Arquivo do mês: outubro 2013

ACCIONES BÁSICAS EM LAS POSTURAS DE PIE: DESDE TADASANA HASTA PARSVOTTANASANA

Surya

“ACCIONES BÁSICAS EM LAS POSTURAS DE PIE”  é um trabalho realizado pelos amigos da formação em Iyengar Yoga em Buenos Aires, Argentina, sob a direção de Paula Self que, muito gentilmente ofertou a nós, brasileiros, o acesso ao blog da formação, cujo endereço é:

http://cursodeformacioniyengar.blogspot.com.ar

Gracias a ustedes, Paula Self !

Tendo em vista a proximidade da certificação no Brasil, compartilho aqui em word (link abaixo) as ações básicas das posturas de pé, de Tadasana a Parsvottanasana. Espero que seja útil aos candidatos à certificação!

Namaskar!

ACCIONES BÁSICAS EM LAS POSTURAS DE PIE

Yoga Sutra de Patãnjali

Você quer praticar Yoga, mas…

Ayurveda, a Arte do Bem Viver

Acha que não vai conseguir fazer “aquelas posições malucas”. Ou acha que não vai conseguir ficar “parado meditando”. Que não tem tempo ou não sabe onde praticar.Seus problemas acabaram! Porque Yoga se começa praticando a todo instante. Então qualquer um pode começar, em qualquer lugar.
Não entendeu nada? Deixe-me explicar.O sábio Patanjali, que viveu a muito, muito tempo codificou o Yoga no texto “Yoga Sutras”. Patanjali não “inventou” o Yoga. O Yoga já existia em seu tempo. O Yoga sempre existiu e sempre existira.Bem, o texto começa com o seguinte verso: Yogash chitta vritti nirodahah”.Traduzindo…

Ver o post original 725 mais palavras

IYENGAR YOGA AUSTIN: BACKBENDS SERIES

Imagem

It is a Mary Obendorfer  sequence courtesy of Jane Satter.   

Swastikasana –

 A.M. Virasana        
AMS
Uttanasana 
AMS / Uttanasana 
Uttanasana 
Tadasana 
Padangusthasana 
Urdhva Prasarita Eka Padasana        
Tadasana  
Adho mukha vrksasana. 
Sirsasana 
Tadasana
Bhujangasana 
Danurasana
Virasana on a lift 
Ustrasana
Wall 2 ways        
Ustrasana
Malasana
Marichi III 
Dandasana legs 
Prep for Sarvangasana
Sarvangasana 
Halasana
Savasana in Baddha Konasana
 

Vídeos da II Jornada – Conexões e Equivalências no Pensamento Bramânico (Edgard Bikelis)

IV Jornada de Filosofia Oriental da FFLCH/USP

Da II Jornada de Filosofia Oriental da Fflch-Usp – Conexões e Equivalências no Pensamento Bramânico, por Edgard Bikelis (USP)

Ver o post original

ENCONTROS COM PATANJALI YOGA SŪTRAS: AṢṬĀṆGA YOGA

Patanjali

ENCONTROS COM PATANJALI YOGA SŪTRAS 

Coordenação: Marcia Neves Pinto 

No nosso 1º encontro foram trazidas questões que antecedem os estudos dos sūtras e que são muito importantes não somente para o estudo deles, mas também para compreendermos o que é yoga. Sugiro, a fim de termos uma melhor compreensão do tema, a leitura de duas obras de B. K. S. Iyengar: Árvore do Ioga e Luz na Vida.

Na obra Árvore do Ioga[1], parte I – Ioga & vida, B. K. S. Iyengar leciona que yoga significa união: união do indivíduo com o Espírito Universal; união do corpo com a mente e da mente com a alma.

O haṭha yoga conduz o praticante ao vislumbre da própria alma. “Ha” significa “sol”, neste contexto o sol do seu corpo, isto é, sua alma; “ṭha”significa “lua”, ou seja, sua consciência. Nesse sentido, o sol que há em nós, nossa alma, nunca enfraquece; ao passo que a mente ou consciência, que tira da alma sua energia, tem suas flutuações, modulações, estados de humor, altos e baixos, como as fases da lua.

