.”

Ao inspirar e expirar o cérebro acompanha esse movimento. Quando retemos o ar, o cérebro se paralisa. O interesse do yogi é manter a cabeça e o coração limpos por meio da harmonia da respiração, e isso é alcançado com a prática dos prāṇāyāmas.

Em termos filosóficos, a inspiração é o movimento executado pelo eu para entrar em contato com a periferia. Esse é o processo evolutivo de exteriorização da alma. A expiração é o processo de retorno, de involução, através do qual o corpo, as células e a inteligência se movem para dentro, para alcançar o cerne do ser. Esse processo de evolução e involução que ocorrem em cada indivíduo é prāṇāyāma.

Kumbhaka é a retenção da respiração, da inteligência e do eu.”

Quando a retenção da respiração se dá na inspiração, a essência do ser é mantida pelo praticante enquanto lhe é possível reter o ar, sendo essa a meditação sobre a alma (ātma-dhyana).

“O prāṇāyāma é a ponte entre o físico e o espiritual. O prāṇāyāma é o ponto central do ioga.”

Quando estamos intensa e totalmente absorvidos na execução do āsana, isso é pratyāhāra. “Geralmente, pratyāhāra é traduzido como introversão dos sentidos. Isso significa direcionar os sentidos da periferia da pele para o cerne do ser, a alma. No momento em que a mente se torna silenciosa, o si mesmo repousa em sua morada e a mente se dissolve. De maneira semelhante, quando os músculos e as articulações se mantêm em repouso em suas posições, o corpo, os sentidos e a mente perdem a sua identidade e a consciência brilha em toda a sua pureza. Esse é o significado de pratyāhāra.”

O pensamento hindu distingue a mente, aquela que reúne informações, da inteligência, aquela que tem o poder de discriminar o certo do errado e de raciocinar claramente.

“A parte intelectual da mente capta, coleta e acumula informações, mas não tem o poder da discriminação. Discriminação é conhecida como pratyāhāra. (…) Em boa parte de nossa vida, a memória se sobrepõe à inteligência. Ela aciona a mente e, porque a mente é acionada pela memória, buscamos apenas experiências passadas. A memória teme perder sua identidade, e por isso, antes que a mente tenha a chance de convocar a inteligência, a memória entra em cena e diz ‘Aja! Agora! Imediatamente!’. Isso é chamado de impulso, e normalmente é ele quem governa nossos atos. (…) A impulsividade implica agir prontamente, sem parar para refletir. Por isso pratyāhāra, o quinto estágio do ioga, nos foi dado.”

Os cinco órgãos da percepção entram em contato com os cinco sentidos e enviam suas impressões à mente, que as armazena na memória. A memória anseia por mais experiências e aciona a mente que, ignorando a inteligência, dedica-se à busca dessas experiências sensoriais. “Os desejos atiçam a mente para que haja mais prazer. Por meio de prazeres repetidos, os órgãos da ação perdem sua potência e não são mais capazes de estimular os órgãos da percepção ou a mente. A pessoa continua suplicando por vivências passadas, mas não consegue obter satisfação. Assim é plantada a semente da infelicidade.”

O ato de ir contra a corrente da memória e da mente é pratyāhāra, o processo de avaliar os próprios instintos, pensamentos e atos é a prática da renúncia (vairāgya). A memória experimenta novas impressões e é domada pela consciência, que por sua vez toma a inteligência (buddhi), dominando a natureza impulsiva e libertando o discernimento intuitivo.

Pratyāhāra significa não permitir que a memória domine, de modo que possa existir uma ligação direta entre a mente e a inteligência. Atingir esse grau de domínio é ter o yoga a seu dispor, é ter um novo conhecimento e entendimento da vida.

(…) quando a consciência está isenta das muletas das ondas de pensamento, torna-se altamente sensível, imaculada, pura e absoluta, como o vidente. Daí em diante, a consciência se dá conta de que quem percebe, o instrumento da percepção, e o objeto da percepção são o mesmo, e a mente pode refletir sem refrações ou distorções. Patañjali diz que, nesse estágio, a memória, por ter alcançado sua maturidade, perde sua existência, e a mente, livre das memórias do passado, torna-se ainda mais viva, vigilante e sábia (Yoga Sūtras, I.43).”