O Haṭha Yoga Pradīpikā diz que o yoga é “prāṇa-vṛttinirodha”, isto é, acalmar as flutuações da respiração. Já o Yoga Sūtras de Patañjali afirma que yoga é “citta-vṛtti-nirodha”, isto é, acalmar as flutuações da mente. Tanto o Haṭha Yoga Pradīpikā quanto o Yoga Sūtras de Patañjali afirmam que controlar a respiração e observar seus ritmos aquieta a consciência: ao controlar a respiração, você está controlando a consciência e, ao controlar a consciência, você dá ritmo à respiração.

O yoga é tradicionalmente dividido em oito aspectos, chamados yama, niyama, āsana, prāṇāyāma, pratyāhāra, dhāraṇā, dhyāna e samādhi. E como também pode ser dividido em três camadas – externa ou física, interna ou mental e íntima ou espiritual, podemos subdividir os oito aspectos do yoga em três grupos. Yama e nyama são as disciplinas social e individual; āsana, prāṇāyāma e pratyāhāra levam à evolução do indivíduo, ao entendimento da sua natureza; dhāraṇā, dhyāna e samādhi são os efeitos do yoga que criam condições para vislumbrar a alma.

O primeiro nível do yoga consiste no que pode ser chamado de regras para o que é permitido e para o que não é. Niyama nos diz o que devemos fazer pelo bem do indivíduo e da sociedade e yama o que deve ser evitado para não causar danos ao indivíduo e à sociedade. Ambas são disciplinas éticas presentes em todas as sociedades.

O segundo nível é o do desenvolvimento individual por meio da interpenetração corpo-mente-alma, estágio denominado sādhana ou prática e que engloba āsana, prāṇāyāma e pratyāhāra. Āsanas são as posturas praticadas com o corpo. Prāṇāyāma é a ciência da respiração. Pratyāhāra é silenciar os sentidos e mantê-los passivamente em suas posições ou direcioná-los para o interior da individualidade, para que possam assentar na essência do ser.

A terceira camada do yoga é descrita por Patañjali como o tesouro do yoga e trata-se do efeito ou fruto de sua prática: dhāraṇā, dhyāna e samādhi. Dhāraṇā é a concentração ou a atenção completa. Dhyāna é meditação. Sāmadhi é o ápice da prática do yoga: é o estado de graça e união com o Espírito Universal.

O yoga é uma ciência que libera a mente da pessoa do estado de prisioneira do corpo, encaminhando-a rumo à alma. Quando a mente alcança a alma e a ela se funde, a alma fica livre, permanecendo daí em diante em paz e em estado de beatitude.

Na parte II – A árvore e suas partes, explica que em qualquer postura do yoga exigem-se (1) senso de direção e (2) centro de gravidade. Para manter o centro de gravidade os músculos têm de estar todos alinhados uns com os outros. Se alguns músculos estiverem excessivamente estendidos o centro de gravidade mudará e a dor irá se manifestar na parte sob a qual a consciência não está agindo.

Cada qual se movimenta de acordo com sua própria memória e inteligência armazenadas. Para estar consciente dos movimentos é preciso meditar nas posturas. Se as executamos sem refletir enquanto as estamos praticando, estamos apenas nos concentrando e não meditando, de modo que um lado do corpo irá se comportar de modo diferente do outro.

Na prática podemos perceber que um lado do corpo é mais violento que o outro. O toque de um professor de yoga numa parte do corpo tem o efeito de nos fazer entender de modo subjetivo o que está ocorrendo em nosso corpo:

“Se você, como principiante, observar o esforço envolvido na realização da postura e continuar observando-o à medida que progride, verá que esse esforço diminui a cada dia, embora o nível de realização do āsana esteja melhorando. (…)

Conforme vai trabalhando, você pode sentir desconforto por causa da imprecisão de sua postura. Para que isso não ocorra, você precisa aprendê-la e assimilá-la. Tem de fazer um esforço de entendimento e de observação. (…)

O ioga requer análise durante a ação.”

Análise durante a ação é o único guia. O avanço se dá por tentativa e erro. Enquanto houver dúvidas o esforço é maior porque existe oscilação. Quando se encontra o método certo o esforço se torna menor porque a energia que se dissipa pelas várias áreas é controlada e não há mais perdas.

Quando sobrevém a ação ditada pela sabedoria, se sente o esforço como alegria.

“O corpo não pode ser separado da mente, nem a mente pode ser separada da alma.” Na Índia, a prática do āsana não se limita ao físico. Ela envolve todos os oito níveis do yoga, de yama e nyama até sāmadhi.

Quando se começa a trabalhar na execução dos āsanas, todos arranhamos apenas a superfície da postura: a ação conativa, isto é, a ação física no seu nível mais direto. Depois, quando já realizamos fisicamente a postura, a pele, os olhos, os ouvidos, o nariz e a língua – os órgãos da percepção – sentem o āsana, dando início ao segundo estágio da prática, a ação cognitiva.

O terceiro estágio é o da comunicação e tem início quando a mente observa o contato entre a cognição da pele e a conação da carne, assim chegando à ação mental do āsana. Nesse estágio a mente entra em ação e é atraída elos órgãos da percepção na direção dos órgãos de ação, sentindo exatamente o que está acontecendo.

“A mente age como uma ponte entre o movimento muscular e a ação dos órgãos de percepção, introduzindo o intelecto e ligando-o a todas as partes do corpo – fibras, tecidos e células (…), surgindo uma nova percepção. Observamos com atenção e lembramos a sensação da ação. Discriminamos com a mente. A mente discriminativa observa e analisa a sensação das diversas partes do corpo. Esse estágio é conhecido como ação reflexiva.

“Finalmente, quando existe uma sensação total da ação sem quaisquer flutuações do alongamento, então a ação cognitiva, a ação mental e a ação reflexiva se reúnem todas para compor a conscientização plena (…). Essa é a prática espiritual do yoga.”

O corpo compreende três dimensões: o corpo denso, chamado sthūla-śārīra, corresponde à camada física ou anatômica, denominada annamaya-kośa; o corpo sutil ou sūkṣma- śārīra, corresponde à camada fisiológica, prāṇāyāma-kośa, da camada mental, manomaya-kosa e da camada intelectual, vijñānamaya-kośa). O corpo mais interior, do qual dependem os demais, é chamado de corpo causal ou kāraṇa- śārīra, que é a camada espiritual da alegria, ānandamaya-kośa.

Quando todas as camadas se unem, a postura se torna contemplativa e atingimos o estado mais elevado de contemplação no āsana, o que é conhecido como integração, descrita por Patañjali no terceiro capítulo do Yoga Sūtras, envolvendo a integração do corpo, da respiração, dos sentidos, da mente, da inteligência ou do conhecimento e do eu com a totalidade da existência.

“É assim que os āsanas devem ser executados. Não vêm com um dia de prática, e nem com cem anos de prática. É um processo para a vida toda, desde que o praticante tenha as vitaminas iogues da fé, memória, coragem, absorção e um fio ininterrupto de atenção consciente. (…) Com elas, você pode conquistar as cinco camadas do corpo e tornar-se uno com o Self Universal.” 

AṢṬĀṆGA YOGA

“Todos os oito membros do ioga têm seu lugar na prática do āsana. O primeiro é yama, comparado às raízes da árvore porque é a fundação a partir da qual cresce todo o resto.”

Yama contém os princípios de ahiṁsā (não violência), satya (verdade), asteya (isenção da avareza), brahmacharya (controle do prazer sensual) e aparigraha (não ambição).

A prática da não violência em um āsana significa a integração dos lados direito e esquerdo do corpo, o equilíbrio. Quando direito e esquerdo estão em harmonia, existe a verdade, que é o segundo princípio de yama. Você está na verdade porque não está escapando à realização do āsana no lado mais fraco.

Brahmacharya significa que a alma se move com seu ato. Quando existe união da alma com o movimento, isso é brahmacharya, contenção.

E na medida em que damos total atenção à realização equilibrada dos lados direito e esquerdo do corpo no āsana, não há apego ou avareza, pois quando a alma se move com inteligência no corpo, não há o que possuir, não há o que se buscar. Dá-se a libertação da cobiça porque a motivação para tal desaparece. E quando a motivação se vai, o mesmo acontece com as posses e, assim, o desejo de adquirir chega ao fim.

Quando os princípios de yama estão presentes na execução de um āsana, a isso se chama disciplina ética na execução de um āsana.

São também cinco os princípios de nyama. O primeiro deles é śauca, que significa higiene. Num āsana a limpeza se dá pela execução harmônica dele, os dois lados em sintonia são limpos adequadamente e irrigados pelo sangue, que transporta a energia biológica conhecida como prāṇā.

Quando estamos executando os āsanas, levamos o sangue a cada uma de nossas células, liberando a energia oculta de nosso corpo e trazendo luz, que vivenciamos na forma de santoṣa, o contentamento, que é o segundo princípio de niyama.