“Conduzir a mente em suas divagações a um estado de contenção é chamado dhāraṇa. Dhāraṇa é concentração, ou atenção, completa.” Quando se está fazendo um āsana, a consciência deve alcançar as fronteiras do corpo em todas as suas partes, sem que haja espaço para outros pensamentos. Isso ocorre quando realizamos o āsana integralmente, com as células, os nervos, a inteligência, a consciência, o ser completo, em unidade.

“Manter-se deliberadamente isento de pensamentos é concentração e também meditação. (…) permanecer positiva e deliberadamente isento de pensamentos é samādhi.

O estado deliberado requer uma atenção deliberada. Permanecer com a mente vazia também requer uma atenção especial. Portanto, não existe realmente um estado que, a rigor, possa ser chamado de mente vazia (…). Você não se torna vazio. Permanece pleno e totalmente consciente. Isso é dhāraṇa que, com o tempo, leva a dhyana e ao samādhi. É assim que os āsanas devem ser feitos.”

“Na realização dos āsanas, dois caminhos ou vias estão envolvidos. Um é o evolutivo, expressivo ou exibitivo, e leva o si mesmo até o corpo, até os poros da pele, até a periferia. O outro é o involutivo, intuitivo ou inibitivo, no qual os veículos do corpo são encaminhados rumo à essência do ser. A união desses dois caminhos é o casamento divino do corpo com a alma e da alma com o corpo. É a meditação.”

A medicina fala da existência de nervos aferentes, que enviam mensagens dos órgãos de percepção até o cérebro e de nervos eferentes, que enviam mensagens do cérebro para os órgãos da ação. Os nervos aferentes são conhecidos como fibras da pele ou nervos do conhecimento (jñāna-nāḍī) e os nervos eferentes como fibras da carne ou nervos da ação (karma-nāḍī). O entendimento perfeito entre esses dois sistemas nervosos é yoga.

“Na prática do ioga, deve existir um espaço entre a ponta da fibra da carne e a ponta da fibra da pele – espaço entre receber a mensagem enviada pelos órgãos da percepção e a mensagem que volta para os órgãos da ação. Se você faz isso, é meditação. (…)

Você reflete sobre a ação produzida pela carne, que é percebida pela pele. Você julga o que é certo e errado. Quando julga e consolida o equilíbrio em todas as partes, isso é dhyana – é contemplação.”

“A meditação pura é aquela em que todos os veículos da pessoa – seus órgãos da percepção, da ação, a mente, o cérebro, a inteligência, a consciência – são encaminhados para o cerne do ser, sem qualquer divisão nesse estado. A meditação é o equilíbrio dinâmico entre a inteligência intelectual e a inteligência intuitiva.”

E “quando é mantida a estabilidade na experiência, e quando a sensação da experiência não oscila, há samādhi.

Sama’ significa equilibrado, em harmonia. Quando a alma, que é a causa da existência, se harmoniza e se difunde em todas as direções, há samādhi.”

Se praticarmos yoga com o propósito de cultivar o corpo e a mente, essa é uma prática espiritual. “Dessa forma, não existe diferença entre ação e meditação, assim como não há diferença entre haṭha-yoga e rāja-yoga. ‘Haṭha’ significa a força de vontade da inteligência; ‘rāja’ é a alma. Inteligência, como a ponte entre a alma e o corpo, é o fio usado para tecer corpo e alma numa união divina, num casamento divino, conhecido como samādhi, ou a vivência do uno e do absoluto. Esse é o fruto da árvore do ioga.”

Yama cultiva os órgãos da ação para que possam agir com fins corretos. Nyama civiliza os sentidos e os órgãos da percepção. Os āsanas irrigam todas as células do corpo humano, uma a uma, nutrindo-o com um abundante suprimento de sangue. Os prāṇāyāmas canalizam a energia. Pratyāhāra controla a mente e limpa-a de todas as suas impurezas. Dhāraṇa retira o véu que reveste a inteligência, tornando-a aguda e cada vez mais sensível, para que possa agir como ponte entre a mente e os recessos da consciência. Dhyana integra a inteligência. No samādhi, os rios da inteligência e da consciência fluem juntos e se fundem no oceano da alma, e então a alma brilha em toda a sua glória.”

Isto é yoga.

 

 

[1] Ed. Globo, 4ª reeimpressão, São Paulo/SP.