Mas além dele há um nível mais elevado de contentamento e um de execução de āsanas, expresso nos outros três níveis de niyama: tapas, svādhyāya e Īśvara-praṇidhana.

Tapas é o desejo ardente de purificar cada célula de nosso corpo e de nossos sentidos. E é nesse espírito que um āsana deve ser executado, por isso Patañjali denomina a prática de yoga de karma-yoga, yoga da ação, porque o desejo ardente de manter todas as nossas partes limpas exige-nos uma ação nesse sentido.

Svādhyāya quer dizer estudo do eu, no sentido de conhecer cada um dos três níveis e de cada uma das cinco camadas do ser humano. Isso é conhecido como jñāna-yoga, yoga do discernimento espiritual.

Īśvara-praṇidhana é bhakti-yoga, yoga da devoção. Quando, por meio da prática, se alcança um estado mais elevado de inteligência e essa identidade madura faz com que se perca a identidade do ser, tornamo-nos unos com o Espírito Universal ou com as Leis do Universo e isto é Isvara-praḍidhana: a entrega de nossos atos e de nossas vontades ao universo, que é o último dos cinco princípios de niyama.

Em suma, o efeito dos āsanas é manter a pele, as células, os nervos, as artérias e veias, os sistemas respiratório e circulatório, digestivo e excretor, a mente, a inteligência e a consciência, todos limpos e nítidos. Isso engloba todos os princípios de yama e niyama, que são as raízes e o tronco da árvore do yoga.

A atitude correta na realização de um āsana é de estar totalmente absorvido, com devoção, dedicação e atenção voltados para a postura. Deve haver honestidade na abordagem e na apresentação. Além de ser honesto consigo mesmo, é preciso ter muita fé, coragem, determinação, consciência e absorção para fazer bem uma postura. O āsana deve revestir a totalidade do ser do praticante com esplendor e beleza. Essa é a prática espiritual em sua forma física.

Āsana quer dizer postura, que é a arte de posicionar o corpo todo com uma certa atitude física, mental e espiritual. As posturas têm dois aspectos: a permanência e o repouso. A permanência implica ação (…). Repousar significa refletir sobre a postura. A postura é repensada e reajustada , para que os vários membros e segmentos corporais sejam posicionados em seus devidos lugares na ordem certa, e a sensação seja de descanso e apaziguamento, enquanto a mente experimenta a tranquilidade e a calma dos ossos, das articulações, dos músculos, das fibras, das células.(…)

Quando essa sensibilidade está igualmente em contato com o corpo, a mente e a alma, entramos em estado de contemplação ou meditação, conhecido como āsana. As dualidades entre corpo e mente, mente e alma, são vencidas ou destruídas.

A estrutura do āsana não pode mudar, pois cada āsana é uma arte em si. O praticante deve estudar cada āsana aritmética e geometricamente, para que sua verdadeira forma seja evidenciada e expressa na sua apresentação. A distribuição do peso do corpo deve ser equilibrada pelos músculos, ossos, mente e inteligência. Resistência e movimento devem estar em harmonia.”

Patañjali diz que, quando um āsana é realizado corretamente, as dualidades entre corpo e mente, mente e alma, desaparecem. Isso é conhecido como repouso na permanência, reflexão durante a ação. Quando os āsanas são executados dessa maneira, as células do corpo, que têm sua própria memória e inteligência, mantêm-se sadias, em consequência mantendo o corpo fisiológico (praṇamaya-kośa) sadio, possibilitando que a mente se aproxime da alma. Esse é o efeito dos āsanas.

 “Como as folhas que arejam a árvore e fornecem nutrição para que seu crescimento seja saudável, também o prāṇāyāma alimenta e areja as células, os nervos, os órgãos, a inteligência e a consciência do sistema humano. Quando estamos realizando um āsana, só podemos estender plenamente o corpo se sincronizarmos a respiração com o movimento. Prāṇa é energia. Ayama é criação, distribuição e manutenção. Prāṇāyāma é a ciência da respiração, que leva à criação, distribuição e manutenção da energia vital.”

Ao inspirar e expirar o cérebro acompanha esse movimento. Quando retemos o ar, o cérebro se paralisa. O interesse do yogi é manter a cabeça e o coração limpos por meio da harmonia da respiração, e isso é alcançado com a prática dos prāṇāyāmas.