O QUE É YOGA

yoga sanskO QUE É YOGA

 

Marcia Neves Pinto

 

Na obra Árvore do Ioga[1], parte I – Ioga & vida, B. K. S. Iyengar leciona que yoga significa união: união do indivíduo com o Espírito Universal; união do corpo com a mente e da mente com a alma.

O haṭha yoga conduz o praticante ao vislumbre da própria alma. “Ha” significa “sol”, neste contexto o sol do seu corpo, isto é, sua alma; “ṭha”significa “lua”, ou seja, sua consciência. Nesse sentido, o sol que há em nós, nossa alma, nunca enfraquece; ao passo que a mente ou consciência, que tira da alma sua energia, tem suas flutuações, modulações, estados de humor, altos e baixos, como as fases da lua.

O Haṭha Yoga Pradīpikā diz que o yoga é “prāṇa-vṛttinirodha”, isto é, acalmar as flutuações da respiração. Já o Yoga Sūtras de Patañjali afirma que yoga é “citta-vṛtti-nirodha”, isto é, acalmar as flutuações da mente. Tanto o Haṭha Yoga Pradīpikā quanto o Yoga Sūtras de Patañjali afirmam que controlar a respiração e observar seus ritmos aquieta a consciência: ao controlar a respiração, você está controlando a consciência e, ao controlar a consciência, você dá ritmo à respiração.

O yoga é tradicionalmente dividido em oito aspectos, chamados yama, niyama, āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi. E como também pode ser dividido em três camadas – externa ou física, interna ou mental e íntima ou espiritual, podemos subdividir os oito aspectos do yoga em três grupos. Yama e nyama são as disciplinas social e individual; āsana, prāṇāyāma e pratyāhāra levam à evolução do indivíduo, ao entendimento da sua natureza; dhāraṇā, dhyāna e samādhi são os efeitos do yoga que criam condições para vislumbrar a alma.

O primeiro nível do yoga consiste no que pode ser chamado de regras para o que é permitido e para o que não é. Niyama nos diz o que devemos fazer pelo bem do indivíduo e da sociedade e yama o que deve ser evitado para não causar danos ao indivíduo e à sociedade. Ambas são disciplinas éticas presentes em todas as sociedades.

O segundo nível é o do desenvolvimento individual por meio da interpenetração corpo-mente-alma, estágio denominado sādhana ou prática e que engloba āsana, prāṇāyāma e pratyāhāra. Āsanas são as posturas praticadas com o corpo. Prāṇāyāma é a ciência da respiração. Pratyāhāra é silenciar os sentidos e mantê-los passivamente em suas posições ou direcioná-los para o interior da individualidade, para que possam assentar na essência do ser.

A terceira camada do yoga é descrita por Patañjali como o tesouro do yoga e trata-se do efeito ou fruto de sua prática: dhāraṇā, dhyāna e samādhi. Dhāraṇā é a concentração ou a atenção completa. Dhyāna é meditação. Sāmadhi é o ápice da prática do yoga: é o estado de graça e união com o Espírito Universal.

O yoga é uma ciência que libera a mente da pessoa do estado de prisioneira do corpo, encaminhando-a rumo à alma. Quando a mente alcança a alma e a ela se funde, a alma fica livre, permanecendo daí em diante em paz e em estado de beatitude.

Na parte II – A árvore e suas partes, explica que em qualquer postura do yoga exigem-se (1) senso de direção e (2) centro de gravidade. Para manter o centro de gravidade os músculos têm de estar todos alinhados uns com os outros. Se alguns músculos estiverem excessivamente estendidos o centro de gravidade mudará e a dor irá se manifestar na parte sob a qual a consciência não está agindo.

Cada qual se movimenta de acordo com sua própria memória e inteligência armazenadas. Para estar consciente dos movimentos é preciso meditar nas posturas. Se as executamos sem refletir enquanto as estamos praticando, estamos apenas nos concentrando e não meditando, de modo que um lado do corpo irá se comportar de modo diferente do outro.

Na prática podemos perceber que um lado do corpo é mais violento que o outro. O toque de um professor de yoga numa parte do corpo tem o efeito de nos fazer entender de modo subjetivo o que está ocorrendo em nosso corpo:

“Se você, como principiante, observar o esforço envolvido na realização da postura e continuar observando-o à medida que progride, verá que esse esforço diminui a cada dia, embora o nível de realização do āsana esteja melhorando. (…)

Conforme vai trabalhando, você pode sentir desconforto por causa da imprecisão de sua postura. Para que isso não ocorra, você precisa aprendê-la e assimilá-la. Tem de fazer um esforço de entendimento e de observação. (…)

O ioga requer análise durante a ação.”