Em termos filosóficos, a inspiração é o movimento executado pelo eu para entrar em contato com a periferia. Esse é o processo evolutivo de exteriorização da alma. A expiração é o processo de retorno, de involução, através do qual o corpo, as células e a inteligência se movem para dentro, para alcançar o cerne do ser. Esse processo de evolução e involução que ocorrem em cada indivíduo é prāṇāyāma.

Kumbhaka é a retenção da respiração, da inteligência e do eu.”

Quando a retenção da respiração se dá na inspiração, a essência do ser é mantida pelo praticante enquanto lhe é possível reter o ar, sendo essa a meditação sobre a alma (ātma-dhyana).

“O prāṇāyāma é a ponte entre o físico e o espiritual. O prāṇāyāma é o ponto central do ioga.”

Quando estamos intensa e totalmente absorvidos na execução do āsana, isso é pratyāhāra. “Geralmente, pratyāhāra é traduzido como introversão dos sentidos. Isso significa direcionar os sentidos da periferia da pele para o cerne do ser, a alma. No momento em que a mente se torna silenciosa, o si mesmo repousa em sua morada e a mente se dissolve. De maneira semelhante, quando os músculos e as articulações se mantêm em repouso em suas posições, o corpo, os sentidos e a mente perdem a sua identidade e a consciência brilha em toda a sua pureza. Esse é o significado de pratyāhāra.”

O pensamento hindu distingue a mente, aquela que reúne informações, da inteligência, aquela que tem o poder de discriminar o certo do errado e de raciocinar claramente.

“A parte intelectual da mente capta, coleta e acumula informações, mas não tem o poder da discriminação. Discriminação é conhecida como pratyāhāra. (…) Em boa parte de nossa vida, a memória se sobrepõe à inteligência. Ela aciona a mente e, porque a mente é acionada pela memória, buscamos apenas experiências passadas. A memória teme perder sua identidade, e por isso, antes que a mente tenha a chance de convocar a inteligência, a memória entra em cena e diz ‘Aja! Agora! Imediatamente!’. Isso é chamado de impulso, e normalmente é ele quem governa nossos atos. (…) A impulsividade implica agir prontamente, sem parar para refletir. Por isso pratyāhāra, o quinto estágio do ioga, nos foi dado.”

Os cinco órgãos da percepção entram em contato com os cinco sentidos e enviam suas impressões à mente, que as armazena na memória. A memória anseia por mais experiências e aciona a mente que, ignorando a inteligência, dedica-se à busca dessas experiências sensoriais. “Os desejos atiçam a mente para que haja mais prazer. Por meio de prazeres repetidos, os órgãos da ação perdem sua potência e não são mais capazes de estimular os órgãos da percepção ou a mente. A pessoa continua suplicando por vivências passadas, mas não consegue obter satisfação. Assim é plantada a semente da infelicidade.”

O ato de ir contra a corrente da memória e da mente é pratyāhāra, o processo de avaliar os próprios instintos, pensamentos e atos é a prática da renúncia (vairāgya). A memória experimenta novas impressões e é domada pela consciência, que por sua vez toma a inteligência (buddhi), dominando a natureza impulsiva e libertando o discernimento intuitivo.

Pratyāhāra significa não permitir que a memória domine, de modo que possa existir uma ligação direta entre a mente e a inteligência. Atingir esse grau de domínio é ter o yoga a seu dispor, é ter um novo conhecimento e entendimento da vida.

(…) quando a consciência está isenta das muletas das ondas de pensamento, torna-se altamente sensível, imaculada, pura e absoluta, como o vidente. Daí em diante, a consciência se dá conta de que quem percebe, o instrumento da percepção, e o objeto da percepção são o mesmo, e a mente pode refletir sem refrações ou distorções. Patañjali diz que, nesse estágio, a memória, por ter alcançado sua maturidade, perde sua existência, e a mente, livre das memórias do passado, torna-se ainda mais viva, vigilante e sábia (Yoga Sūtras, I.43).”

“Conduzir a mente em suas divagações a um estado de contenção é chamado dhāraṇa. Dhāraṇa é concentração, ou atenção, completa.” Quando se está fazendo um āsana, a consciência deve alcançar as fronteiras do corpo em todas as suas partes, sem que haja espaço para outros pensamentos. Isso ocorre quando realizamos o āsana integralmente, com as células, os nervos, a inteligência, a consciência, o ser completo, em unidade.