Análise durante a ação é o único guia. O avanço se dá por tentativa e erro. Enquanto houver dúvidas o esforço é maior porque existe oscilação. Quando se encontra o método certo o esforço se torna menor porque a energia que se dissipa pelas várias áreas é controlada e não há mais perdas.

Quando sobrevém a ação ditada pela sabedoria, se sente o esforço como alegria.

“O corpo não pode ser separado da mente, nem a mente pode ser separada da alma.” Na Índia, a prática do āsana não se limita ao físico. Ela envolve todos os oito níveis do yoga, de yama e nyama até sāmadhi.

Quando se começa a trabalhar na execução dos āsanas, todos arranhamos apenas a superfície da postura: a ação conativa, isto é, a ação física no seu nível mais direto. Depois, quando já realizamos fisicamente a postura, a pele, os olhos, os ouvidos, o nariz e a língua – os órgãos da percepção – sentem o āsana, dando início ao segundo estágio da prática, a ação cognitiva.

O terceiro estágio é o da comunicação e tem início quando a mente observa o contato entre a cognição da pele e a conação da carne, assim chegando à ação mental do āsana. Nesse estágio a mente entra em ação e é atraída elos órgãos da percepção na direção dos órgãos de ação, sentindo exatamente o que está acontecendo.

“A mente age como uma ponte entre o movimento muscular e a ação dos órgãos de percepção, introduzindo o intelecto e ligando-o a todas as partes do corpo – fibras, tecidos e células (…), surgindo uma nova percepção. Observamos com atenção e lembramos a sensação da ação. Discriminamos com a mente. A mente discriminativa observa e analisa a sensação das diversas partes do corpo. Esse estágio é conhecido como ação reflexiva.

“Finalmente, quando existe uma sensação total da ação sem quaisquer flutuações do alongamento, então a ação cognitiva, a ação mental e a ação reflexiva se reúnem todas para compor a conscientização plena (…). Essa é a prática espiritual do yoga.”

O corpo compreende três dimensões: o corpo denso, chamado sthūla-śārīra, corresponde à camada física ou anatômica, denominada annamaya-kośa; o corpo sutil ou sūkṣma- śārīra, corresponde à camada fisiológica, prāṇāyāma-kośa, da camada mental, manomaya-kosa e da camada intelectual, vijñānamaya-kośa). O corpo mais interior, do qual dependem os demais, é chamado de corpo causal ou kāraṇa- śārīra, que é a camada espiritual da alegria, ānandamaya-kośa.

Quando todas as camadas se unem, a postura se torna contemplativa e atingimos o estado mais elevado de contemplação no āsana, o que é conhecido como integração, descrita por Patañjali no terceiro capítulo do Yoga Sūtras, envolvendo a integração do corpo, da respiração, dos sentidos, da mente, da inteligência ou do conhecimento e do eu com a totalidade da existência.

“É assim que os āsanas devem ser executados. Não vêm com um dia de prática, e nem com cem anos de prática. É um processo para a vida toda, desde que o praticante tenha as vitaminas iogues da fé, memória, coragem, absorção e um fio ininterrupto de atenção consciente. (…) Com elas, você pode conquistar as cinco camadas do corpo e tornar-se uno com o Self Universal.” 

 

[1] Ed. Globo, 4ª reeimpressão, São Paulo/SP.

Studying the Yoga Sutras, 5 lines at a time

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One of my mentoring teachers said a curious thing while I was training for my Intro II certification. She said that one of the best things she had ever done in her life was to memorize the Patanjali Yoga Sutras in Sanskrit. My teacher has accomplished much in her life, including opening and maintaining a successful studio for over ten years. So I took her words to heart and started my path committing these to memory. I am forging on to  learning five lines of Sutras in Sanskrit per week.

I am finding there are delightful resources and tools for accomplishing this goal both on the internet and through texts. Many years ago, I bought RIMYI published cassettes of the Yoga Sutras from my mentoring teachers. When you confront the Sutras in their original language, you quickly realize how brilliant Patajanli was to lay these deep statements down in what…

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