“Manter-se deliberadamente isento de pensamentos é concentração e também meditação. (…) permanecer positiva e deliberadamente isento de pensamentos é samādhi.

O estado deliberado requer uma atenção deliberada. Permanecer com a mente vazia também requer uma atenção especial. Portanto, não existe realmente um estado que, a rigor, possa ser chamado de mente vazia (…). Você não se torna vazio. Permanece pleno e totalmente consciente. Isso é dhāraṇa que, com o tempo, leva a dhyana e ao samādhi. É assim que os āsanas devem ser feitos.”

“Na realização dos āsanas, dois caminhos ou vias estão envolvidos. Um é o evolutivo, expressivo ou exibitivo, e leva o si mesmo até o corpo, até os poros da pele, até a periferia. O outro é o involutivo, intuitivo ou inibitivo, no qual os veículos do corpo são encaminhados rumo à essência do ser. A união desses dois caminhos é o casamento divino do corpo com a alma e da alma com o corpo. É a meditação.”

A medicina fala da existência de nervos aferentes, que enviam mensagens dos órgãos de percepção até o cérebro e de nervos eferentes, que enviam mensagens do cérebro para os órgãos da ação. Os nervos aferentes são conhecidos como fibras da pele ou nervos do conhecimento (jñāna-nāḍī) e os nervos eferentes como fibras da carne ou nervos da ação (karma-nāḍī). O entendimento perfeito entre esses dois sistemas nervosos é yoga.

“Na prática do ioga, deve existir um espaço entre a ponta da fibra da carne e a ponta da fibra da pele – espaço entre receber a mensagem enviada pelos órgãos da percepção e a mensagem que volta para os órgãos da ação. Se você faz isso, é meditação. (…)

Você reflete sobre a ação produzida pela carne, que é percebida pela pele. Você julga o que é certo e errado. Quando julga e consolida o equilíbrio em todas as partes, isso é dhyana – é contemplação.”

“A meditação pura é aquela em que todos os veículos da pessoa – seus órgãos da percepção, da ação, a mente, o cérebro, a inteligência, a consciência – são encaminhados para o cerne do ser, sem qualquer divisão nesse estado. A meditação é o equilíbrio dinâmico entre a inteligência intelectual e a inteligência intuitiva.”

E “quando é mantida a estabilidade na experiência, e quando a sensação da experiência não oscila, há samādhi.

Sama’ significa equilibrado, em harmonia. Quando a alma, que é a causa da existência, se harmoniza e se difunde em todas as direções, há samādhi.”

Se praticarmos yoga com o propósito de cultivar o corpo e a mente, essa é uma prática espiritual. “Dessa forma, não existe diferença entre ação e meditação, assim como não há diferença entre haṭha-yoga e rāja-yoga. ‘Haṭha’ significa a força de vontade da inteligência; ‘rāja’ é a alma. Inteligência, como a ponte entre a alma e o corpo, é o fio usado para tecer corpo e alma numa união divina, num casamento divino, conhecido como samādhi, ou a vivência do uno e do absoluto. Esse é o fruto da árvore do ioga.”

Yama cultiva os órgãos da ação para que possam agir com fins corretos. Nyama civiliza os sentidos e os órgãos da percepção. Os āsanas irrigam todas as células do corpo humano, uma a uma, nutrindo-o com um abundante suprimento de sangue. Os prāṇāyāmas canalizam a energia. Pratyāhāra controla a mente e limpa-a de todas as suas impurezas. Dhāraṇa retira o véu que reveste a inteligência, tornando-a aguda e cada vez mais sensível, para que possa agir como ponte entre a mente e os recessos da consciência. Dhyana integra a inteligência. No samādhi, os rios da inteligência e da consciência fluem juntos e se fundem no oceano da alma, e então a alma brilha em toda a sua glória.”

Isto é yoga.


[1] Ed. Globo, 4ª reeimpressão, São Paulo/SP.

Vídeos da II Jornada – Do Sufismo Andaluz aos Dias de Hoje (Dra. Bia Machado)

IV Jornada de Filosofia Oriental da FFLCH/USP

Confiram mais um vídeo da II Jornada de Filosofia Oriental da Fflch-Usp: Do Sufismo Andaluz aos Dias de Hoje, pela Dra. Bia Machado.

Ver o post original